
Arquivos como agentes estratégicos do desenvolvimento sustentável, por Ana Paula Alves Soares

Arquivos como agentes estratégicos do desenvolvimento sustentável
Ana Paula Alves Soares
ana.paula.soares@ufsc.br
A III Jornada de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia trouxe importantes discussões sobre o papel das unidades de informação para o desenvolvimento sustentável. Entre os temas abordados durante o evento, minha palestra “Arquivos como agentes estratégicos do desenvolvimento sustentável” buscou evidenciar a contribuição dos arquivos para a sustentabilidade, por meio de uma abordagem relacionada às dimensões da sustentabilidade e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).
O desenvolvimento sustentável não depende apenas de recursos naturais, mas também da preservação e do acesso a informações fidedignas. Para tanto, é preciso contar com informações confiáveis e organizadas, registros históricos e acesso às informações públicas, por meio da gestão documental e de uma arquivística orientada à sustentabilidade. Dessa forma, os arquivos contribuem diretamente para diferentes dimensões da sustentabilidade, apoiando também a concretização dos ODS da Agenda 2030. Nesse contexto, os arquivos, muitas vezes vistos apenas como locais de depósito de documentos, passam a assumir uma função estratégica na promoção do desenvolvimento sustentável.
Destaca-se, ainda, a relação dos arquivos com alguns dos ODS, especialmente o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), que trata da promoção de instituições eficazes e transparentes e do acesso à informação pública. Essa perspectiva está diretamente relacionada à função basilar dos arquivos, definida por Paes (2007, p. 20) como “tornar disponível a informação contida no acervo documental sob sua guarda”.

Ao garantir o acesso às informações públicas, os arquivos promovem a transparência administrativa e contribuem para uma gestão pública responsável, permitindo o controle social e o combate à corrupção. Ademais, preservam a memória institucional e social, resguardam documentos que comprovam direitos individuais e coletivos e promovem a cidadania.
Outro ODS em destaque é o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), que tem como uma de suas metas proteger e salvaguardar o patrimônio cultural. O arquivo, ao preservar seu patrimônio documental, protege a memória coletiva e institucional e fortalece a identidade cultural. Com relação a esse objetivo, é importante desenvolver ações que aproximem os arquivos da comunidade, de modo a promover o sentimento de pertencimento e conscientizar as pessoas sobre o valor histórico e social dos arquivos. Compreender esse valor é fundamental para que a comunidade também possa ser agente de salvaguarda desse patrimônio.
Ainda sobre o ODS 11, destaca-se sua relação com o ODS 13 (Ação Climática), tendo em vista que a crise climática vem ameaçando a preservação do patrimônio documental. Esse cenário exige dos arquivos a implementação urgente de medidas de mitigação e adaptação frente aos desastres decorrentes do agravamento das mudanças climáticas, com vistas a evitar a perda do patrimônio documental e assegurar sua preservação para as gerações presentes e futuras.
Também merece atenção o ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial), que não pertence oficialmente à Agenda 2030 da ONU, mas constitui uma proposta voluntária do governo brasileiro. Esse ODS tem como objetivo, segundo o Observatório do ODS 18 (2026), “eliminar o racismo e a discriminação étnico-racial contra povos indígenas e afrodescendentes, especialmente grupos populacionais afetados por múltiplas formas de discriminação”. Nesse sentido, os arquivos podem contribuir com esse objetivo ao promover a preservação e o acesso a documentos históricos sobre os povos indígenas e a escravidão, contribuindo para o combate ao apagamento histórico, entre outras ações que podem ser desenvolvidas pelos arquivos.

Ademais, diferentes ações podem ser realizadas pelos arquivos para fomentar os ODS, bem como práticas arquivísticas que vão desde a produção documental, aqui entendida como o ponto inicial do desenvolvimento sustentável nos arquivos, passando pelas demais práticas, como conservação, descrição e difusão. Essas ações e práticas demonstram que os arquivos podem atuar de forma ativa na promoção da sustentabilidade, não apenas no aspecto institucional, mas também nos aspectos ambiental, social e cultural.
Por fim, reafirma-se a importância dos arquivos como agentes estratégicos do desenvolvimento sustentável, essenciais para garantir o acesso a informações confiáveis e autênticas, o que constitui condição fundamental para a tomada de decisões responsáveis e para a construção de sociedades mais justas, sustentáveis e resilientes. Na medida em que asseguram a integridade dos registros e a preservação da memória, os arquivos tornam-se instrumentos indispensáveis para enfrentar desafios como as mudanças climáticas, o combate às desigualdades e a defesa dos direitos. Por tudo isso, torna-se fundamental fortalecer e promover uma Arquivística Sustentável.
Referências
OBSERVATÓRIO ODS 18. Observatório ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial. Disponível em: https://observeods18.com.br/. Acesso em: 07 abr. 2026.
ONUBR. Nações Unidas no Brasil. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br . Acesso em: 06 abr. 2026.
PAES, Marilena Leite. Arquivo: teoria e prática. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2007.
PLATAFORMA AGENDA 2030. Objetivos do desenvolvimento sustentável. Disponível em: https://odsbrasil.gov.br/home/agenda . Acesso em: 06 abr. 2026.
UNESCO. Disponível em: https://www.unesco.org/en . Acesso em: 06 abr. 2026.
Sobre a autora
Arquivista na Universidade Federal de Santa Catarina, onde também atua como coordenadora da Coordenadoria do Arquivo Central e presidente da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos.
Doutora e Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Gestão em Arquivos pela Universidade Federal de Santa Maria. Bacharela em Arquivologia pela Universidade Federal de Santa Maria.
Redação: Ana Paula Alves Soares
Fotografia: Ana Paula Alves Soares
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner










