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v. 3, n. 12, dez. 2025
Mediação da informação, resistência e emancipação social nas produções audiovisuais periféricas de Belém (PA) – Entrevista com Jetur Castro

Mediação da informação, resistência e emancipação social nas produções audiovisuais periféricas de Belém (PA) – Entrevista com Jetur Castro

Mediação da informação, resistência e emancipação social nas produções audiovisuais periféricas de Belém (PA) – Entrevista com Jetur Castro

Jetur Lima de Castro

jetur.castro@unesp.br

Sobre o entrevistado

Em 2025, Jetur Lima de Castro concluiu o doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP), sob orientação do Prof. Dr. Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

Atualmente, Jetur atua como professor no Instituto de Educação Estadual do Pará, integrando a Educação Profissional e Tecnológica no Curso Técnico em Biblioteconomia. Em sua vida pessoal, cultiva a música desde a infância, sendo baterista, além de praticar futebol e dedicar-se à leitura, especialmente de obras acadêmicas, que dialogam com sua atuação intelectual e profissional.

Sua tese, intitulada “Mediação da informação e autorrepresentação: resistência e emancipação social por meio de interferências nas contranarrativas audiovisuais de coletivos periféricos”, investigou como coletivos do bairro Terra Firme, em Belém (PA), produzem narrativas audiovisuais que se configuram como práticas de resistência diante de estigmas historicamente reproduzidos pela mídia hegemônica. O trabalho demonstra como tais práticas se consolidam como processos de autorrepresentação, interferência simbólica e emancipação social, revelando o potencial transformador da mediação em contextos periféricos.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Jetur Castro (JC): O doutorado nasceu de uma inquietação que foi crescendo à medida que eu revisitava, nas discussões com o professor Oswaldo (OFAJ), o próprio conceito de mediação da informação e as interferências que atravessam esse processo. Entrei no programa com outro projeto, voltado às bibliotecas públicas e o agir comunicativo, mas o caminho foi mudando conforme eu me aproximava de um debate mais teórico. 

O que eu já havia estudado no mestrado, a autorrepresentação, juventude e violência nas periferias de Belém do Pará, analisando meu próprio território, começou a ganhar novo sentido dentro da Ciência da Informação. A virada veio com um artigo apresentado no EPIM, em 2022, que estruturou a ideia de interferência como ação coletiva emancipatória. A partir das vozes periféricas e do audiovisual produzido pelos coletivos, percebi um contraponto forte à mídia hegemônica. Minha vivência na Terra Firme, somada ao trabalho com grupos culturais e à música, consolidou essa perspectiva e me permitiu unir trajetória, pesquisa e compromisso com a periferia.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e  conclusões alcançados?

Jetur Castro (JC): Muitos diriam que a confiança plena viria depois da qualificação, mas foi o contrário. Naquele momento, o maior desafio era metodológico.

Eu pretendia realizar pesquisa de campo, mas o tempo reduzido exigiu reformular o desenho da pesquisa. Depois de conversar com OFAJ e receber seu aval para o novo caminho, assumi a Análise Crítica do Discurso e mergulhei nos dois jornais impressos e nas vinte e cinco produções audiovisuais dos coletivos periféricos, focando as contranarrativas e as interferências discursivas construídas por eles. Mesmo com os dados coletados, analisados e o texto entregue ao orientador e à banca, a sensação de “ter uma tese” ainda não tinha chegado. Ela só veio quando comecei a montar a apresentação da defesa. Ao revisar cada parte e perceber coerência, organização e sentido em toda a estrutura, finalmente pensei: “agora sim, é uma tese.”

