• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 4, n. 09, set. 2026
Arquivos, bibliotecas e museus na Agenda 2030: contribuições para o desenvolvimento sustentável, por Guilhermina Terra

Arquivos, bibliotecas e museus na Agenda 2030: contribuições para o desenvolvimento sustentável, por Guilhermina Terra

Arquivos, bibliotecas e museus na Agenda 2030: contribuições para o desenvolvimento sustentável

Guilhermina de Melo Terra
guilherminaterra@ufam.edu.br

Apesar de fazer parte da preocupação humana há algum tempo, a sustentabilidade continua sendo um dos principais desafios da contemporaneidade. Ela é importante, pois envolve as dimensões econômica, social, ambiental e cultural. Para atingir tal sustentabilidade, cita-se a Agenda 2030, adotada no ano de 2015, pela Organização das Nações Unidas (ONU), com a finalidade de superar a pobreza, reduzir as desigualdades, promover a educação, proteger o meio ambiente e fortalecer as sociedades inclusivas, por meio de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas integradas e interdependentes, demandando a participação de diferentes setores e instituições sociais (United Nations, 2015).

Cabe salientar que a sustentabilidade também envolve questões voltadas para a educação, a informação, o conhecimento, a cultura e a patrimônio. Nessa perspectiva, os arquivos, as bibliotecas e os museus passam a assumir relevância, haja vista que, segundo Terra (2013), a partir da década de 90, em nível de gestão, tais instituições necessitam incorporar em suas missões o desenvolvimento do meio, perpassando as ações de preservação, organização, disponibilização e mediação de informações, conhecimentos e diferentes formas de memória social.

Corroborando com tal ideia, cita-se, primeiramente, a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA), a qual reconhece as bibliotecas como instituições capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável, a partir do acesso equitativo à informação, à educação, à inclusão e ao fortalecimento das comunidades. Já a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), por sua vez, concebe os museus como instituições a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, com funções relacionadas à educação, preservação do patrimônio, transmissão de conhecimentos e diálogo intercultural. No caso dos arquivos, o Conselho Internacional de Arquivos (ICA) concebe tal espaço informacional como responsável não só pelo acesso aos registros, mas também à preservação da memória como elementos relevantes para sociedades informadas, democráticas e socialmente responsáveis (IFLA, 2017; Unesco, 2015; International Council on Archives, 2012).

Isto implica frisar que não se pode mais conceber os arquivos, as bibliotecas e os museus como meros espaços de guarda e preservação. Posto isso, partiu-se da seguinte pergunta de partida: Como arquivos, bibliotecas e museus podem contribuir para o desenvolvimento sustentável no contexto da Agenda 2030? Para responder tal questionamento, o manuscrito objetiva discutir suas contribuições para o desenvolvimento sustentável, considerando suas funções sociais, informacionais, educacionais e culturais e suas interfaces com os ODS.

Como citado, os arquivos, as bibliotecas e os museus não podem mais ser definidas como instituições, exclusivamente, de guarda, pois possuem uma função social clara, voltada para o desenvolvimento do meio em que se encontram inseridos. Desta forma, tais espaços informacionais não irão mudar suas práticas, pelo contrário, irão ampliá-las.

Isso implicar afirmar que as bibliotecas necessitam contribuir para a ampliação do acesso à informação e às oportunidades de aprendizagem, enquanto os museus atuam na transmissão cultural, na educação, na valorização do patrimônio e no diálogo intercultural, bem como os arquivos precisavam focar na preservação e no acesso aos registros, favorecendo a pesquisa, a educação, a memória social e a participação cidadã (IFLA, 2017; Unesco, 2015; International Council on Archives, 2012).

Diante a função social a ser desempenhada por tais espaços informacionais, alguns ODS da Agenda 2030 se aplicam de modo a permitir o cumprimento da função esperada pela sociedade, haja vista que podem contribuir, simultaneamente, para diferentes dimensões do desenvolvimento sustentável, especialmente aquelas relacionadas à educação, ao acesso à informação, à inclusão, à preservação do patrimônio e à participação social. Por isso a necessidade dos profissionais da informação compreenderem o papel a ser desempenhado na sociedade, pois só assim, trarão para suas práticas os ODS em prol tanto da melhoria da qualidade de vida da população que necessitam atender, quanto do planeta, em nível de sustentabilidade.

Isto implica destacar que essas instituições integram uma infraestrutura social de produção, preservação, circulação e democratização do conhecimento, casando-se perfeitamente com os princípios da Agenda 2030 tanto naquilo que preservam, quanto naquilo que possibilitam: acesso, aprendizagem, memória, cultura e cidadania.

As contribuições de arquivos, bibliotecas e museus para o desenvolvimento sustentável podem ser observadas, sobretudo, nas dimensões educacional, social, cultural e informacional, uma vez que essas instituições funcionam como espaços complementares de aprendizagem, disponibilizando acervos, fontes de informação, exposições, atividades culturais e oportunidades de formação. Por isso que a Agenda 2030 se encaixa perfeitamente à função social das respectivas instituições. Como prova disso, cita-se o ODS 4, o qual estabelece a promoção de uma educação inclusiva e de qualidade e de oportunidades de aprendizagem ao longo da vida.

Com a implantação do ODS 10, por exemplo, às suas atividades, certamente, o acesso democrático à informação e à cultura contribuirá para a redução de barreiras educacionais, sociais e culturais, ao mesmo tempo que ampliarão o acesso ao conhecimento e ações de mediação e formação aplicado a diferentes públicos, bem como promover a participação cultural e valorização da diversidade e redução das desigualdades.

Apesar de suas diversidades, arquivos, bibliotecas e museus não só guardam e preservam a documentação, coleções e objetos, mas também visam a sua conservação, de modo a possibilitar a transmissão de conhecimentos entre gerações. Trazendo para o contexto da Agenda 2030, afirma-se que tal prática está relacionada à dimensão cultural da sustentabilidade, contribuindo para a valorização da diversidade e do patrimônio. Nessa perspectiva, cita-se o ODS 16 como sendo o mais apropriado para esse contexto.

Conforme supracitado, a Agenda 2030 é constituída por metas e objetivos. Assim, caberá aos profissionais da informação compreender, também, qual meta se enquadra na função social dos arquivos, das bibliotecas e dos museus. Tomando por base os exemplos apresentados, tem-se a meta 16.10, que prevê assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, permitindo assim, a participação social, o exercício da cidadania e a tomada de decisões (United Nations, 2015; Vitoriano, 2021). Destarte, as instituições informacionais contribuem não só com a disponibilização de seus acervos, mas também pela criação de condições para que indivíduos e comunidades tenham acesso ao conhecimento, à memória, à cultura e à informação.

Os arquivos, as bibliotecas e os museus possuem um papel, junto à sociedade que perpassa a ideia de lugar de guarda. As dimensões ambientais, econômicas, sociais e culturais, direta e indiretamente, fazem parte da missão desses espaços. Assim, pelas atividades de preservação, acesso, mediação, transmissão e conservação do conhecimento tanto estabelecem interfaces com diferentes dimensões do desenvolvimento sustentável, especialmente educação, inclusão, patrimônio, informação e cidadania, quanto conversam com a Agenda 2030.

Nessa perspectiva, compreender essas instituições como agentes da sustentabilidade significa reconhecer o papel social que os arquivos, as bibliotecas e os museus necessitam desenvolver junto ao meio em que são partes integrantes, haja vista que o acesso ao conhecimento, a preservação da memória, a valorização da cultura e a democratização da informação também constituem condições para sociedades mais justas e inclusivas.

Conclui-se, portanto, que os arquivos, as bibliotecas e os museus são espaços férteis para a aplicabilidade dos ODS e atingimento da Agenda 2030, juntamente com o fortalecimento do acesso à informação, à aprendizagem, à participação social, à preservação cultural e ao exercício da cidadania, tornando tais espaços em patrimônios locais das comunidades em que se encontram inseridos, além de servirem com o futuro do planeta, com o direito das sociedades ao conhecimento, com a memória, com a cultura e com a informação.

Referências

IFLA. IFLA toolkit: libraries, development and the United Nations 2030 Agenda. The Hague: IFLA, 2017. Disponível em: https://www.ifla.org/wp-content/uploads/files/assets/hq/topics/libraries-development/documents/libraries-un-2030-agenda-toolkit-pt.pdf . Acesso em: 08 set. 2026.

INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES. Principles of access to archives. [S. l.]: ICA, 2012. Disponível em: https://www.ica.org/app/uploads/2024/01/Principios-pub-eletronica.pdf . Acesso em: 08 set. 2026.

TERRA, Guilhermina de Melo. Atuação do museu enquanto sistema aberto: uma realidade possível. 2013. Tese (Doutorado em Museologia) – Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Porto, 2013. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/handle/123456789/9271 . Acesso em: 08 set. 2026.

UNESCO. Recommendation concerning the preservation of, and access to, documentary heritage including in digital form. Paris: UNESCO, 2015. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000244675.page=5 . Acesso em: 08 set. 2026.

UNITED NATIONS. Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development. New York: United Nations, 2015. Disponível em: https://sdgs.un.org/2030agenda . Acesso em: 08 set. 2026.

VITORIANO, Marcia Cristina de Carvalho Pazin. Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e Políticas Arquivísticas: o papel dos arquivos municipais na Agenda 2030. Revista Ibero-Americana de Ciência da Informação, Brasília, v. 14, n. 1, p. 349-361, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.26512/rici.v14.n1.2021.35691 . Acesso em: 08 set. 2026.

Sobre a autora:

Guilhermina de Melo Terra

Professora do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Amazonas. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação  da Universidade Federal de Alagoas. Líder do Grupo de Pesquisa em Informação e Comunicação (GRUPIC).

Doutora em Museologia pela Universidade do Porto (Portugal). Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas. Pós-doutora em Museologia pela Universidade do Porto.


Redação: Guilhermina de Melo Terra

Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »