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v. 4, n. 09, set. 2026
Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental – Entrevista com Gabriel Cirino

Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental – Entrevista com Gabriel Cirino

Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental – Entrevista com Gabriel Cirino

Gabriel Felipe Cotta Cirino
cirino@usp.br

Sobre o entrevistado

Em 2024, Gabriel Felipe Cotta Cirino defendeu sua dissertação pelo Mestrado Profissional em Gestão da Informação, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCI/ECA-USP), sob orientação da Profa. Dra. Ednéia Silva Santos Rocha.

Natural de Três Marias (MG), Gabriel tem formação em Publicidade e Propaganda e atua nas áreas de Ciência da Informação, saúde digital, neurodiversidade, inovação e governança da informação. Atualmente, realiza o doutorado em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo e é pesquisador e fundador/CEO da Braine. Seu tempo livre é dedicado à brincar com seu filho, Bernardo.

Sua dissertação, intitulada “Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental: a interseção entre ciência da informação, inteligência artificial ética e neurodiversidade”, investiga como a Ciência da Informação, a inteligência artificial ética e as neurociências podem contribuir para tecnologias mais inclusivas em saúde mental. A pesquisa desenvolveu protótipos e um framework de governança de dados, buscando apoiar a orientação e a continuidade do cuidado com segurança, privacidade e responsabilidade.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Gabriel Cirino(GC): Levei cerca de 15 anos para concluir a graduação e aproximadamente nove meses para concluir o mestrado. Parece contraditório, mas resume bem minha história. A diferença não foi inteligência; foi contexto.

Minha carreira passou por comunicação, design, saúde, seguros, dados e inteligência artificial. O reconhecimento tardio da minha neurodivergência me permitiu reler essa trajetória. Percebi também um problema recorrente: famílias, escolas, profissionais e instituições detinham partes importantes da história de uma pessoa, mas raramente formavam uma visão coerente. O contexto se perdia pelo caminho.

Quando uma gestora, ainda no mercado de seguros, me incentivou a pesquisar design da informação, encontrei a Ciência da Informação. O mestrado me deu método para transformar uma inquietação pessoal e profissional em uma pergunta científica: como organizar informações sensíveis e fragmentadas de maneira ética, útil e inclusiva?

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?

GC: O centro da pesquisa são as pessoas neurodivergentes, especialmente pessoas autistas e com TDAH, e suas famílias. Muitas percorrem jornadas longas e confusas sem saber qual é o próximo passo.

Profissionais, escolas, serviços e gestores também se beneficiam, pois tomam decisões com base em informações espalhadas por documentos e sistemas. Mas a tecnologia só faz sentido se preservar a dignidade, a autonomia e a participação da pessoa. Antes do código, existe uma história.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

GC: Para a ciência, a contribuição foi apresentar a Ciência da Informação como eixo de integração entre neurodiversidade, saúde mental, inteligência artificial e governança. Antes de perguntar o que um algoritmo prevê, precisamos perguntar de onde vieram os dados, que contexto foi preservado e quem será afetado pela decisão.

No campo tecnológico, a pesquisa propôs três protótipos: AURA-T, para organizar sinais e apoiar triagem e orientação inicial; Care360, para continuidade e cuidado colaborativo; e Bruna, para navegação, educação e apoio cotidiano. Além disso, foi desenvolvido um framework de governança de dados.

Socialmente, a proposta é substituir a fragmentação e os rótulos por mais contexto, próximos passos mais claros e jornadas mais contínuas. São resultados de pesquisa e desenvolvimento, embora a validação em maior escala continua sendo uma etapa importante. 

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

GC: Ingressei no Mestrado Profissional em Gestão da Informação do PPGCI/ECA-USP, na linha de Gestão de Unidades de Informação, na área Organização, Mediação e Circulação da Informação.

Escolhi o mestrado profissional porque queria aproximar ciência e problema real. A questão não era apenas tecnológica: envolvia fluxos de informação, necessidades de diferentes usuários, dados sensíveis e circulação responsável do conhecimento. A linha permitiu compreender saúde e neurodiversidade também como problemas informacionais, transformando essa compreensão em propostas aplicáveis.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

GC: Não houve um único livro ou autor. O ponto de virada foi uma edição do Catálise, no InovaUSP. Eu havia entrado no mestrado pesquisando autismo e, posteriormente, ampliei o olhar a partir do mercado segurador. Em março, apresentamos a Braine e ficamos em terceiro lugar. Aquela classificação mostrou que a ideia original tinha relevância e me fez retomá-la com mais clareza.

As disciplinas que cursei como aluno especial no Mestrado Profissional em Empreendedorismo da FEA-USP também foram decisivas, especialmente Lean Startup e Modelo de Desenvolvimento de Produtos, do professor Alvair Silveira Torres Junior. Ali testamos hipóteses e avançamos até o depósito do pedido de patente. Foi intenso e divertido: pesquisa, empreendedorismo e experimentação finalmente estavam na mesma sala.

A orientação da professora Ednéia Silva Santos Rocha deu rigor e forma acadêmica a esse percurso aplicado.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

GC: Eu resumiria em quatro verbos: compreender, construir, testar e aprender.

Primeiro, reuni estudos sobre Ciência da Informação, neurodiversidade, saúde digital, ética e proteção de dados. Depois, procurei compreender necessidades e jornadas do usuário. Com o Design Thinking, transformei esses aprendizados em possibilidades de solução. Com princípios de Lean Startup, desenvolvi protótipos para observar, testar e melhorar as ideias.

Paralelamente, construí um modelo de governança para tratar privacidade, segurança e uso responsável dos dados. A pesquisa validou protótipos; a validação clínica independente e em maior escala pertence às etapas seguintes.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

GC: Uma dificuldade foi trabalhar na fronteira entre áreas muito diferentes sem simplificá-las demais. Outra apareceu depois da qualificação: como eu havia concentrado grande parte do esforço na pesquisa aplicada e no desenvolvimento de protótipos, precisei traduzir todo esse percurso para a estrutura de um texto acadêmico.

Isso exigiu tornar explícitos conceitos, métodos, evidências, limites e relações teóricas que, na prática, muitas vezes estavam implícitos. Também precisei transformar uma urgência pessoal em pergunta científica. A experiência vivida ajuda a enxergar o problema, mas não substitui o método nem a revisão crítica. E tudo isso aconteceu enquanto eu conciliava pesquisa, trabalho e empreendedorismo — uma agenda que raramente conheceu o tédio.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

GC: Eu diria 50% de cada, embora, para mim, elas se misturem. Minha transpiração também é inspirativa: novas ideias aparecem enquanto leio, escrevo, experimento e reorganizo o pensamento.

Na abertura da dissertação, recorri a Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro”. Descobrir o TDAH foi um encontro decisivo comigo mesmo. Pude reinterpretar dificuldades e reconhecer nelas também uma forma criativa, intensa e não linear de pensar.

A inspiração me colocou em movimento; o trabalho gerou novas inspirações. O método foi o que deu forma e consistência científica a esse processo.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

GC: Descobrir o TDAH me deu uma linguagem para reler minha trajetória, mas não resolveu a vida por si só. Para mim, o diagnóstico abriu uma porta; foi o cuidado que me ajudou a atravessá-la.

O mestrado também me ensinou que intensidade não substitui método e que boa intenção não é suficiente para sustentar uma solução. A defesa marcou a passagem de uma inquietação pessoal para uma responsabilidade pública.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

GC: Depois de passar 15 anos tentando concluir a graduação, entrar no mestrado foi uma vitória familiar. Saí do interior de Minas e me mudei para São Paulo com minha então esposa. Foi um processo intenso, feito de adaptação e renúncias.

Logo depois do mestrado, já no início do doutorado, nosso casamento terminou e seguimos caminhos diferentes. Falo dessa etapa com gratidão pelo que construímos juntos e com a consciência de que meu ritmo intenso também teve efeitos na vida pessoal.

Hoje, minha mãe e meu pai são fundamentais. Eles me sustentam emocionalmente em uma fase dedicada aos estudos e à Braine. Aprendi que uma conquista nunca é inteiramente individual: mesmo quando um nome aparece na capa, muitas pessoas ajudaram a manter o livro aberto.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

GC: Minha primeira recomendação é não deixar a pesquisa terminar na defesa. A divulgação não é a embalagem final da ciência; faz parte do trabalho científico.

Quando entrei na academia, percebi que pesquisas excelentes nem sempre conseguiam atravessar os muros do campus. Minha experiência de mercado me ajudou a enxergar que estudos podem gerar startups, inovação social, propriedade intelectual e políticas públicas — sem trocar rigor por visibilidade.

Para quem utilizar minha dissertação, recomendo tratá-la como ponto de partida: validar os protótipos em outros contextos; envolver pessoas neurodivergentes no codesenho; distinguir triagem, orientação e diagnóstico; incorporar governança desde o início; e avaliar acessibilidade, equidade e vieses. Universidade, mercado e sociedade não precisam caminhar separados.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

GC: Sim. A principal produção é a dissertação publicada pela USP. Também participei do artigo Visualização de dados para políticas públicas de saúde: a experiência do DengueMap, publicado na RECIIS em 2025.

Como continuidade direta, foi publicado pela Springer, em 2026, o capítulo AURA-T: A Standards-First, Privacy-Preserving Pipeline for Neurodevelopmental Care. Outros trabalhos sobre AURA-T, Care360, NeuroNexus e curadoria simbólico-computacional foram publicados nos anais do TOI 2025. Publiquei ainda, pelo selo NeuroVerso Cultural, o livro Fronteiras da Neurodiversidade: para além dos diagnósticos e rótulos.

Hoje, a Braine é uma deeptech: uma startup intensiva em pesquisa, diante de um amplo campo de aplicação e de um enorme desafio social. Essa produção já circulou em eventos no Brasil, nas Américas, na Europa e em Cabo Verde, e há novas submissões internacionais em preparação.

Também criamos o Open Braine, repositório de ciência aberta cujo acervo inicial reunirá cerca de trinta registros entre artigos, trabalhos e apresentações, com Zenodo e DOI quando aplicável. Queremos que essa produção seja encontrada, preservada e citada. Na Braine, a Ciência da Informação não é uma área de apoio; é parte do sistema operacional da empresa.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

GC: Depois da defesa, não mudei de assunto: aprofundei o mesmo problema no doutorado e na Braine. A pesquisa passou a sustentar uma rede de cooperação e desenvolvimento tecnológico.

Hoje, mantemos cooperações técnicas com mais de quarenta municípios em cerca de dez estados. Estamos avançando para a saúde suplementar e preparando um workshop nacional destinado às APAEs de todo o Brasil.

A Braine está construindo uma infraestrutura de informação e inteligência para o neurodesenvolvimento, começando pela organização de sinais para triagem e orientação. Nossa meta-guia (ou diretriz de longo prazo) é contribuir para que dez milhões de pessoas tenham jornadas mais estruturadas e contínuas. É um horizonte, não um impacto já alcançado.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

GC: Sim. Sou doutorando em Ciência da Informação na ECA-USP, orientado pelo professor Francisco Carlos Paletta.

Costumo dizer que o doutorado e a Braine formam um mesmo circuito: o que estudo melhora nossa prática, e os problemas da prática geram novas perguntas de pesquisa. Uma frente alimenta a outra, com fronteiras éticas e metodológicas claras.

No doutorado, desenvolvo como eixo em construção a Teoria Geral do Inconsciente Informacional Computacional (TG-IIC). Quando nossas experiências deixam rastros em sistemas, esses sistemas aprendem padrões e devolvem classificações que influenciam como somos vistos. A teoria investiga essa camada distribuída entre pessoas, algoritmos e instituições.

Hoje faço duas coisas: o doutorado e a Braine. Dito assim parece pouco; na prática, cada uma já equivale a umas cinco.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

GC: Faria muitas das mesmas escolhas, mas com mais tranquilidade. Tendo a decidir rápido e assumir atividades demais no hiperfoco. Meu cérebro adora um projeto novo; minha agenda nem sempre concorda.

Hoje procuro criar contrapesos: pausas antes de novos compromissos, prioridades visíveis e pessoas autorizadas a me dizer “não”. Na pesquisa, criaria mais cedo uma matriz que separasse formulação de hipótese, prototipagem, validação, implantação e impacto.

A principal lição foi compreender que tranquilidade não é falta de ambição. Ambição só se sustenta com precisão, cuidado e espaço para continuar sem se perder de si mesmo.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

GC: O PPGCI me ofereceu muito mais que método e orientação: ajudou a me redescobrir. Depois de tantos anos acreditando que talvez a academia não fosse para mim, encontrei uma área na qual a minha maneira de conectar assuntos e traduzir complexidades fazia sentido. Talvez eu sempre tenha sido um cientista da informação; apenas não sabia.

Procurei retribuir com uma trajetória concentrada: nos aproximadamente nove meses do mestrado, desenvolvi pesquisa aplicada, protótipos e um pedido de patente; depois, vieram publicações e novas ações de divulgação científica. Levei o nome do PPGCI para saúde, neurodiversidade, empreendedorismo, imprensa e eventos no Brasil e no exterior.

A Braine foi campeã geral da final Santander X Award no SGE USP 2025. Hoje, somos Startup com DNA USP, estamos incubados no Cietec e participamos de iniciativas da Auspin. É a continuidade de uma pesquisa que encontrou aplicação e circulação social.

Sempre que alguém fala em fazer mestrado ou doutorado, recomendo que conheça o PPGCI. O programa me ajudou a compreender quem sou; quero continuar retribuindo essa oportunidade com pesquisa, divulgação científica e tudo o que ainda construiremos.

DC: Você por você: 

GC: Sou mineiro de Três Marias, pai do Bernardo, publicitário por formação e cientista da informação por descoberta. Minha trajetória nunca foi muito linear, mas talvez tenha sido isso que me ensinou a ligar pontos que pareciam distantes.

Gosto de me definir como um tradutor de complexidades. Meu trabalho é transformar fragmentos em contexto e contexto em caminhos. Procuro fazer ciência sem perder a sensibilidade, empreender sem trocar evidência por performance e cultivar ambição com precisão.

Se eu puder ajudar as pessoas a serem compreendidas antes de serem reduzidas a um código, uma pontuação ou um diagnóstico, toda essa trajetória fará sentido.


Entrevistada: Gabriel Felipe Cotta Cirino
Entrevista concedida em:  11 de agosto de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Gabriel Felipe Cotta Cirino
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela

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