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v. 4, n. 09, set. 2026
Espaços informacionais como agentes de mudança na conquista de um futuro mais sustentável: o papel, os desafios e as possibilidades dos museus, por Alejandra Saladino

Espaços informacionais como agentes de mudança na conquista de um futuro mais sustentável: o papel, os desafios e as possibilidades dos museus, por Alejandra Saladino

Espaços informacionais como agentes de mudança na conquista de um futuro mais sustentável: o papel, os desafios e as possibilidades dos museus

Alejandra Saladino
alejandra.saladino@unirio.br

A inserção dos museus na Conferência “Espaços informacionais como agentes de mudança na conquista de um futuro mais sustentável” na III Jornada de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, foi dada a partir de uma perspectiva da qual se destacam: a) minha atuação como agente do patrimônio cultural (em um dado momento, simultaneamente na docência e na gestão pública, vinculada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e ao Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM); b) meu olhar formado e conformado na área de interseção entre Arqueologia e Museologia; c) minhas reflexões e inquietações sobre contextos específicos, o setor museológico no Brasil e na Espanha; d) a chave interpretativa oferecida pelo institucionalismo histórico; e) o termo nada eufemista de colapso climático, divulgados por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro (2019); f) a metáfora inspiradora dos pára-quedas que amortecem a caída inexorável ao fim do mundo, oferecida por Ailton Krenak (2019); g) a ideia de realismo capitalista, difundida por Mark Fisher (2020) e h) o plano museológico como ferramenta estratégica para a gestão museológica racional e sob a égide das boas práticas. Os elementos básicos de minha reflexão e explanação na referida conferência se encontram: a) na Carta de Santiago do Chile (UNESCO, 1972); b) na Carta da Cidade de Salvador (Ibermuseus, 2007); c) no Programa Socioambiental dos planos museológicos dos museus brasileiros (Decreto nº 1824/13); d) na Resolução Sustentabilidade e implementação da Agenda 2030 – transformar nosso mundo (ICOM, 2019); e) no Marco Conceitual comum em Sustentabilidade (Ibermuseus, 2019) e f) na Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas (ICOMOS, ICOM, IPHAN, IBRAM, 2025).

Optei por enfrentar a complexidade e densidade da temática da conferência da forma mais simplificada possível, sem abrir mão de uma necessária contextualização. Na primeira parte da minha fala, “Compromissos museais em um futuro colapsado”, procurei apresentar o ambiente onde esses lugares de memória (Nora, 1993) e seus congêneres (arquivos e bibliotecas) pretendem desenvolver políticas e ações sustentáveis, destacando a gravidade do estado da arte, no que se refere aos impactos ambientais, sentidos mais agudamente nos países e segmentos sociais mais vulneráveis economicamente. O voo de pássaro sobre esse ambiente se deu com a apresentação do conceito Antropoceno Bioevolutivo, que evidencia esta etapa da história do planeta como resultado não apenas da ação humana, melhor dizendo, das escolhas e dinâmicas do sistema vigente e hegemônico, mas também da interação com outras espécies de seres vivos, que se beneficiam dos efeitos associados (Rodrigues; Lira, 2026).

É nesse contexto de grande desigualdade e impactos ambientais irreversíveis que se propõe a Agenda 2030, inicialmente estruturada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (totalizando, aproximadamente, 169 metas) e que, atualmente é incrementada com outros objetivos, cuja proposição tem o protagonismo do Brasil, concretamente: ODS 18 – Igualdade étnico-racial; ODS 19 – Cultura e Arte e ODS 20 – Direitos dos Povos Originários.

Proposta em 2015 na Resolução da Assembleia Geral da ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a A2030 assume as pendências dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), destacando-se sua ambição de ir além, pretendendo dar fim a problemas da população internacional, como o bem-estar, o aumento da qualidade de vida e a expansão da liberdade, obviamente sem perder de vista o componente ambiental.

Na exposição foram elencadas algumas inconsistências e aspectos desafiadores para a concretização da proposta, que não podem ser aqui replicados devido ao espaço insuficiente. Entretanto, cabe destacar, a título de exemplo, que as metas sobre energia renovável não consideram as especificidades dos contextos políticos e economias locais, muitos dos indicadores relacionados às metas são pouco claros, assim como o cronograma e, finalmente, não há intenção de responsabilização ou penalização no descumprimento das metas.

Esse panorama nos provoca alguns questionamentos sobre as possibilidades de um desenvolvimento sustentável e se a sociedade global seria integralmente beneficiada. Tais inquietações nos lembram o romance O Gattopardo, de Giuseppe di Lampedusa, pois parece pairar, sobre a Agenda 2030 e todos os processos dos quais ela resulta, a sombra do “se quisermos que continue tudo como está, é preciso que tudo mude”. Em outras palavras, a intenção e o discurso são legítimos e necessários, entretanto, há real disposição para mudar as estruturas? Afinal, como reconhece Mark Fisher, parece que somos capazes de imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo (Fisher, 2020), o sistema ancorado na ideia de que os recursos são inesgotáveis e de que o crescimento (econômico) pode roçar o infinito.

Fisher observou o sistema vigente na degradação do ambiente, na burocracia e vigilância das instituições de ensino, na privatização do mal-estar e do estresse e na absorção de toda rebeldia e contracultura, que terminam por transformarem-se em mais um produto consumível, “instagramável”, e denunciou a exaustão da imaginação política que acomete o mundo. Advogo a extrema importância de reconhecermos a complexidade da questão, para que nossas propostas e ações de entidades museais não sejam facilmente fagocitadas e esvaziadas da sua potência transformadora, pelo sistema em vigor, transformando-se em meios onde se manifestam ou se ratificam o greenwashing e culturalwashing.

Na segunda parte da minha exposição, enfatizei que o setor museológico acompanha e atua sobre a questão da sustentabilidade há, pelo menos, mais de uma década. Isto se considerarmos a criação do Programa Socioambiental do Plano Museológico do Museu da República (Saladino, 2013), seguido por outras entidades do Instituto Brasileiro de Museus, até ser incluído na estrutura dos planos museológicos do país, por meio da regulamentação do Estatuto de Museus, em 2013.

Destaco ainda o compromisso e a atuação de organismos internacionais, como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) e o Programa Ibermuseus, na forma de documentos de referência como, por exemplo, a Resolução Sustentabilidade e implementação da Agenda 2030 – transformar nosso mundo (ICOM, 2019) e o Marco Conceitual comum em Sustentabilidade (Ibermuseus, 2019). Merecem destaque (e também a adesão) as ações que contribuem para a consolidação da sustentabilidade no discurso e práticas museais como, por exemplo, o tema do Dia Internacional de Museus de 2023, “Museus, sustentabilidade e bem-estar”, proposto pelo ICOM, enfatizando o ODS 3 (Saúde e bem-estar), o ODS 13 ( Ação contra a mudança global do clima) e o ODS 15 (Vida terrestre), o Guia de Autoavaliação em Sustentabilidade, o Programa de Sustentabilidade aos Museus e as Jornadas Ibero-americanas de Sustentabilidade, desenvolvidos pelo Programa Ibermuseus.

Em pouco menos de 6 meses, foram divulgados mais dois novos resultados dos esforços do setor para que a questão da sustentabilidade seja uma realidade para além do discurso. Em novembro de 2025 foi apresentada a Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas, fruto do trabalho conjunto do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), o ICOM, o IPHAN e o IBRAM. E, em março de 2026, as dirigentes do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério da Cultura assinaram um acordo de cooperação técnica, objetivando a promoção de ações integradas entre cultura e meio ambiente, entrelaçando a questão das mudanças climáticas e da preservação do patrimônio cultural.

Na última parte de minha apresentação, destaquei o papel do museu como um lugar de memória (Nora, 1993) e como um instrumento político, capaz de transformar perspectivas e ações. Todavia, essa possibilidade se manifesta em uma gestão onde não haja incoerência entre fala e ação. Em outras palavras, a sustentabilidade e o bem-estar precisam ser a base das dinâmicas e padrões institucionais, e não apenas ser tema de eventos, ações pontuais e discursos oficiais. 

Nesse sentido, conecto o Art. 7 da Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas, que reconhece o patrimônio como agente de transformação, com a ideia disseminada por Mario Chagas de que “a Museologia que não serve à vida não serve para nada”, e proponho que uma Museologia Social efetiva e concretamente comprometida com a vida e os museus comunitários (mormente associados a grupos sociais que sofrem mais dramaticamente os efeitos das mudanças climáticas e o racismo ambiental) sejam o motor da mudança de um novo paradigma museal, empenhando-se na incorporação das dimensões da sustentabilidade (ambiental, social, cultural, econômica e política, como propõe o IBRAM), em seus discursos e propostas consolidados nos respectivos planos museológicos.

Referências

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. ¿Hay un mundo por venir? Ensayo sobre los miedos y los fines. Buenos Aires: Caja Negra Editora, 2019.

FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

NORA, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, v. 10, p. 7–28, 1993. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/12101 . Acesso em: 08 set. 2026.

RODRIGUES, Pablo José Francisco Pena; LIRA, Catarina da Fonseca. O Antropoceno Bioevolutivo. In: CUNHA, Rosamelia Queiroz da; LOULA, Ildenê Guimarães; TADDEI, Renzo (cur.). Viver, pensar e sonhar no Antropoceno. Jundiaí: Paco Editorial, 2026.

SALADINO, Alejandra. The Republic Museum’s Social and Environmental Programme: proposals and action for social change. Museum International, [S. l.], n. 253/256, p. 80–87, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1111/muse.12021. Acesso em: 08 set. 2026.

Sobre a autora

Alejandra Saladino

Professora do Departamento de Estudos e Processos Museológicos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Professora do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Arqueologia pelo Museu Nacional – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestra em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Especialista em Conservação de Bens Culturais Móveis pela Escola de Belas Artes – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Redação: Alejandra Saladino
Fotografia: Alejandra Saladino
Diagramação: Naiara Raissa da Silva Passos

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