DC: Citaria algum trabalho  ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

JC: Um dos trabalhos decisivos para minha tese foi o de Axel Honneth (2009), especialmente sua teoria do reconhecimento. A ideia de que a identidade dos sujeitos se fortalece nas relações sociais me ajudou a compreender como os coletivos da Terra Firme constroem formas próprias de autorrepresentação e disputam reconhecimento social. Ao lado disso, os estudos de Zanetti (2010) sobre periferia e imagem foram fundamentais para pensar a força política dessas narrativas. Mas o que realmente direcionou a pesquisa foi acompanhar de perto o trabalho do Tela Firme, do Cine Clube TF, do Boi Marronzinho e dos Tamuatás do Tucunduba. Ao observar seus vídeos e formas próprias de narrar o bairro, percebi que ali existia uma potência de interferência informacional ainda pouco explorada.                                                                                                     

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

JC:  Ao examinar a mediação da informação para além dos procedimentos técnicos, tornou-se evidente que ela se inscreve nas relações, nos embates interpretativos e nas disputas de sentido que configuram o cotidiano. Esse deslocamento teórico demandou um tratamento analítico de fôlego, próprio de uma pesquisa em nível de doutorado. 

O ineditismo do trabalho reside em evidenciar que práticas mediadoras podem emergir de coletivos periféricos. A análise dos vídeos produzidos por esses grupos revelou ações de interferência capazes de tensionar fluxos informacionais, confrontar estigmas sedimentados pela mídia e instaurar contranarrativas que reafirmam identidades locais. Assim, demonstrou-se que sujeitos historicamente invisibilizados não apenas integram a cena informacional, mas produzem modos singulares de mediar, organizar e disputar sentidos. Essa perspectiva amplia o horizonte da área ao reposicionar a pergunta sobre quem produz informação e quais efeitos essa produção engendra, abrindo novas frentes analíticas para compreender as práticas informacionais periféricas, por meio das produções audiovisuais.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

JC:   Essa perspectiva pode orientar políticas de informação popular, ações de educação crítica e programas voltados à justiça informacional, ao reconhecimento e à redistribuição da informação. Também oferece subsídios para que gestores públicos, pesquisadores e educadores reconheçam saberes locais como legítimos e fundamentais ao fortalecimento da participação social e à construção de narrativas mais plurais e equitativas sobre as vozes periféricas.

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

JC:   Ao mostrar que as periferias não se resumem a contextos de vulnerabilidade, mas constituem territórios que produzem, medeiam informação, memória e ação política, tornando-se visíveis formas próprias de agência coletiva. Essa abordagem fortalece a ideia de que a periferia é produtora de conhecimento e não apenas objeto de estudo. As narrativas audiovisuais dos coletivos mostram-se como ações de interferência que ampliam o direito à autorrepresentação e enfrentam estigmas reiterados pela mídia hegemônica. Isso importa porque dá visibilidade aos moradores e ao protagonismo da juventude periférica que sempre tiveram suas vozes diminuídas e mostra que elas também constroem conhecimento e fazem política por meio do audiovisual.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

JC:   Inicialmente, realizou-se uma revisão teórica sobre mediação da informação, reconhecimento e autorrepresentação, a fim de estabelecer o referencial conceitual da pesquisa. Em seguida, a seleção de reportagens de jornais sobre o bairro Terra Firme, observando padrões de linguagem, termos e as imagens que eram associadas ao território. A terceira etapa consistiu na seleção e observação das produções audiovisuais dos coletivos Tela Firme, Cine Clube TF, Boi Marronzinho e Tamuatás do Tucunduba, buscando compreender seus modos de narrar o território e disputar sentidos. Por fim, aplicou-se a Análise Crítica do Discurso para interpretar os materiais e contrastá-los com as narrativas jornalísticas, evidenciando seu papel como formas de mediação da informação, ação de interferência informacional e resistência.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

JC:   A tese teve 20% inspiração e 80% de transpiração. A inspiração veio da minha própria vivência no território, das pessoas da Terra Firme e dos coletivos que me ensinaram a enxergar o bairro para além dos estigmas. Mas o processo de escrita exigiu rotina, disciplina e um esforço constante de organizar ideias, revisar textos e lidar com o volume de leituras e análises. A maior dificuldade foi equilibrar vida pessoal, trabalho e pesquisa, especialmente porque estudar um território ao qual pertenço mexe emocionalmente. Cada narrativa negativa nos jornais, por exemplo, me afetava. Mesmo assim, esse processo me aproximou ainda mais do meu lugar e reforçou meu desejo de entregar uma tese honesta, sensível e comprometida com quem sempre caminhou comigo.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

JC:   A caminhada até a defesa foi intensa, mas cheia de significados positivos. Não digo que foi um período difícil; foi um período de entrega. Tive momentos de cansaço, mas também muitos outros de descoberta, afeto e parceria. Pesquisar um território ao qual pertenço mexeu comigo várias vezes, algumas narrativas me feriam, outras me fortaleciam. Mas nunca deixei de sentir que estava fazendo algo que importava de verdade. Se existe um desabafo, é este: as periferias também podem ocupar a universidade, fazer pesquisa séria, ensinar e transformar suas vivências em conhecimento.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

JC:   O período foi tranquilo e marcado por convivência próxima, já que em casa somos apenas eu, minha esposa e meu filho. Como ela também cursava o doutorado em Ciência da Informação, estabelecemos uma relação de parceria constante. Ela revisava meus textos, oferecia apoio e me motivava a continuar. Quando a pesquisa se tornava mais tensa, eu alternava o trabalho com momentos de lazer: tocava com outros músicos, saía com minha esposa e brincava com meu filho. Essa alternância ajudava a aliviar a pressão, recuperar a clareza e retomar a escrita e a análise com mais disposição, mantendo o equilíbrio durante o processo.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

JC:  Equilibrar o pertencimento e distanciamento analítico foi um desafio constante. Outra dificuldade foi transformar experiências tão vivas e afetivas em categorias teóricas sem perder a sensibilidade. Esse processo exigiu cuidado redobrado, mas também fortaleceu meu compromisso em honrar o trabalho dos coletivos com respeito e responsabilidade. 

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?

JC: Pesquisas que comparem diferentes territórios periféricos no âmbito nacional poderiam revelar outros modos de interferência informacional, ampliando o debate sobre como a informação circula, se transforma e gera pertencimento. Do mesmo modo, análises comparativas entre bairros de Belém e de outras cidades permitiriam identificar padrões de resistência e formas próprias de produção informacional ainda pouco estudadas. Também vejo grande potencial em pesquisas sobre autorrepresentação audiovisual e suas relações com reconhecimento social, especialmente entre jovens, que têm usado essas linguagens para narrar suas experiências e fortalecer identidades coletivas.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

JC: Concluir o doutorado abriu um novo momento na minha trajetória. Quero seguir escrevendo, pesquisando e ensinando, porque é nesse movimento que encontro sentido e continuidade. A experiência de estar em sala de aula, especialmente na graduação em Biblioteconomia, reafirmou meu desejo de permanecer na docência e aprofundar os estudos sobre mediação da informação. Atualmente atuo como professor no Instituto de Educação Estadual do Pará (IEEP), no Curso Técnico em Biblioteconomia, mas meu objetivo é alcançar a docência efetiva na UFPA, universidade onde me formei e que considero minha casa. Quero contribuir para a formação de novos profissionais bibliotecários para o fortalecimento de pesquisas críticas voltadas aos territórios periféricos.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

JC: Na verdade, não mudaria nada. Mesmo tendo alterado o tema diversas vezes ao longo da tese, compreendi que essas mudanças não foram desvios, mas partes constitutivas do próprio processo de formação do pesquisador. Cada redirecionamento surgiu de momentos de comunicação acadêmica entre publicar artigos, apresentar trabalhos, dialogar com outros pesquisadores e, nesses espaços, novas questões e sentidos surgiram. Foi nesse confronto argumentativo e na troca pública de ideias, que passei a entender melhor minha posição enquanto pesquisador. Aprendi a confiar no percurso, reconhecer a validade das mudanças e permitir que a tese se estruturasse a partir do entrelaçamento entre esforço, reflexividade e desenvolvimento pessoal.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

JC: Avalio minha produção científica durante o doutorado como consistente e em diálogo direto com o desenvolvimento da pesquisa. As publicações foram ganhando maturidade ao longo do processo, resultando em uma trajetória articulada e relevante para a área. Entre os trabalhos produzidos neste período, destaco:

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

JC: Eu recomendaria que enxergassem a trajetória da pesquisa como um processo de formação que depende profundamente das relações de reconhecimento que construímos. A tese não nasce apenas do esforço individual, mas da possibilidade de desenvolver autoconfiança ao testar ideias, autorrespeito ao encarar críticas com maturidade e autoestima social ao perceber que nossa contribuição tem valor para a comunidade acadêmica. Por isso, apresentem seus trabalhos, publiquem, conversem, deixem-se afetar pelas leituras e pelos diálogos. 

A pesquisa cresce quando circula e quando é reconhecida. E, acima de tudo, mantenham um compromisso ético com os sujeitos pesquisados, reconhecendo neles não “fontes”, mas parceiros que nos ajudam a compreender o mundo.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

JC: A relação entre orientador e orientando precisa ser construída com diálogo, respeito e abertura. Não vejo a orientação como uma hierarquia rígida, mas como um espaço de cooperação, no qual o orientando tem liberdade para formular suas inquietações, experimentar ideias e amadurecer argumentos, enquanto o orientador oferece direção, leitura crítica e apoio. É uma relação que funciona quando há escuta mútua e quando ambas as partes reconhecem que a pesquisa é um processo compartilhado. É uma parceria baseada em confiança, responsabilidade e reconhecimento das singularidades de cada percurso acadêmico. Meu orientador, Professor Oswaldo, foi exatamente esse tipo de presença. Eu o respeito profundamente, porque aprendi não só com o pesquisador competente que ele é, mas como um grande ser humano.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

JC: Sim, a tese abriu desdobramentos relevantes para a continuidade da pesquisa. Atualmente, encontra-se em construção um projeto de pós-doutorado em Ciência da Informação, intitulado “Intersubjetividade e reconhecimento em práticas informacionais: um aporte teórico-metodológico para a Ciência da Informação”, que propõe a elaboração de um modelo teórico-metodológico voltado à análise de práticas informacionais a partir das categorias de intersubjetividade e reconhecimento, articuladas à mediação da informação. Em perspectiva futura, vislumbra-se a possibilidade de desenvolver, já no exercício da docência em uma Universidade Federal, um projeto de pesquisa que aprofunde ainda mais essas relações categóricas.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

JC: O PPGCI/Unesp ampliou meu horizonte teórico, metodológico e político. Deu estrutura, orientação e densidade ao meu percurso, permitindo que sistematizasse inquietações antigas e transformasse experiência de vida em pesquisa. Ao mesmo tempo, ofereceu debates, grupos de estudo e interlocuções fundamentais para consolidar minha formação. Em contrapartida, procurei contribuir com produção científica contínua, participação em eventos, organização de atividades acadêmicas e fortalecimento das discussões sobre mediação da informação.

DC: Você por você: 

JC: Venho de um território que ainda convive com muitas ausências, mas também com uma força comunitária muito própria. Aprendi a observar o mundo antes mesmo de aprender a ler, e isso orientou meu modo de pensar e de caminhar. Sempre acreditei que a educação abre caminhos onde existem barreiras, mesmo quando essas barreiras permanecem firmes e exigem que encontremos pequenas frestas para avançar. Vejo-me como alguém que segue com constância, passo a passo, mantendo o chão e a direção. Minha trajetória é construída por esforço compartilhado, persistência e pertencimento.


Entrevistada: Jetur Lima de Castro
Entrevista concedida em:  22 de novembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Jetur Lima de Castro
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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