
Biblioteca pública e pessoas em situação de rua: elementos para a construção de uma abordagem crítica – Entrevista com Marcus Rei

Biblioteca pública e pessoas em situação de rua: elementos para a construção de uma abordagem crítica – Entrevista com Marcus Rei
Marcus Rei
marcusreisfx@gmail.com
Sobre o entrevistado
Em 2024, Marcus Rei defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profa. Dra. Ivete Pieruccini.
Marcus é natural do distrito São Francisco Xavier, localizado em São José dos Campos, interior de São Paulo. Atualmente, trabalha no Planejamento e Performance do CultSP PRO, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, sob gestão do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (idg). Colabora como docente na disciplina “Políticas públicas para Educação e Bibliotecas”, no Centro Universitário Assunção.
Sua dissertação “Biblioteca pública e pessoas em situação de rua: elementos para a construção de uma abordagem crítica” investiga o conceito de biblioteca pública na contemporaneidade, considerando a democracia cultural e os quadros sociais menorizados. Sua pesquisa propõe um conceito de biblioteca pública entendido como um dispositivo cultural de caráter dialógico, voltado à participação dos sujeitos no universo do conhecimento e da cultura, em especial em contextos de vulnerabilidade social e nos quadros de fragmentação cultural do país.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
MR: As inquietações que culminaram na proposição desta pesquisa, iniciaram-se nos dois últimos anos de graduação em Biblioteconomia, entre 2019 e 2020. Minha primeira experiência no campo prático, atuando como estagiário, foi em uma biblioteca pública, localizada no município de Vera Cruz/SP, cidade vizinha da cidade onde cursei a graduação, em Marília/SP.
Nos primeiros meses de 2019, éramos dois funcionários na Biblioteca, a bibliotecária responsável, Daia Périco, e eu. Até a admissão da bibliotecária, a Biblioteca fechou as portas por alguns anos, com o prédio em condições precárias (como o telhado quebrado e pombos morando dentro da denominada biblioteca) e todo o acervo submetido a essas condições. Com a contratação da Daia, no segundo semestre de 2018, houve um grande esforço para reativar o espaço – o suficiente para chamá-lo de biblioteca pública.
Propriamente por conta do estágio, em 2019, participei do Seminário Biblioteca Viva, realizado pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB). Constava na programação uma visita guiada/técnica a uma biblioteca pública da cidade, que declarava ter como um de seus focos e atuação, o atendimento a pessoas em situação de rua. Por curiosidade, me inscrevi e participei.
Foi, portanto, com essa visita que muitos questionamentos me atravessaram. Enquanto alguém apresentava a biblioteca, era possível observar como aquela grande quantidade de pessoas em situação de rua fazia uso dos espaços. Alguns dormiam sentados, outros estavam lendo jornais, conversando, utilizando o computador, parado e sentado e olhando para o nada, sozinhos e outros em grupo, muitas bolsas / sacolas no guarda-volumes. Uma realidade muito distinta do que tinha visto até então.
Conforme o relato dos profissionais do equipamento, muitas dessas pessoas em situação de rua ‘até eram’ convidadas a participar de uma palestra/uma fala sobre como utilizar o espaço da biblioteca. E eram orientados, neste sentido, sobre como se comportar dentro daquele ambiente.
Após o evento, ao voltar à Universidade, comecei a pesquisar sobre “pessoas em situação de rua” e “bibliotecas”. À época, meu orientador, Prof. Dr. Carlos Cândido de Almeida, considerou importante desenvolver o estudo, tanto pela relevância do tema, dadas as implicações socioculturais evidentemente demarcadas, quanto pela escassa discussão dessas questões em nossa área.
Desde então, não parei de pesquisar e me atualizar sobre o assunto.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
MR: A partir de quatro categorias que constituem as bibliotecas públicas – espaço físico / ambiente; repertórios/repertórios informacionais (acervo); atendimento; práticas culturais / informacionais -, foi possível analisar os dados coletados e identificar sete elementos que vieram a colaborar com um outro modo de pensar e fazer a biblioteca pública. Os elementos identificados foram: 1) público; 2) espaço físico e mobilidade; 3) repertório informacional / coleção / acervo; 4) dialogia; 5) não naturalização das práticas culturais; 6) instância de decisões coletivas coletivas; e 7) relações interculturais.
Ao longo da dissertação, distintos conceitos acerca das bibliotecas públicas foram abordados. Esta discussão teórica somada à perspectiva de cada elemento apresentado, permitiu-nos trazer novas indagações sobre a própria existência da biblioteca pública nos dias de hoje e como este deve ser um um dispositivo cultural sob um caráter dialógico, voltado à participação dos sujeitos no universo do conhecimento e da cultura, e nos quadros de fragmentação social e cultural do país.
A/e/o principal beneficiada/e/o destes resultados são aquelas/es que defendem a biblioteca pública como um espaço para todas pessoas indistintamente.
Gosto muito quando vou fazer uma apresentação sobre a realização desta pesquisa, e muitos estudantes de Biblioteconomia estão participando e colaboram com reflexões muito práticas sobre seus contextos, sobre as bibliotecas que atuam. E a discussão fica ótima, gigante. Quero dizer que, apesar da finalização da pesquisa de mestrado, os resultados identificados foram pequenas sementes para muitas reflexões que surgem a partir de então. É uma pesquisa que não se esgota, felizmente.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
MR: Que nossa sociedade está em transformação o tempo todo, todos nós sabemos. E estamos — e a Universidade, sobretudo, tem esse papel — construindo meios de refletir sobre como essas transformações sociais estão nos atingindo, e pensar, da mesma forma, meios práticos de lidar com tamanhas transições. A pesquisa que desenvolvemos vem a refletir, conceitual e empiricamente, sobre como as pessoas, principalmente de grupos minorizadas, têm utilizado as bibliotecas públicas na contemporaneidade. O modo de ser e estar nessas bibliotecas é uma transformação constante — e deveria ser preocupação do campo da Biblioteconomia e da Ciência da Informação. O modo de ser e estar (ou não estar) nessas bibliotecas determina, até mesmo, a (in)existência desses espaços — o que é um pouco mais preocupante.
Nesta ótica, imagino que a principal contribuição da pesquisa seja exatamente ser um instrumento de reflexão sobre a condição atual das bibliotecas públicas e, sobretudo, o que queremos que estes espaços sejam.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
MR: Está inserido na linha “Apropriação Social da Informação”, visto que concentra estudos de ordem social, centrados nas políticas, dinâmicas e práticas culturais envolvendo dispositivos culturais. A pesquisa, ainda, é orientada pelas concepções da Biblioeducação, uma abordagem interdisciplinar que relaciona Biblioteca, Biblioteconomia e Educação, e tem em vista constituir um conjunto de referenciais que orientem a criação e desenvolvimento de bibliotecas em contextos educativos, no país. Vale destacar que, desde a década de 1980, essa problemática vem sendo objeto de pesquisas de equipes coordenadas pelo Prof. Dr. Edmir Perrotti, no âmbito da ECA/USP. E, desde os anos 1990, a Profa. Dra. Ivete Pieruccini realiza e coordena projetos que envolvem tais questões elencadas. Os professores coordenam o Grupo de Pesquisa em Biblioeducação (GPEB), certificado pelo CNPq, que reúne pesquisadores interessados na questão.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
MR: Recordo-me de uma reunião de orientação com a Profa. Ivete, quando buscava uma delimitação maior da pesquisa, pouco antes da qualificação, em que ela me disse (algo assim): “Marcus, não se esqueça do ensinamento de Mário à Drummond, quando ele disse que sua poesia precisava ‘abrasileirar-se’”. Aqui, Profa. Ivete fazia referência a um texto, que até então eu desconhecia. Depois, ao procurar e ler a carta, Mário disse à Drummond que sua poesia era boa, mas que ainda tinha um excesso de influência europeia, e que era necessário, então, defender uma poesia enraizada na realidade brasileira. Livro organizado pelo próprio Drummond, a carta está na obra “A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade”.
Embora não seja um texto da Biblioteconomia, foi uma leitura que, particularmente, enriqueceu muito o modo de pensar e construir a pesquisa.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
MR: A metodologia foi construída ao longo do processo de desenvolvimento da pesquisa. Havia uma curiosidade maior de nossa parte, em compreender qual o cenário nacional das pessoas em situação de rua com as bibliotecas públicas. Assim, com ajustes, replicamos um formulário elaborado para o TCC, que foi disponibilizado para todas as bibliotecas públicas das capitais brasileiras. Não tivemos tanto sucesso na quantidade de respostas, mas foi algo primoroso para desenvolver as futuras questões que compuseram a entrevista.
Para encontrar o conjunto de métodos utilizados, realizei duas disciplinas sobre metodologia no programa de pós-graduação do Instituto de Psicologia, da USP, onde conheci diferentes abordagens e aplicações.
A metodologia da dissertação articulou pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo, com base no método etnográfico, aplicado à coleta de dados direta em duas bibliotecas públicas que atendem pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo. A pesquisa de campo indireta concretizou-se na realização do questionário para as bibliotecas públicas das capitais brasileiras; e pesquisa de campo direta valeu-se de observação, entrevistas e coleta de materiais (abordagem etnográfica).
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
MR: Certamente minha maior dificuldade foi os rumos do embasamento teórico. Na qualificação, as generosas contribuições do Prof. Dr. Oswaldo de Almeida Júnior (PPGCI/UNESP) e da Dra. Viviane Ferreirinho (Secretaria de Assistência Social/Prefeitura Municipal de São Paulo), fizeram com que eu conhecesse uma gama de escritoras/es/os e pensadoras/es da Biblioteconomia e de outros campos – sobretudo das Ciências Sociais –, a fim de sustentar teoricamente as ideias de biblioteca pública que tentava defender naquele momento.
Ler escritoras/es de outros campos científicos foi uma dificuldade encontrada e que me demandou uma quantidade maior de tempo para leitura, interpretação e apropriação de muitos materiais e diferentes concepções acerca da sociedade. E tudo isso para buscar entender as dinâmicas do contexto urbano face sua relação com as bibliotecas públicas e com as pessoas em situação de rua. No mais, também houve uma busca de materiais que justificassem nossa percepção sobre a condição atual das bibliotecas públicas – a maioria, totalmente pautadas em assimilação cultural, vivendo uma falsa ilusão de que a difusão da cultura [literária] seja instrumento suficiente para a apropriação dos bens disponibilizados.
Do ponto de vista da coleta de dados, realizar entrevistas com as pessoas em situação de rua também foi um desafio de início. A resistência de alguns sujeitos, justificada sob uma ordem que determina que essas pessoas não devem se expressar pois são marginalizadas socialmente, foi uma grande dificuldade. Com o decorrer das entrevistas, sinto que algumas questões foram se alterando. Lembro de um homem em situação de rua que chegou até mim, em uma das bibliotecas, e disse (algo assim): “Oh garoto, tô vendo que você tá aí fazendo umas perguntas pro pessoal. Você não quer saber da minha opinião e das coisas que eu tenho pra dizer não?” Imediatamente, surpreso com tudo aquilo, disse que queria muito saber o que ele tinha pra me dizer. Sentamos, ele falou um pouco do por que morava na rua e os motivos de estar naquela biblioteca. Conversamos. Eu fiz as perguntas previstas na entrevista. Seguimos.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
MR: Em vários momentos, principalmente na reta final do mestrado, havia em mim sentimentos muito ambíguos: uma sensação boa de finalização e um pensamento ‘será mesmo que vou conseguir finalizar?’. Convivi com essas duas realidades por uns dois meses, no mínimo – risos. Olhar a dissertação como algo que estava ‘terminando de ser construída’ era um sentimento estranho também, pois a cada revisão encontrava muitas questões que eu ainda gostaria de trabalhar – mas não tempo. Mas, parece que deu tudo certo!
