
A Agenda 2030 e as bibliotecas públicas de Minas Gerais – Entrevista com César Moreira

A Agenda 2030 e as bibliotecas públicas de Minas Gerais – Entrevista com César Moreira
César dos Santos Moreira
cesar.moreira@ifmg.edu.br
Sobre a entrevistada
Em 2024, César dos Santos Moreira defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais, sob orientação da Profa. Dra. Dalgiza Andrade Oliveira e coorientação da Profa. Dra. Marília de Abreu Martins de Paiva.
Atualmente, César atua como bibliotecário no Instituto Federal de Minas Gerais. Natural de Vespasiano (MG), seus hobbies estão assistir filmes e séries, ouvir música, acompanhar programas de TV e apreciar a preparação de drinks.
Sua tese, intitulada “A Agenda 2030 no âmbito da rede de bibliotecas públicas de Minas Gerais: perspectivas de atuação”, investiga como as bibliotecas públicas de Minas Gerais estão promovendo e implementando serviços de informação orientados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A pesquisa analisou a atuação das bibliotecas públicas de Minas Gerais e identificou que elas planejam informalmente suas ações, enfrentam falta de recursos, pessoal e apoio institucional, mas conseguem atender minimamente seus usuários. Os resultados indicam que a Agenda 2030 amplia as possibilidades de planejamento e atuação das bibliotecas, demandando adaptação institucional, visão estratégica e ações de longo prazo para a manutenção de sua relevância social.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?
César dos Santos Moreira (CM): A decisão de cursar o doutorado esteve vinculada à motivação pessoal e à compreensão, desde a graduação, da educação continuada como elemento fundamental para o aprimoramento da prática profissional. Ao longo da trajetória formativa, busquei alinhar minha qualificação acadêmica à atuação no campo educacional, com graduação em Biblioteconomia, segunda graduação em Tecnologia em Gestão da Qualidade e especializações em Educação a Distância, Gestão Escolar e Docência, além da experiência no serviço público federal na área da educação.
No mestrado em Ciência da Informação, desenvolvi pesquisa sobre a ação educativa do bibliotecário nos Institutos Federais, o que consolidou meu interesse pela interface entre bibliotecas, educação e políticas públicas. Ao planejar o doutorado, o contato com a literatura sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, bem como a atuação da IFLA junto à ONU na defesa do acesso à informação como condição para o desenvolvimento, foi determinante para a escolha do tema. Considerando o caráter não impositivo da Agenda 2030 e seu compromisso global, defini como recorte analítico as bibliotecas públicas de Minas Gerais, buscando compreender como e em que medida essas instituições, enquanto equipamentos públicos, incorporam os ODS em suas práticas e serviços de informação.
DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?
CM: A certeza de que havia, de fato, uma tese em construção ocorreu de forma gradual. Até a obtenção de dados e informações consistentes para análise, o percurso se mostrou marcado por incertezas, próprias de uma pesquisa de caráter exploratório. Nesse sentido, o exame de qualificação constituiu-se como um divisor de águas, pois a validação do projeto e dos encaminhamentos metodológicos pela banca indicou que o estudo seguia uma direção adequada. Contudo, a consolidação dessa certeza deu-se efetivamente na etapa de análise dos dados e na escrita do texto final, a partir das informações coletadas junto às instituições e aos bibliotecários, culminando na entrega do produto informacional à orientadora para apreciação e considerações finais.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
CM: Dentre os referenciais decisivos para a tese, destaca-se o Manifesto da Biblioteca Pública IFLA-UNESCO (2022), adotado como texto basilar em razão da inexistência, à época, de estudos específicos que articulassem diretamente bibliotecas públicas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A pesquisa utilizou a técnica de revisão narrativa, adequada ao caráter exploratório da investigação, permitindo a seleção de literatura alinhada aos interesses analíticos do estudo. O Manifesto, elaborado pela IFLA em parceria com a UNESCO, reafirma o library advocacy e concebe a biblioteca pública como agente central da educação, da cultura, da inclusão, do acesso à informação, da promoção da paz e do bem-estar social, especialmente em um contexto de transformações tecnológicas e sociais. No Brasil, a tradução do documento foi realizada pela FEBAB, instituição que também tem desenvolvido ações e eventos voltados à difusão dos ODS da Agenda 2030 no âmbito das bibliotecas, estimulando o engajamento profissional e social na defesa das bibliotecas públicas como equipamentos essenciais à construção de sociedades baseadas no conhecimento e no acesso à informação.
DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?
CM: A tese se configura como um trabalho de doutorado pelo caráter inédito e aprofundado da investigação, ao analisar de forma sistemática se e como as bibliotecas públicas de Minas Gerais incorporam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em suas práticas de informação. O ineditismo reside na abordagem empírica e aplicada da Agenda 2030 no contexto das bibliotecas públicas, em um momento em que a temática ainda era incipiente no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação. Assim, o estudo contribui para a consolidação de um campo de pesquisa emergente, ao articular as políticas globais de desenvolvimento sustentável às práticas informacionais das bibliotecas públicas.
DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?
CM: A tese é útil à sociedade ao evidenciar o papel estratégico das bibliotecas públicas na promoção do acesso à informação e na formação de cidadãos capazes de participar de forma crítica e informada da vida social, aspecto central para a implementação da Agenda 2030. Ao revelar as carências estruturais e institucionais das bibliotecas públicas em Minas Gerais – realidade que tende a refletir o contexto nacional – o estudo fornece subsídios para o planejamento e a implementação de políticas, ações e serviços de informação alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Além disso, contribui para o fortalecimento da defesa das bibliotecas públicas como equipamentos sociais essenciais e para a proposição de ações informacionais contextualizadas às realidades locais e às demandas sociais.
DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?
CM: As contribuições da tese situam-se nos âmbitos teórico, empírico, metodológico e social. No plano teórico, o estudo amplia o diálogo entre a Biblioteconomia/Ciência da Informação e a Agenda 2030, ao incorporar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como categoria analítica para compreender a atuação das bibliotecas públicas. No campo empírico, oferece um diagnóstico sobre a realidade das bibliotecas públicas de Minas Gerais, evidenciando potencialidades, limitações e carências que impactam a implementação de ações alinhadas aos objetivos da Agenda 2030. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa propõe um caminho investigativo aplicável a outros contextos federativos, possibilitando a replicação e o aprofundamento do estudo em diferentes realidades. Por fim, a contribuição social reside no fortalecimento do debate sobre o papel das bibliotecas públicas como equipamentos sociais estratégicos para o acesso à informação, a participação cidadã e o desenvolvimento sustentável, fornecendo subsídios para o planejamento de políticas públicas e ações institucionais mais coerentes com as demandas sociais e territoriais.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
CM: A definição da metodologia de pesquisa ocorreu de forma gradual e orientada pelo próprio problema de investigação. Primeiro, foi delimitado o tema e formulada a pergunta central da pesquisa, buscando compreender como as bibliotecas públicas de Minas Gerais atuam em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030. Em seguida, realizou-se um levantamento de textos, documentos e estudos existentes para entender o que já havia sido produzido sobre o assunto e identificar lacunas de conhecimento.
Em relação às bibliotecas públicas, como se tratava de um tema ainda pouco explorado, optou-se por uma pesquisa de caráter exploratório, combinando métodos quantitativos e qualitativos. Para isso, foram utilizados questionários, a fim de reunir informações gerais sobre a atuação das bibliotecas, e entrevistas, que permitiram ouvir com mais profundidade a experiência e a percepção dos bibliotecários. Também foram analisados documentos institucionais relacionados às bibliotecas e à Agenda 2030.
Após a coleta, os dados foram organizados e analisados de forma sistemática, buscando identificar padrões, desafios e práticas relacionadas aos ODS. Por fim, os resultados foram interpretados à luz da literatura estudada, permitindo compreender a realidade investigada e apontar caminhos possíveis para o fortalecimento das bibliotecas públicas no contexto do desenvolvimento sustentável.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?
CM: Em termos percentuais, considero que a elaboração da tese envolveu aproximadamente 30% de inspiração e 70% de transpiração. A inspiração esteve presente na escolha do tema e no compromisso com sua relevância acadêmica e social; contudo, o desenvolvimento do trabalho exigiu esforço contínuo, disciplina e persistência. Entre as principais dificuldades enfrentadas destacamos a baixa adesão das instituições contatadas, inclusive por meio do e-SIC, e a necessidade de constantes ajustes metodológicos, o que demandou tempo e resiliência ao longo de todo o percurso.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
CM: A caminhada até a defesa foi desafiadora, especialmente em função das dificuldades enfrentadas na coleta de dados, o que exigiu resiliência, adaptações metodológicas e esforço adicional ao longo do percurso. Apesar desses obstáculos, o processo foi marcado por aprendizado, amadurecimento acadêmico e fortalecimento da postura crítica diante das limitações relacionadas ao acesso à informação. A superação dessas adversidades contribuiu para o êxito da tese, reafirmando a importância da pesquisa e do compromisso com a produção de conhecimento socialmente relevante.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?
CM: O relacionamento com a família transcorreu de forma tranquila ao longo do doutorado. Considerando que resido apenas com minha mãe e que meus irmãos e irmãs possuem suas próprias rotinas e responsabilidades, não houve impactos significativos nas relações familiares durante esse período.
DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?
CM: A maior dificuldade da tese foi a coleta de informações, devido à baixa adesão dos gestores das bibliotecas públicas à pesquisa. Apesar do apoio da coordenação do Sistema de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais na sensibilização dos gestores, o retorno ficou aquém do esperado, considerando o grande número de bibliotecas no Estado. Diante disso, recorremos ao Serviço Eletrônico de Informação ao Cidadão (e-SIC), contudo, mesmo por esse meio, as instituições contatadas não responderam às solicitações. Esse cenário evidencia a necessidade de melhorias, por parte dos municípios mineiros, na efetiva implementação do serviço, especialmente à luz da Lei nº 12.527/2011, a Lei de Acesso à Informação, que assegura o direito dos cidadãos ao acesso à informação pública.
DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?
CM: Como pesquisas futuras, cito a possibilidade de replicação do estudo em âmbito nacional, de modo a construir um mapeamento da atuação das bibliotecas públicas brasileiras em relação aos ODS. Outra vertente promissora consiste na abordagem individualizada dos ODS – os 17 da Agenda 2030 e o ODS 18, referente à Igualdade Étnico-Racial – permitindo análises mais aprofundadas e contextualizadas. Essa perspectiva reconhece a diversidade da realidade brasileira e possibilita que cada ente federado desenvolva as temáticas de acordo com suas especificidades locais.
DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?
CM: A educação continuada é o meu foco. Pretendo integrar grupos de pesquisa com vistas à realização de um pós-doutorado, de modo a consolidar minha atuação na pesquisa. Busco ampliar a produção científica, colaborar com outros trabalhos acadêmicos e desenvolver estudos na minha instituição relacionados à temática do doutorado, contribuindo para o fortalecimento institucional e para o enfrentamento das demandas sociais na área educacional.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
CM: Se tivesse iniciado o doutorado com o conhecimento que possuo hoje, teria realizado, em comum acordo com a orientadora, uma delimitação mais restrita do lócus da pesquisa e aprofundado a análise em um ODS específico – como o ODS 4 (Educação de Qualidade), o ODS 5 (Igualdade de Gênero), o ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) ou o ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial) – concentrando o estudo em um número menor de bibliotecas públicas.
Os principais aprendizados dizem respeito à importância de um recorte empírico mais preciso e de um foco analítico mais aprofundado, que favorecem maior densidade teórica, viabilidade metodológica e aprofundamento das análises, sem prejuízo da relevância social e acadêmica da pesquisa.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
CM: Cumprimos com as demandas de produção científica estabelecidas pelo programa de pós-graduação, a publicação de artigos e a participação em eventos científicos. Destaco a participação nos eventos científicos da área nos quais apresentamos os resultados da pesquisa:
ENANCIB, evento nacional em Ciência da Informação – “Do global ao local: a Agenda 2030 nas bibliotecas públicas de Minas Gerais”;
EDICIC Ibérico, evento internacional em Ciência da Informação – “Bibliotecas públicas de Minas Gerais: desafios para a Implementação dos ODS da Agenda 2030”.
DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?
CM: Não participei de nenhuma monitoria/estágio docência, considerando que não me licenciei do trabalho durante a pesquisa. Contudo, acredito que essa formação é importante na preparação profissional para a docência.
DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
CM: Recomendaria utilizar a pesquisa como base para aprofundamentos teóricos e empíricos em outros contextos institucionais, com abordagens comparativas e explorando metodologias complementares. Sugeriria ainda a atualização contínua do referencial teórico e o diálogo com agendas contemporâneas de pesquisa, de modo a fortalecer a análise crítica e ampliar o impacto acadêmico e social dos estudos.
DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?
CM: A relação orientador–orientando deve ser pautada pela parceria, pelo diálogo e pela corresponsabilidade no processo formativo e de pesquisa. Considerando os recorrentes relatos de sofrimento mental na pós-graduação, como ansiedade, depressão e estresse, é fundamental que essa relação se estabeleça em um ambiente de respeito, escuta e apoio acadêmico. A construção de vínculos colaborativos, aliada à atuação das coordenações na promoção de um ambiente institucional mais acolhedor e menos predatório, contribui para o fortalecimento da autoestima das(os) orientandas(os) e para a melhoria da qualidade das pesquisas desenvolvidas.
DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?
CM: Sim, a tese desdobrou-se na perspectiva de um novo projeto de pesquisa a ser desenvolvido no âmbito do pós-doutorado, atualmente em fase de elaboração. A proposta consiste em aprofundar a análise de uma das missões da biblioteca pública, conforme estabelecido no Manifesto da Biblioteca Pública IFLA-UNESCO 2022, que reconhece como missões centrais aquelas relacionadas à informação, à alfabetização, à educação, à inclusão, bem como à participação cívica e cultural. Essas frentes orientam as perspectivas de pesquisa futuras, com vistas ao aprofundamento teórico e empírico do papel das bibliotecas públicas no desenvolvimento social.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?
CM: O Programa foi fundamental para a minha formação acadêmica e científica, ao oferecer as condições institucionais, a orientação qualificada e um ambiente propício ao desenvolvimento da pesquisa. Em contrapartida, contribuímos com o fortalecimento do Programa por meio da produção científica, da participação em eventos científicos da área, bem como no fortalecimento das discussões e da visibilidade acadêmica do próprio Programa em temáticas sociais.
DC: Você por você:
CM: Vejo-me como um profissional mais comprometido com a produção de conhecimento crítico e socialmente relevante. Ao longo da trajetória acadêmica, busquei manter postura ética, colaborativa e propositiva, articulando rigor teórico-metodológico e sensibilidade às demandas institucionais e sociais que atravessam o campo de pesquisa.
Entrevistada: César dos Santos Moreira
Entrevista concedida em: 16 de janeiro de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Naiara Raíssa da Silva Passos
Fotografia: César dos Santos Moreira
Diagramação: Pedro Ivo Silveira Andretta









