
Biblioteca e educação: relações históricas inquietantes, por Carmem Lucia Batista

Biblioteca e educação: relações históricas inquietantes
Carmem Lucia Batista
carlubatista@gmail.com
A contemporaneidade pautada por excessos – de dados, de informação, de ritmo, de exposição, dentre outros – se desenvolve em meandros complexos que desafiam processos informativos, comunicativos e educativos. Essa complexidade também é paradoxal, uma vez que esses excessos representam – ou geram – ausências. No que se refere ao processo de informar-se, o excesso coloca em xeque a noção de fontes confiáveis e de notícias falsas, o que resulta em desinformação. Sobre o processo comunicativo, são muitos estímulos de vários fluxos e inumeráveis fragmentos, situação que conflui para uma comunicação mediatizada que invés de aproximar pessoas, as distancia. No que diz respeito à aprendizagem, big data combinado com inteligência artificial generativa apresentam respostas rápidas – algumas realmente inteligentes, outras nem tanto –, numa clara evidência de que a tecnologia digital pode contribuir abundantemente com o desenvolvimento cognitivo da minoria que domina programação de computador, porém, em termos de construção de conhecimento, quase nada para a grande maioria que utiliza esses recursos. Assim se constitui parte de nossa complexidade paradoxal.
Concomitantemente, desde as últimas décadas do século passado, questões sociopolíticas e econômicas têm se fortalecido em prol de grupos ditos “minoritários” e estruturalmente discriminados, situação que constrói novos cenários para os quais nem todos estão preparados. A complexidade aumenta, e a paradoxalidade também. É complexo porque vários grupos que décadas atrás eram política e socialmente pouco representativos e incluídos, agora reivindicam por direitos – muito justamente, é importante lembrar – e por isso também estão envolvidos no contexto complexo e paradoxal descrito no parágrafo anterior. É paradoxo porque essas “minorias” não estão matematicamente em menor número, fator que indica uma minoridade simbólica, que pode ser social ou política ou econômica ou cultural… ou todas as alternativas. Estudiosos desses fatos sociais desvelam as circunstâncias que culminaram no atual contexto: o pós-imperialismo e a consequente geração de distintas formas de decolonialidade: do ser, do saber, da natureza, do gênero, da pesquisa histórica, dentre tantas outras.
Face a esse cenário surgem perguntas. Como conhecer? Como ajudar a aprender? Como formar sujeitos conscientes de sua condição sociocultural? Como despertar a capacidade crítica? Indagações não faltam. Contudo, para contextos complexos apenas uma solução não é suficiente. Embora o papel de instituições de ensino seja primordial, para além da instrução formal, formas de educação não formal são essenciais para formação de sujeitos em nossa condição contemporânea. É nessa perspectiva que iniciativas de profissionais e pesquisadores da Biblioteconomia destacam a dimensão educativa da biblioteca – sem importar a tradicional tipologia qualificadora (pública, escolar, comunitária, especializada…). E é nessa seara que estou envolvida, principalmente como pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Biblioeducação (GPEB) – coordenado pelo professor Dr. Edmir Perrotti do Departamento de Informação e Cultura da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – e como responsável pelo curso de especialização Biblioteca Educativa: gestão e mediações, que criei e coordeno no Centro Universitário Assunção. O aspecto sobre o qual mais recentemente me debruço são as relações históricas entre Biblioteca e Educação.
Em pesquisa recente de pós-doutorado na Universidade de Coimbra me ocupei de investigar as relações entre Biblioteca e Educação, em Portugal: séculos XIX e XX. O ponto de partida dessa investigação foi a afirmação de Richter (1978), ao considerar que a relação entre Biblioteca e Educação teve origem na segunda metade do século XIX, época em que vários países ocidentais foram influenciados pela ideia de modernização do sistema educativo. No entanto, há indícios que apontam para aproximações, tangências, entre as duas áreas anteriores ao período mencionado por Richter (1978). Em decorrência dessa intuição, retrocedi o arco temporal de minha pesquisa para o início da Modernidade, séculos XVI e XVII. Após investigações, concluí que Biblioteca e Educação foram influenciadas por estudos teológicos e pedagógicos, além de terem sido impactadas pelos principais interesses científicos e filosóficos da época, como a Botânica, o universalismo e o enciclopedismo. Houve relações entre Biblioteca e Educação no período, que eram de contiguidade, complementaridade e dependência, sendo a biblioteca o ponto frágil dessa relação. Também foi percebido que as dimensões educativas no âmbito da biblioteca eram compreendidas como uma questão pedagógica, de domínio da escola (Batista, 2024).
Também pesquisei o tema no século XIX e início do século XX. Sobre o século XIX, investiguei as bibliotecas e sistema educativo em Portugal (Batista, 2025) e concluí que no país estudado, as concepções modernas de sistema de ensino e política cultural para biblioteca se desenvolveram como em outros países centrais da Europa. A relação entre Biblioteca e Educação em Portugal foi de contiguidade, situação em que a biblioteca foi pensada como complemento da escola. Porém, não havia autonomia dessas instituições, ambas foram tornadas públicas para cumprir um papel doutrinador, com o objetivo de disciplinar o comportamento das classes desfavorecidas.
Sobre o início do século XX, embora já tenha sistematizado muitas informações, ainda me falta concluir alguns aspectos para posteriores publicações. Enfim, sigo investigando.
Referências
BATISTA, C. L. Bibliotecas e sistema educativo em Portugal no século XIX: influências do nacionalismo. Em Questão, v. 31, p. e–143899, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1808-5245.31.143899 . Acesso em 11 dez. 2025.
BATISTA, C. L. Biblioteca e educação nos séculos XVI e XVII: epistemologias. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 24, 2024, Vitória. Anais […] XXIV Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação, São Paulo: Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação – ANCIB, 2024. Disponível em: https://enancib.ancib.org/index.php/enancib/xxivenancib/paper/view/2385 . Acesso em 11 dez. 2025.
RICHTER, N. Aux origines de la lecture publique: naissance des bibliothèques populares. Bulletin des Bibliothèques de France, n. 4, p. 221-249, 1978. Disponível em: https://bbf.enssib.fr/consulter/bbf-1978-04-0221-001 . Acesso em: 22 out. 2025.
Sobre a autora
Professora da graduação e especialização do Centro Universitário Assunção. Coordenadora do curso de especialização em “Arquivologia e Gestão de Arquivos” e em “Biblioteca Educativa: gestão e mediações”, ambos do Centro Universitário Assunção.
Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo, com estágio na Sorbonne. Mestra em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Bacharela em Biblioteconomia e em Letras (Português/Francês) pela Universidade de São Paulo. Pós-doutora em Estudos interdisciplinares pela Universidade de Coimbra.
Redação: Carmem Lucia Batista
Fotografia: Carmem Lucia Batista
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