No segundo semestre de 2025, fiquei surpreso com a indicação do PPGCI/ECA/USP para que minha pesquisa concorresse ao prêmio da ANCIB de melhor dissertação do país. Em outubro, não estava no ENANCIB, portanto não assisti a cerimônia de anúncio das/es/os ganhadoras/es, e fiquei ainda mais surpreso quando recebi algumas mensagens de amigas/os e da própria Profa. Ivete, me parabenizando pelo segundo lugar na premiação! Poxa, é um reconhecimento nacional! Isso não tem preço.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
MR: Sem nenhuma dúvida, sem o apoio da minha família, teria muitas dificuldades para conciliar o mestrado e o trabalho. Especialmente, me lembro que, em 2022, quando morava e trabalhava em São Francisco Xavier – interior do Estado de São Paulo, minha amada cidadezinha que pertence à São José dos Campos –, tinha a rotina de ir à capital duas ou três vezes na semana, tanto para assistir aulas do mestrado, quanto para cumprir o estágio docência. Era uma correria. Naquele ano, eu e minha cachorrinha morávamos com a minha vó. Eu ficava nessa rotina maluca, em que cada trajeto levava de 4h a 5h de transporte público. Com isso, equilibrava as atividades do trabalho, a pesquisa do mestrado, as leituras e os trabalhos finais das disciplinas, as aulas de idioma, e tantas outras demandas. E, ainda assim, conseguia, minimamente, ficar com amigas/es/os e minha família.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
MR: Meu trabalho como ponto de partida? Que responsabilidade! A pesquisa que desenvolvemos é um grande convite a observar a existência e a condição das bibliotecas públicas brasileiras da contemporaneidade. Se a/e/o pesquisador/a/e deseja realizar uma reflexão acerca dos assuntos que tratamos, a dissertação será, sim, um material possível de ser lido, questionado e incorporado a outras considerações.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
MR: Não publiquei muitos textos durante a construção da pesquisa. Em relação a eventos, participei do ENANCIB de 2023, em Aracaju, em que apresentei um trabalho sobre o comecinho das reflexões construídas até ali. No mais, aceitei distintos convites e levei a pesquisa para diferentes grupos de pessoas, muitas discussões. E estamos estruturando alguns materiais decorrentes da dissertação, com vistas a publicar agora em 2026.
Quero ressaltar, ainda, que participar do Grupo de Pesquisa em Biblioeducação (GPEB/ECA/USP) foi um grande empoderamento para o próprio desenvolvimento do mestrado. Os textos lidos conjuntamente e as provocações e discussões levantadas, pelo Prof. Edmir Perrotti, pela Profa. Ivete e todas/es/os as/es/os membros, foram, certamente, enriquecedoras para meu amadurecimento acadêmico.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
MR: Desde a graduação, sempre tive que conciliar os estudos com o trabalho/estágio remunerado. No mestrado, não foi diferente. E desde a conclusão do mestrado, não me afastei em nenhum momento das atividades do GPEB. No campo profissional, tive uma passagem (entre 2023 e 2024) pela coordenação do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), no âmbito da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. Uma experiência muito rica e significativa, e que me deu uma boa compreensão sobre as bibliotecas de acesso público distribuídas pelo Estado.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
MR: Desejo, sim, continuar os estudos e fazer o doutorado. No entanto, não tenho pressa (rs). Certamente, será na mesma área – sinto que ainda há muito o que fazer quando a temática é ‘biblioteca pública e pessoas em situação de rua’.
DC: Você por você:
MR: Um sujeito leitor – das palavras e do mundo.
Entrevistada: Marcus Rei de Lima Alves
Entrevista concedida em: 20 de janeiro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Marcus Rei de Lima Alves
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade









