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v. 4, n. 09, set. 2026
Cultura, memória e sustentabilidade: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável aplicados às práticas museológicas, por Thais Lima Trindade

Cultura, memória e sustentabilidade: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável aplicados às práticas museológicas, por Thais Lima Trindade

Cultura, memória e sustentabilidade: os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável aplicados às práticas museológicas

Thais Lima Trindade
thais.lmtrindade@gmail.com

A Agenda 2030 foi adotada em 2015 pelos países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) como um plano de ação global voltado ao enfrentamento dos principais desafios do século XXI. Estruturada em torno de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, a agenda estabelece diretrizes relacionadas à erradicação da pobreza, redução das desigualdades, preservação ambiental, educação de qualidade e fortalecimento das instituições sociais, propondo ações integradas para a construção de sociedades mais sustentáveis e inclusivas.

Embora os ODS frequentemente sejam associados apenas às questões ambientais, a sustentabilidade deve ser compreendida de maneira ampla, envolvendo também dimensões sociais, culturais e econômicas. Nesse contexto, a cultura ocupa papel fundamental, uma vez que os patrimônios culturais, os saberes tradicionais e as memórias coletivas constituem elementos essenciais para a construção das identidades sociais, para o fortalecimento das comunidades e para a valorização da diversidade cultural.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a definição de museu aprovada pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) em 2022, que compreende os museus como instituições permanentes, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade, responsáveis por pesquisar, colecionar, conservar, interpretar e expor patrimônios materiais e imateriais. A definição enfatiza ainda que os museus devem atuar de forma acessível, inclusiva, participativa e comprometida com a diversidade e a sustentabilidade.

Observa-se, assim, uma importante transformação no campo museológico contemporâneo. Os museus deixaram de ser entendidos apenas como espaços destinados à guarda de objetos históricos para assumirem funções sociais mais amplas, relacionadas à educação, à cidadania cultural, à valorização das memórias coletivas e à promoção do diálogo entre diferentes grupos sociais.

A relação entre os ODS e as práticas museológicas pode ser observada em diferentes dimensões da atuação dos museus e instituições culturais. O ODS 4, voltado à educação de qualidade, manifesta-se nas ações educativas desenvolvidas por essas instituições, como oficinas, exposições interativas, visitas mediadas, cursos e atividades de formação cultural, ampliando o acesso ao conhecimento e fortalecendo o papel educativo dos museus.

O ODS 10, relacionado à redução das desigualdades, também apresenta forte conexão com o campo museológico, especialmente por meio das políticas de acessibilidade física, sensorial e cognitiva. Recursos como audiodescrição, interpretação em Libras, materiais táteis e adaptações estruturais contribuem para ampliar o acesso aos espaços culturais e promover maior inclusão social. Além disso, torna-se fundamental ampliar a representatividade de grupos historicamente marginalizados nas narrativas museológicas e nos processos de construção da memória social.

O ODS 11, voltado às cidades e comunidades sustentáveis, relaciona-se diretamente à preservação do patrimônio cultural e à valorização das identidades locais. Os museus desempenham papel fundamental na proteção das memórias coletivas e na salvaguarda de patrimônios materiais e imateriais, contribuindo para o fortalecimento das comunidades e para a preservação da diversidade cultural.

Já o ODS 12, relacionado ao consumo responsável, e o ODS 13, voltado às ações contra as mudanças climáticas, podem ser observados em práticas institucionais voltadas à redução de resíduos, reaproveitamento de materiais expográficos, uso eficiente de energia e desenvolvimento de ações educativas relacionadas à conscientização ambiental. Dessa forma, os museus também passam a atuar como espaços de sensibilização e formação crítica sobre questões ambientais contemporâneas.

As instituições museológicas também possuem papel relevante na valorização dos patrimônios culturais indígenas, quilombolas e tradicionais, especialmente em contextos marcados pela diversidade cultural, como a Amazônia. Nesse sentido, os museus podem atuar como importantes espaços de fortalecimento das identidades locais, reconhecimento da diversidade e promoção de práticas museológicas mais participativas, inclusivas e socialmente comprometidas.

Outro aspecto relevante nesse debate refere-se à Resolução de Kyoto, aprovada pelo ICOM em 2019, que reconhece os museus como agentes estratégicos para o desenvolvimento sustentável e para o cumprimento da Agenda 2030. A resolução reforça a responsabilidade social das instituições museológicas e destaca sua contribuição para a construção de sociedades mais justas, inclusivas e ambientalmente responsáveis.

No contexto brasileiro, destacam-se ainda as iniciativas desenvolvidas pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), como o Programa de Sustentabilidade para Museus e a Política Nacional de Museus, que incentivam práticas voltadas à sustentabilidade social, cultural, econômica e ambiental. Essas ações evidenciam a crescente preocupação do campo museológico com o fortalecimento de práticas institucionais alinhadas às demandas contemporâneas da sociedade.

Resolução de Kyoto, aprovada pelo ICOM em 2019 / Fonte: ICOM

Pensar sustentabilidade no campo museológico significa reconhecer os museus como espaços de educação, memória, participação social e transformação cultural. Mais do que preservar objetos, as instituições museológicas contemporâneas desempenham papel fundamental na construção da cidadania, no fortalecimento das identidades culturais e na democratização do acesso à cultura e à informação.

Por fim, os ODS oferecem importantes diretrizes para o desenvolvimento de práticas museológicas mais inclusivas, acessíveis e comprometidas com as demandas sociais contemporâneas. Integrar os ODS às ações desenvolvidas pelos museus significa ampliar o entendimento sobre o papel social dessas instituições e fortalecer sua atuação como agentes de transformação social, preservação cultural e promoção do desenvolvimento sustentável.

Referências

ICOM. Resolução de Kyoto: museus como centros culturais e o futuro das tradições. Kyoto: ICOM, 2019. Disponível em: https://icom.museum/wp-content/uploads/2019/09/Resolutions_2019_EN.pdf . Acesso em: 12 maio 2026.

IBRAM. Programa de Sustentabilidade aos Museus. Brasília, DF: IBRAM, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/museus/pt-br/assuntos/politicas-do-setor-museal/politica-de-economia-de-museus-e-pontos-de-memoria/programas-da-politica/programa-de-sustentabilidade-aos-museus . Acesso em: 12 maio 2026.

IBRAM. Política Nacional de Museus. Brasília, DF: IBRAM, 2003. Disponível em: https://www.gov.br/museus/pt-br/assuntos/politicas-do-setor-museal/politica-nacional-de-museus . Acesso em: 12 maio 2026.

TRINDADE, T. L. Cultura, memória e sustentabilidade: os ODS aplicados às práticas museológicas. [S. l.: s. n.], 2026. 1 vídeo (122 min.). Publicado pelo canal Grupo de Pesquisa GRUPIC. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bZ8OvD67-D0 . Acesso em: 12 maio 2026.

Sobre a autora

Thais Lima Trindade

Bibliotecária no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – Campus Tabatinga. Líder do Grupo de Pesquisa em Informação e Comunicação (GRUPIC/UFAM). 

Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília. Mestra em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Amazonas. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas, Museologia (UNIASSELVI) e Análise e Desenvolvimento de Sistemas (UNICESUMAR). Estágio pós-doutoral interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade do Estado do Amazonas.


Redação: Thais Lima Trindade
Fotografia: Thais Lima Trindade
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner

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