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v. 4, n. 09, set. 2026
Musealização e acervos digitais no Museu Amazônico – Entrevista com Mário Lima Júnior

Musealização e acervos digitais no Museu Amazônico – Entrevista com Mário Lima Júnior

Musealização e acervos digitais no Museu Amazônico – Entrevista com Mário Lima Júnior

Mário das Graças Carvalho Lima Júnior
mario@unifap.br

Sobre o entrevistado

Em 2024, Mário das Graças Carvalho Lima Júnior defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, sob orientação da Profa. Dra. Renata Cardozo Padilha.

Natural do Pará, Mário é bibliotecário e atua na Universidade Federal do Amapá e tutor do curso de Biblioteconomia EAD da Universidade Federal do Pará. Também realiza o doutorado em Ciência da Informação na Universidade Federal do Pará. Entre seus hobbies está escutar música.

Sua dissertação, intitulada “A Representação da Informação no acervo arqueológico do Museu Amazônico: perspectivas de musealização em repositórios digitais”, investiga formas de organizar e disponibilizar, em ambiente digital, informações sobre peças arqueológicas do Museu Amazônico. A pesquisa analisou o acervo e seu repositório, observando registros, descrições e padrões utilizados. Ao identificar a ausência de um padrão brasileiro específico para acervos arqueológicos digitais, o estudo dialoga com documentos do IPHAN e normas do IBRAM para propor uma organização informacional voltada a museus universitários, contribuindo para preservar, localizar, divulgar e valorizar o patrimônio cultural amazônico.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Mário Júnior (MJ): O mestrado foi minha válvula de escape para alguns problemas pessoais. Era período de pandemia e minha mãe tinha acabado de falecer. Para superar isso,resolvi tentar a seleção de mestrado, pois com o isolamento social, várias universidades adotaram o processo remoto. Cheguei a passar na Fiocruz, no Rio de Janeiro, mas optei pelo da UFSC por ter mais a ver com a minha área. A escolha do tema veio após eu sair da biblioteca e ir para o Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas e Patrimoniais do Amapá – CEPAP, na UNIFAP. Foi quando tive contato com material arqueológico musealizado e percebi uma oportunidade de trabalhar com esses materiais no formato digital a partir de um repositório.

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?

MJ: A pesquisa foi um estudo de caso. O Museu Amazônico é de uma universidade que pode adotar essa proposta para a organização, preservação e disponibilização de seu acervo arqueológico. De forma indireta, também serão beneficiados pesquisadores, estudantes, instituições de memória e a sociedade em geral, pois a proposta de organização das informações poderá facilitar a localização, o acesso, a pesquisa e a valorização do patrimônio arqueológico. A dissertação aponta que o modelo de metadados pode servir como referência para a descrição de acervos arqueológicos em museus universitários.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

MJ: Para a ciência, a dissertação contribui para ampliar os estudos da Ciência da Informação sobre a organização e representação de informações relacionadas a acervos arqueológicos em ambientes digitais. A pesquisa também evidencia a necessidade de novas pesquisas sobre essa temática, especialmente no contexto brasileiro. Para a tecnologia, a principal contribuição é a elaboração de uma proposta de esquema de metadados para organizar e descrever informações sobre objetos arqueológicos em repositórios digitais. A proposta foi construída a partir da comparação entre os dados utilizados pelo Museu Amazônico, a ficha de cadastro do IPHAN e elementos previstos na Resolução Normativa nº 6/2021

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

MJ: Meu trabalho está inserido na linha de pesquisa “Memória, Mediação e Organização do Conhecimento” e se relaciona com a memória por tratar da preservação e disponibilização digital de objetos que fazem parte do patrimônio arqueológico. Está relacionada à mediação porque busca facilitar o acesso e a circulação dessas informações entre o acervo, os pesquisadores e a sociedade. Por fim, relaciona-se à organização do conhecimento por analisar como as informações dos objetos arqueológicos são estruturadas e descritas por meio de metadados. Assim, a dissertação dialoga diretamente com os três eixos da linha, ao propor uma forma de organizar, preservar e tornar acessível a memória arqueológica em ambiente digital, por meio de um esquema de metadados voltado para museus universitários.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

MJ: Acredito que todos os artigos da pesquisadora e professora Maria Cristina Oliveira Bruno foram importantes para identificar alguns problemas que ocorrem quando se fala sobre acervos arqueológicos. São reflexões sobre as quais eu já pensava e que ela conseguiu, nesses artigos, traduzir ao abordar a questão do esquecimento dos acervos arqueológicos que ela chama de “estratigrafia do abandono”. Também considero decisiva a orientação da professora Renata Cardozo Padilha, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialmente pela sua experiência com documentação museológica, gestão de acervos, acervos digitais e memória.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

MJ: Os passos da metodologia foram definidos de forma gradual. Primeiro, busquei na literatura estudos sobre como informações de objetos arqueológicos são organizadas e disponibilizados em ambientes digitais. Em seguida, analisei o repositório digital do Museu Amazônico, observando como as informações sobre as peças arqueológicas estavam registradas. Depois, conversei com o arqueólogo responsável e com o profissional de tecnologia da informação que participou da implantação do repositório, para compreender como o acervo foi organizado e transferido para o ambiente digital. Por fim, comparei as informações utilizadas pelo Museu com os dados previstos na documentação do IPHAN e nas normas do IBRAM. A partir dessa comparação, identifiquei informações que poderiam ser acrescentadas e elaborei uma proposta de organização dos dados para melhorar a descrição e o acesso ao acervo arqueológico. 

Em resumo: primeiro pesquisei o que já existia, depois compreendi como o Museu tratava seu acervo e, por fim, propus um modelo mais adequado para organizar essas informações no ambiente digital.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

MJ: O problema não foi a escrita em si, mas a definição do objetivo para viabilizá-la. A minha pesquisa levou quase dois anos para ser consolidada, considerando que prorroguei o prazo ao máximo e defendi no último limite regimental, totalizando três anos de mestrado. Algumas coisas mudaram no meio do caminho, a pandemia me fez procrastinar, mas compreender o direcionamento da pesquisa é importante para escrever com segurança. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

MJ: 20% inspiração e 80% transpiração. Minhas aulas foram todas via meet, mas bastante pesadas. Na época, como não sabia quando a pandemia iria terminar, resolvi fazer cinco disciplinas no primeiro semestre. As aulas começavam 8h, intervalo de 10 minutos e terminavam 12h, às vezes 13h. 

Os participantes usavam a câmera aberta, houve muitas discussões, todos participavam, praticamente não tive interação presencial, mas as aulas foram bem pesadas e construtivas. Já no final, aproximadamente um mês antes de defender a dissertação, desenvolvi uma dor no antebraço por escrever bastante e precisei de atendimento hospitalar. A transpiração no mestrado foi significativa. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

MJ: Posso dizer que essa vitória foi dedicada à minha mãe Maria Ruth, professora, que conviveu com um câncer de mama e nunca se mostrou fraca em nenhum momento. Desde então, quem sou eu para reclamar da vida? Agora o foco é terminar o doutorado.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o mestrado?

MJ: Minha família (pai, irmãos, sobrinhos, primos, etc) apenas souberam que eu estava fazendo mestrado na fase final, mas estão sempre comigo em espírito. Quem me auxiliou em toda essa jornada e me deu suporte foi minha ex-esposa Carla Silva, ela, eu e Deus. 

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

MJ: Eu recomendaria que outros mestrandos partissem desta pesquisa para ampliar e testar a proposta de metadados em outros museus e acervos arqueológicos. Acredito que seja importante comparar diferentes realidades, verificar quais informações são realmente indispensáveis e aperfeiçoar os instrumentos de organização desses acervos. Também recomendaria aprofundar a relação entre memória, musealização e representação da informação, pois percebi durante a pesquisa que ainda existe um campo bastante amplo para novos estudos no Brasil.

Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

MJ: Pensei que não iria conseguir publicar nada, mas como conclui o mestrado em 3 anos, ainda publiquei dois artigos em revista com resultados da dissertação. Um deles foi “A representação da informação em acervo arqueológico musealizado: metadados sob a perspectiva de repositórios digitais” e “Metadados para descrição da informação arqueológica em repositório digital: o caso do Museu Amazônico”.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

MJ: Terminei o mestrado e voltei ao trabalho na Universidade Federal do Amapá. Nesse tempo, fui incluído em um projeto chamado “Qual(is) língua(s) você fala? Rumo a identificação e salvaguarda das línguas indígenas do Oiapoque”. Em resumo, a iniciativa visa a criação de um Acervo Digital para reunir, proteger e disponibilizar acervos linguísticos, documentais e bibliográficos, garantindo que este patrimônio seja compartilhado e preservado para as futuras gerações.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

MJ: Ingressei no doutorado na turma de 2025 no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação PPGCI da UFPA. É a segunda turma de doutorado do programa e estou sendo orientado pela professora Iane Maria da Silva Batista, que é historiadora de formação e compõe o corpo docente. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

MJ: Procuraria deixar mais claro, desde o início, o caminho a seguir. Isso envolve, principalmente, saber qual o é problema de pesquisa, pois é a partir disso que você consegue desenvolver o restante — pelo menos para mim, é assim que o processo funciona melhor. Outro ponto é não procrastinar, às vezes perdemos o foco por diversas coisas, dificuldades, problemas pessoais, mas é preciso conviver com esses obstáculos e não perder a disciplina de ler e escrever. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

MJ: Abriu portas e outras possibilidades de trabalho dentro da área. Nesse meio tempo fui tutor e depois professor do curso de biblioteconomia EAD da UFPA, participei de bancas de TCC, orientei outros dois alunos e hoje penso em ser docente no ensino superior. Atuo hoje em alguns projetos de acervos digitais com a plataforma Tainacan. O que fiz pelo Programa foi apenas deixar minha pequena contribuição onde eu mais aprendi e continuo aprendendo. 

DC: Você por você: 

MJ: Muitas coisas aconteceram no caminho desde o processo seletivo do mestrado até a entrada no doutorado. Me considero uma pessoa de sorte, com bom humor e otimista. Tenho uma família estruturada e bons amigos, e acho que esses fatores contribuíram bastante para que eu esteja por aqui.


Entrevistada: Mário Das Graças Carvalho Lima Júnior
Entrevista concedida em:  21 de agosto de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Mário Das Graças Carvalho Lima Júnior
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela

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