
Perspectiva sobre o movimento Library Publishing em bibliotecas universitárias brasileiras – Entrevista com Lucas Silva

Perspectiva sobre o movimento Library Publishing em bibliotecas universitárias brasileiras – Entrevista com Lucas Silva
Lucas dos Santos Souza da Silva
lucassilva@discente.ibict.br
Sobre o entrevistado
Em 2025, Lucas dos Santos Souza da Silva defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação do Prof. Dr. Fábio Castro Gouveia e coorientação da Profa. Dra. Nanci Elizabeth Oddone.
Atualmente, Lucas atua como pesquisador bolsista de doutorado no PPGCI do Ibict. Bacharel em Biblioteconomia pela UNIRIO, é natural do Rio de Janeiro e tem como interesses pessoais a leitura de literatura de ficção e conteúdos sobre desenvolvimento pessoal, além de assistir a séries e filmes, meditar e escrever sobre seus pensamentos e sentimentos.Sua dissertação, intitulada “Perspectiva sobre o movimento Library Publishing em bibliotecas universitárias brasileiras”, investigou as percepções de bibliotecários acerca do desenvolvimento de serviços editoriais em bibliotecas universitárias no Brasil, fenômeno reconhecido internacionalmente como Library Publishing. O estudo, contribui para dar visibilidade às iniciativas brasileiras no cenário internacional, destacando o papel das bibliotecas na promoção de uma comunicação científica mais aberta, inclusiva e sustentável.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Lucas Santos (LS): O desejo do mestrado veio na graduação em Biblioteconomia, na UNIRIO, em meados de 2018, quando surgiu a ideia de investigar esse campo de Library Publishing, que alia duas paixões minhas – a Biblioteconomia e a Produção Editorial. Eu vinha observando com mais atenção meu interesse por temáticas como história do livro, e o papel das bibliotecas na Comunicação Científica, especialmente quando comecei a ter mais conhecimento do movimento Ciência Aberta. Em paralelo, esse desejo ficou mais claro para mim ao longo do processo de construção de pesquisa por meio da Iniciação Científica, sendo orientado pela Profa. Dra. Dayanne Prudencio, uma parceira incrível na minha vida.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
LS: Os beneficiados serão quaisquer pesquisadores e/ou profissionais que investiguem e/ou trabalhem em bibliotecas universitárias, especialmente no Brasil, que desejem conhecer mais sobre o desenvolvimento de práticas editoriais, de edição e publicação em diversos formatos e tipos de conteúdos e engajar-se nessa temática, seja na investigação sobre as boas práticas desenvolvidas, seja aplicando-as, seja tornando-as visíveis através da divulgação no cenário global do movimento Library Publishing. Estudando esse campo há mais de 7 anos, vejo o quão avançadas estão as pesquisas especialmente no Norte global, o que em contrapartida, serviços no contexto brasileiro, ainda contam com pouca representação no cenário internacional.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
LS: As principais contribuições estão em visibilizar como as bibliotecas universitárias estão revolucionando a forma de apoiar pesquisadores na produção científica, como estão se apropriando das tecnologias digitais para trazer luz a novos formatos e conteúdos de publicação, como vem construindo novas infraestruturas digitais, como repositórios e bibliotecas digitais, e implementando recursos para ampliar o acesso ao conhecimento, orientados aos princípios basilares da Ciência Aberta.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
LS: A minha pesquisa está inserida na Linha de Pesquisa 1 – Comunicação, Organização e Gestão da Informação e do Conhecimento, voltada às problemáticas da Comunicação Científica, investigando fluxos e oportunidades de melhorias do sistema de publicação científico, com objetivo de promover o potencial dos bibliotecários colaborando na produção e publicação de conhecimento qualificado, contribuindo para um sistema mais transparente e democrático, e cumprindo assim com a missão da biblioteca na disseminação do conhecimento.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
LS: Os trabalhos mais importantes que eu usei como pontos de partida foram: o artigo “Serviços de Editoração desenvolvidos por Bibliotecas Universitárias”, publicado em 2016, pelos pesquisadores Dr. Julio Santillán-Aldana e Dra. Suzana Mueller, onde levantaram as características do movimento Library Publishing, e mapearam os serviços desenvolvidos, destacando na América Latina, a gestão de periódicos científicos; e o artigo “Bibliotecários e Editoração: mercado e competências necessárias”, publicado em 2018, pelos pesquisadores Maria Giovana Guedes Farias, Juliana Soares Lima e Francisco Edvander Pires Santos, que analisam as habilidades de bibliotecários para atuação em equipes editoriais.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
LS: O primeiro passo foi o levantamento documental sobre esse tema no contexto internacional e no brasileiro, realizando as buscas em bases de dados que cubram áreas relacionadas à Ciência da Informação. Outras fontes foram as documentações disponibilizadas abertamente nos websites oficiais da Library Publishing Coalition (LPC), e do grupo especial de interesse da IFLA sobre Library Publishing, principais órgãos de investigação sobre iniciativas Library Publishing no cenário internacional. Levando em consideração que a principal estratégia de mapeamento dos serviços desenvolvida pela LPC é um questionário anual e aberto a toda a comunidade das bibliotecas, mas somente disponibilizado em língua inglesa, fomos adaptá-lo para o português no formato de uma pesquisa de opinião para conhecer a perspectiva dos bibliotecários brasileiros sobre este campo de iniciativas nas bibliotecas universitárias no Brasil, considerando as particularidades desse contexto.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
LS: O processo de pesquisa é na maior parte do tempo muito solitário, e demanda muita energia física e emocional do pesquisador, e confesso que consideráveis vezes, nessa condição, estive sob muita pressão, não cuidando da minha saúde como deveria, trabalhando muito para cuidar das pessoas que dependem de mim, para além das atividades do mestrado. Questões de saúde mental me ocasionaram momentos de muito bloqueio na escrita, e prejudicaram também a maturação de ideias em alguns momentos, atrasando até mesmo algumas etapas de execução do projeto.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
LS: Eu diria que foi 20% de inspiração, porque a ideia da pesquisa veio de um lugar de romantização pelo que eu gostaria de alcançar e com o impacto que ela pode trazer para as bibliotecas, quebrando paradigmas. Mas também 80% de muita transpiração, de esforço árduo para estabelecer recortes no objeto de estudo, enfrentar barreiras de acesso ao público-alvo, respeitar as limitações de tempo e as normas éticas para execução da pesquisa. Mas no final, mesmo entre resultados positivos e negativos, e caminhos alternativos tomados, conseguimos levantar dados importantes para fundamentar a relevância desta temática.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
LS: Nesse percurso, muitas coisas aconteceram, a mais desoladora delas foi o diagnóstico repentino da doença de minha avó Maria Helena logo que ingressei no mestrado, cujo tratamento oncológico paliativo foi ocorrendo em paralelo ao meu mestrado. Foi um processo muito doloroso para todos nós familiares que acompanhamos esse tratamento tão pesado de perto até a sua partida em novembro de 2024. Minha avó sempre foi exemplo de resiliência, sabia aproveitar a vida com alegria e ser presente para quem ela amava. Ela foi a luz que me ajudou a encontrar meu propósito, conquistar esses espaços, e alcançar meus sonhos até então. O mestrado pode ter sido caótico, mas passado esse momento e com ajuda de acompanhamento psicoterapêutico, estou num momento que eu prefiro celebrar as conquistas e a memória de minha amada avó… como quando nos abraçamos após a minha qualificação, como quando contei para ela sobre a minha primeira viagem para apresentar meu trabalho, que minha pesquisa havia sido indicada a um dos melhores trabalhos do GT 7 no ENANCIB 2024. São momentos afetuosos como esses que quero lembrar para sempre e continuar seu legado.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
LS: O apoio incondicional nos estudos da minha mãe e dos meus avós foram minha base para fazer o que eu quisesse… dando liberdade para eu conversar quando fosse minha vontade, me isolar quando eu quisesse estar mais comigo, estar presente e sair de casa para me distrair e cuidar da saúde mental para que eu conseguisse continuar pesquisando e produzindo conhecimento. Meus amigos também foram uma família que fui cativando afetos ao longo da vida… alguns conhecidos em outras fases da vida, e outros no mestrado, formando laços onde tive liberdade para compartilhar conquistas e desafios da pesquisa acadêmica e celebrarmos juntos nossa resiliência e união em períodos turbulentos.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
LS: Eu recomendaria acompanhar as tendências de pesquisa em Library Publishing no cenário internacional. A Library Publishing Coalition vem produzindo materiais de referência sobre a atuação editorial das bibliotecas, como o diretório que anualmente é atualizado com o mapeamento global das bibliotecas com serviços editoriais, que serve de base para o Global Library Publishing Map da IFLA, e o Library Publishing Research Agenda, que lista tópicos de pesquisa em andamento ou em planejamento neste campo. Principalmente, recomendo que ao tratar a pesquisa sobre este campo em qualquer contexto, considere as dinâmicas de produção e comunicação científica na região, tomando como ponto de partida as redes consolidadas, as métricas de avaliação adotadas, e as boas práticas em respeito aos princípios éticos.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
LS: No mestrado, eu consegui participar de importantes eventos científicos da área. Em 2024, estive no ENANCIB em Vitória e no CBBD em Recife, onde publiquei 2 resumos expandidos. Já em 2025, posterior a conclusão do mestrado, eu publiquei 2 capítulos de livros intitulados: “El movimiento de Library Publishing en el horizonte de la investigación en Bibliotecología y Ciencia de la Información” e “Produção editorial em bibliotecas universitárias brasileiras: engajamentos criativos com publicações científicas abertas”, que considero como as publicações mais importantes e atualizadas até o momento.
Também tive a oportunidade de apresentar em três conferências internacionais: no Library Publishing Forum 2025 – Virtual Conference, na Conferência Luso-Brasileira de Ciência Aberta (ConfOA 2025, Goiânia), e no XI Encontro EDICIC em Porto. Todas essas participações e produções frutos da dissertação foram muito especiais para mim, reconhecendo o valor das minhas pesquisas.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?LS: Desde a conclusão da dissertação, tenho me dedicado a me capacitar profissionalmente no campo da editoração científica. Eu já venho atuando profissionalmente com meu projeto pessoal Biblio.Iluminado desde 2022, oferecendo serviços de formatação e revisão de trabalhos acadêmicos e consultorias sobre pesquisas e publicações científicas, em apoio a pesquisadores com diversos níveis de formação. Mas em 2025, com objetivo de atuar em equipes editoriais e grupos de pesquisa, ingressei voluntariamente na equipe técnica de diagramação do periódico Biblios (ISSN 1562–4730), revista especializada em Biblioteconomia e Ciência da Informação, onde eu venho tendo uma experiência muito enriquecedora de aprendizados, e também venho participando atualmente de dois grupos de pesquisa: o primeiro deles sendo o grupo de pesquisa BRIET, coordenado pela profa. Luana Sales e prof. Luis Fernando Sayão (IBICT e CNEN), e do grupo TRAMA, coordenado pela profa. Dayanne Prudencio (Ibict), onde venho realizando minha pesquisa de doutorado sobre Library Publishing.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
LS: Na mesma semana em que defendi minha dissertação no PPGCI Ibict/UFRJ, submeti meu projeto de pesquisa para o processo seletivo de doutorado no PPGCI Ibict. Ainda que não tenha sido minha intenção entrar no doutorado logo de imediato, o resultado positivo da dissertação me deu todo o gás que precisava para enxergar meu potencial enquanto pesquisador, e visualizar como eu poderia conquistar meus objetivos e sonhos através da pesquisa na Pós-Graduação. Assim, sem intervalo para respirar, atualmente estou no segundo período do doutorado, continuando a investigação da temática Library Publishing na Ciência da Informação (e da minha amada Biblioteconomia).
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
LS: Com certeza buscaria cuidar melhor da minha saúde, principalmente por meio de apoio psicológico para lidar melhor com as questões pessoais e acadêmicas deste período da minha vida. Também teria corrido atrás de construir mais parcerias para produção de pesquisas relacionadas a minha linha de pesquisa, que me fizessem refrescar a mente com novos conhecimentos. Senti que pelo momento que estava passando, eu me isolei demais e não me permiti ser vulnerável.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
LS: O que eu mais valorizo no PPGCI Ibict foi o espaço que me deu para construir a pesquisa que eu gostaria, ter me dado suporte para viajar para participar de eventos em outros estados do Brasil, e até fora do Brasil, para internacionalizar minha pesquisa. E em retorno ao Programa, através das minhas produções, eu pude colaborar no fortalecimento de imagem e da avaliação do Programa, na qualidade e na internacionalização das pesquisas desenvolvidas ali. Além disso, também venho participando de projetos no PPGCI Ibict que auxiliam a sua gestão, levando recomendações com a minha visão de discente.
DC: Você por você:
LS: Sou um bibliotecário criativo e eterno aprendiz, sempre buscando e explorando novas oportunidades de me desenvolver enquanto ser humano e profissional. Ao longo da vida, venho me aliando a movimentos de apoio às necessidades reais da nossa sociedade, por diversidade, equidade e justiça social. Atualmente, pesquiso sobre o movimento Library Publishing aliado aos princípios da Ciência Aberta, com as bibliotecas no centro dos projetos criativos e inovadores pela democratização e diversidade no ciclo da produção da comunicação científica e acadêmica. Quando não estou trabalhando nos meus projetos de pesquisa e profissional, estou com um bom livro de ficção na mão, na companhia do meu gato Robin, me desbravando no universo do Cinema & TV, conhecendo o mundo e capturando cada detalhe com meus próprios sentidos ou me deliciando com a discografia da minha artista favorita Taylor Swift.
Entrevistado: Lucas dos Santos Souza da Silva
Entrevista concedida em: 17 de fevereiro de 2026.
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Larissa Alves
Fotografia: Lucas dos Santos Souza da Silva
Diagramação: Larissa Alves / Pedro Andretta










