• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 3, n. 12, dez. 2025
A Biblioteca Escolar na Educação Infantil – Entrevista com Marina Moreira

A Biblioteca Escolar na Educação Infantil – Entrevista com Marina Moreira

A Biblioteca Escolar na Educação Infantil – Entrevista com Marina Moreira

Marina Moreira

marynnah_moreira@hotmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2024, Marina Moreira concluiu seu doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Giszela Eggert-Steindel.

Marina é natural de Francisco Beltrão (PR), é graduada em Pedagogia e História e tem como hobbies a leitura, assistir a filmes e séries, viajar e aproveitar momentos de convivência com amigos. Profissionalmente, atua como pedagoga no Instituto Federal Catarinense, além de exercer a docência no Ensino Superior.

Em sua tese, intitulada “Estratégias e táticas na biblioteca escolar da Educação Infantil: diálogos sobre educação em informação”, investigou como as bibliotecas da Educação Infantil contribuem para a educação em informação desde os primeiros anos. A pesquisa, realizada em instituições de Educação Infantil municipais de Pato Branco (PR), ouviu professoras, gestoras e crianças, revelando que, embora nem todas as instituições disponham de recursos estruturais suficientes, práticas criativas e colaborativas emergem para manter a biblioteca viva no cotidiano escolar. O estudo propõe caminhos para fortalecer esses espaços, destacando seu papel no desenvolvimento da curiosidade, autonomia, pensamento crítico e imaginação das crianças.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Marina Moreira (MM): Para falar a verdade, nunca imaginei que chegaria ao doutorado, o mestrado sempre foi o meu grande sonho. Entretanto, ao concluir o mestrado, percebi que minha pesquisa tinha potencial para continuar e se aprofundar no doutorado. A escolha do meu objeto de estudo me acompanha há muito tempo. Eu era professora da Educação Infantil durante o dia e, à noite, trabalhava como auxiliar de biblioteca em uma faculdade. Em 2016, ingressei como aluna não regular em uma disciplina de mestrado com o professor Marcos Gehrke, que pesquisa bibliotecas escolares. Naquele momento, eu ainda não tinha clareza sobre qual tema seguir, mas o professor percebeu que eu já trazia esse objeto de pesquisa nas mãos. Desde então, tenho dedicado meus estudos e minha trajetória acadêmica a compreender e valorizar a biblioteca escolar na Educação Infantil.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?

MM: Desde o início do doutorado, eu já tinha uma hipótese muito clara: a de que a biblioteca escolar na Educação Infantil é um espaço formativo fundamental, capaz de promover a educação em informação desde a primeira infância, mesmo quando enfrenta limitações estruturais ou institucionais. Nunca tive dúvidas sobre a importância da biblioteca escolar para o desenvolvimento das crianças pequenas. Ao longo da pesquisa, cada observação, entrevista e análise foi confirmando essa convicção. Pude perceber que, mesmo quando a biblioteca não está plenamente estruturada, ela se faz presente nas práticas e nas relações, mediando saberes e despertando nas crianças o gosto pela leitura, pela descoberta e pelo conhecimento. Foi nesse processo que tive certeza de que havia, de fato, uma tese a ser defendida.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

MM: Sim. Uma das referências decisivas para o desenvolvimento da minha tese foi a obra de Michel de Certeau, especialmente suas reflexões sobre “estratégias” e “táticas”. A partir de seus escritos, compreendi como a biblioteca escolar na Educação Infantil pode ser vista como um espaço de práticas cotidianas em que professores, bibliotecários e crianças constroem significados, mesmo diante das limitações institucionais. Além de Certeau, os estudos de Campello et al. (2010) sobre bibliotecas escolares e de Kramer (1995; 2009) sobre as práticas e sentidos da infância também foram fundamentais para consolidar meu olhar sobre o tema. Essas leituras, associadas à minha própria vivência como professora da Educação Infantil e auxiliar de biblioteca, foram decisivas para que eu encontrasse o eixo teórico e metodológico da pesquisa. Não posso deixar de mencionar os estudos produzidos na ECA USP pelo grupo de estudos do professor Edmir Perrotti.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

MM: Minha tese se caracteriza como um trabalho de doutorado porque vai além de descrever a realidade das bibliotecas escolares na Educação Infantil. Ela propõe uma nova forma de compreendê-las, a partir da perspectiva da História Cultural e das categorias de estratégia e tática, de Michel de Certeau. Essa abordagem permitiu analisar as bibliotecas não apenas como espaços físicos, mas como lugares de práticas, de invenções e de resistências cotidianas. O ineditismo do estudo está em trazer a Educação Infantil para o centro da discussão sobre a educação em informação, campo ainda pouco explorado nessa etapa da educação básica. Além disso, o trabalho apresenta diretrizes inéditas para a atuação das bibliotecas escolares na Educação Infantil, com base nas vozes de professoras, gestoras e das próprias crianças, reconhecendo nelas sujeitos ativos na construção de sentidos e saberes. Em síntese, o ineditismo está em unir teoria, prática e escuta sensível, mostrando que a biblioteca da Educação Infantil não é apenas um espaço de leitura, mas um dispositivo formativo, informacional e cultural desde a primeira infância.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

MM: Acredito que minha tese pode contribuir para a sociedade ao valorizar a biblioteca escolar como um espaço essencial na formação das crianças desde a Educação Infantil. O estudo mostra que, quando a biblioteca é vivenciada como lugar de descoberta, imaginação e construção de saberes, ela fortalece o desenvolvimento da autonomia, da curiosidade e da leitura crítica desde a primeira infância. Além disso, a pesquisa pode orientar professores, gestores e formuladores de políticas públicas a repensarem o papel da biblioteca escolar, não apenas como um depósito de livros, mas como um espaço de aprendizagem, cultura e inclusão.

Ao propor diretrizes para a implementação e o fortalecimento das bibliotecas escolares na Educação Infantil, a tese oferece caminhos concretos para que as escolas ampliem o acesso à leitura e à informação, o que é fundamental para a formação de sujeitos mais críticos, criativos e participativos na sociedade.

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

MM: As principais contribuições da minha tese estão na compreensão ampliada da biblioteca escolar na Educação Infantil e na produção de conhecimento teórico e metodológico sobre esse espaço. O estudo evidencia que a biblioteca não é apenas um recurso pedagógico, mas um território de práticas culturais e informacionais, onde as crianças constroem sentidos e aprendem a ler o mundo. Outra contribuição importante foi a escuta das vozes das crianças, algo ainda pouco valorizado nas pesquisas sobre bibliotecas e educação em informação. Essa escuta revelou que as crianças se reconhecem como sujeitos ativos nesses espaços. Além disso, a tese oferece diretrizes práticas e conceituais que podem subsidiar a formação de professores e a criação de políticas públicas voltadas à Educação Infantil, fortalecendo o vínculo entre leitura, cultura e formação cidadã.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

MM: A pesquisa foi feita observando o dia a dia da Educação Infantil e ouvindo quem faz parte desse ambiente — professoras, gestoras e as próprias crianças. Usei entrevistas, observações e registros de campo para entender como a biblioteca é usada e o que ela representa para quem a vivencia. Assim, consegui perceber como, mesmo com poucos recursos, esses espaços se tornam lugares de aprendizado, imaginação e troca de saberes.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

MM: Diria que foi cerca de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Fazer a tese exigiu muita disciplina, persistência e revisão constante. Houve momentos de cansaço e dúvida, mas também de muita aprendizagem e realização pessoal.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

MM: Sim. Foi uma caminhada longa e intensa, com muitos desafios pessoais e profissionais. Houve momentos de dúvida, cansaço e vontade de desistir, mas também de grandes descobertas e amadurecimento. Hoje, ao olhar para trás, sinto gratidão — por ter persistido, por quem acreditou em mim e por ver que o esforço valeu a pena. A tese não é só um trabalho acadêmico, é também uma parte da minha história e da minha trajetória como educadora.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

MM: Foi ótimo. Tive o apoio incondicional dos meus pais, dos meus irmãos e de toda a família, que sempre estiveram ao meu lado em cada etapa. Eles se orgulhavam muito de ver uma filha doutora, e esse carinho e incentivo foram fundamentais para eu chegar até o fim.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

MM: Acredito que tive condições muito favoráveis durante o doutorado. Contei com ótimo apoio familiar e fui bolsista durante todo o percurso, o que me permitiu ter dedicação exclusiva à pesquisa. Isso facilitou bastante o processo, pois não precisei conciliar o doutorado com outro trabalho. Mesmo assim, a maior dificuldade foi manter o foco e a constância, especialmente nos momentos de solidão e incerteza que fazem parte da vida acadêmica.

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese? 

MM: Vejo muitas possibilidades de continuidade a partir da minha tese. Pesquisas de mestrado poderiam, por exemplo, investigar a formação de professores para o uso pedagógico da biblioteca escolar na Educação Infantil, ou analisar as práticas de mediação de leitura e educação em informação em diferentes contextos. Também seria interessante estudar a percepção das crianças sobre o espaço da biblioteca ou as políticas públicas voltadas à implantação e fortalecimento de bibliotecas escolares. São caminhos que podem aprofundar e ampliar o debate iniciado na minha pesquisa.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

MM: Estou doutora há um ano e tirei esse tempo para me desligar um pouco da vida acadêmica, embora isso não seja totalmente verdade, já que, após defender a tese, ainda temos o trabalho de publicar e dar visibilidade a ela. Agora, porém, já estou pensando no pós-doutorado.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

MM: Fiz o doutorado durante a pandemia e acho que perdi muito com isso, especialmente no que diz respeito às relações pessoais. Tive apenas contatos online com professores e colegas, o que acabou não contribuindo para a criação de laços, algo que considero essencial nesse processo, ainda mais pelo fato de a vida acadêmica ser bastante solitária. Às vezes penso que talvez eu devesse ter esperado a pandemia passar.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

MM: Publiquei alguns trabalhos. Dois dos mais importantes são: “Biblioteca escolar na educação infantil: revisão sistemática de literatura” e “Potencialidades da biblioteca escolar diante da cultura digital”. Outros artigos ainda estão em processo de avaliação em revistas.

DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

MM: O estágio de docência é uma exigência do programa, e tive o privilégio de realizá-lo com uma ótima professora, designada pela minha orientadora. A experiência foi excelente.

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

MM: Contribuiu muito, pois as disciplinas dialogavam diretamente com o meu objeto de pesquisa.

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

MM: Quando iniciei, lá atrás, no mestrado, tive um professor que me indagou da seguinte maneira: “Por que investir uma pesquisa em bibliotecas, se estamos na era digital? E, ainda, por que falar de livros com quem ainda nem sabe ler?” Procurar amparo teórico e argumentos para responder a essas perguntas foi o que me fortaleceu ainda mais na escolha do meu objeto de pesquisa. Pesquisar sobre biblioteca e crianças ainda é algo profundamente necessário e fundamental, pois é nesse espaço que muitos têm o primeiro contato com o livro, com a leitura e com a construção do pensamento crítico. Por isso, eu diria: nunca ceda diante das tentativas de desmerecer sua pesquisa.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

MM: Deve ser uma relação de cumplicidade e amizade. Tive o privilégio enorme de ter a professora Gisela Eggert-Steindel e o professor Oto João Petry como orientadores de doutorado e mestrado. Sempre confiei que estava em boas mãos, e sei que isso facilitou muito o meu processo formativo.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

MM: Tenho muitas ideias, principalmente para o pós-doutorado, ainda vou decidir qual rumo irei tomar.

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

MM: O programa me proporcionou o contato com grandes professores e também a possibilidade de obter uma bolsa, o que viabilizou todo o processo. O fato de o doutorado ter sido realizado durante a pandemia dificultou um pouco a minha proximidade com o próprio programa, mas, ainda assim, valeu muito a pena.

DC: Você por você

MM: Sou resultado dos caminhos que percorri entre salas de aula, bibliotecas e memórias. Carrego comigo o encanto pelas histórias e pelas

pessoas que nelas habitam. Sempre estive cercada por livros, não como objetos de estudo, mas como companheiros de vida, e talvez por isso tenha encontrado na biblioteca o espelho da minha própria trajetória. A docência me ensinou a ouvir, a pesquisa me ensinou a olhar, e ambas me fizeram compreender que o conhecimento nasce do encontro: com o outro, com o cotidiano, com as pequenas descobertas. Não cheguei ao doutorado por ambição, mas por curiosidade, aquela vontade teimosa de entender melhor o que me move. Hoje, me vejo como alguém que busca equilibrar razão e sensibilidade, que acredita na educação como ato de cuidado e esperança. A tese é parte da minha história, mas também é uma homenagem a todas as infâncias que cruzaram o meu caminho e me ensinaram que aprender é, antes de tudo, uma forma bonita de existir.


Entrevistada: Marina Moreira
Entrevista concedida em:  08 de outubro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Marina Moreira
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »