• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 3, n. 12, dez. 2025
A ação do Instituto Nacional do Livro durante o Estado Novo no Brasil: da terminologia à ideologia – Entrevista com Alessandra Oliveira

A ação do Instituto Nacional do Livro durante o Estado Novo no Brasil: da terminologia à ideologia – Entrevista com Alessandra Oliveira

A ação do Instituto Nacional do Livro durante o Estado Novo no Brasil: da terminologia à ideologia – Entrevista com Alessandra Oliveira

Alessandra Nunes de Oliveira

alessandra.nunes@unesp.br

Sobre a entrevistada

Em 2024, Alessandra Nunes de Oliveira concluiu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP), sob orientação do Prof. Dr. Walter Moreira

Atualmente, Alessandra atua como pesquisadora em estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará. Em seu tempo livre, aprecia a leitura, a escuta de jazz e o hábito de observar cenas cotidianas de sua cidade, Belém (PA).

Sua tese, intitulada “A organização social do conhecimento no Instituto Nacional do Livro durante o Estado Novo no Brasil: da terminologia à ideologia”, investigou como o Instituto Nacional do Livro (INL) operou como um aparelho de Estado na condução de políticas culturais e informacionais durante o regime estadonovista. Sua pesquisa demonstra o papel estratégico do INL no controle simbólico e na difusão de ideologias, resultando na sistematização de um glossário funcional que evidencia as camadas políticas e os significados incorporados na produção documental do período.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Alessandra Oliveira (AO): O doutorado surgiu como desdobramento natural de um caminho que se formava gradualmente. Sempre estive próxima dos livros, dos jornais e dos documentos, primeiro por curiosidade infantil e, mais tarde, pelo encanto genuíno diante do que revelam sobre pessoas e sociedades. Quando percebi que essa relação poderia se transformar em objeto de pesquisa, o doutorado deixou de ser horizonte distante e passou a ocupar o lugar de possibilidade concreta. A escolha do tema ocorreu como reencontro com algo que sempre fez parte do meu percurso. Desde a graduação, havia inquietação sobre a forma como o Estado brasileiro narrava a própria imagem e utilizava livros e jornais para construir representações de nação. A descoberta do Instituto Nacional do Livro apresentou um objeto capaz de articular política, cultura, discurso e documento, reunindo dimensões que já atravessavam minha formação. 

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e  conclusões alcançados?

AO: Houve um momento decisivo, após a qualificação da pesquisa, em que a tese finalmente se revelou para mim. Até então, tudo era fragmentado: jornais, livros do INL e documentos oficiais que não pareciam formar um conjunto coerente. A virada ocorreu quando passei a cruzar as análises discursivas com os termos recorrentes nos documentos.

A elaboração do mini-glossário marcou o ponto em que senti que a tese havia ganhado corpo. A partir desse instante, o trabalho deixou de ser apenas um projeto e tornou-se um percurso nítido, porque o próprio corpus começou a responder às perguntas que orientavam a pesquisa.

DC: Citaria algum trabalho ou   ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

AO: Alguns autores foram fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa. Teun A. van Dijk, com o livro Discurso e Contexto, ofereceu a compreensão do discurso como forma de organizar modos de ver o mundo. Maria Teresa Cabré, com o livro, La Terminología: representación y comunicación, mostrou como os termos produzem sentidos e orientam formas de pensar. Birger Hjørland, com suas reflexões sobre a organização social do conhecimento, forneceu o enquadramento teórico necessário para compreender o papel desses discursos. E a experiência na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional completou esse percurso, permitindo observar diretamente os padrões de escrita e recorrências que sustentaram a análise. Foi desse conjunto de referências e vivências que a tese encontrou seu eixo.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

AO: A originalidade do trabalho nasce justamente dessa pergunta: como o INL produziu e organizou conhecimento para sustentar um projeto político? A tese ganhou caráter de doutorado quando precisei articular campos que pouco dialogavam com OC e a OSC, Análise Crítica do Discurso e Terminologia Comunicativa. Essa combinação não existia pronta; foi se construindo no caminho e ao perceber que a linguagem do INL era performativa, não apenas descritiva. O corpus também reforçou essa singularidade, já que poucos estudos haviam examinado livros, decretos, relatórios e as 58 notícias analisadas, permitindo identificar um sistema terminológico de 45 termos e organizá-lo em glossário analítico. A principal contribuição está no deslocamento interpretativo: em vez de tratar o INL apenas como instituição de promoção de leitura, passou-se a entendê-lo como aparelho discursivo do Estado, como engrenagem de produção de sentido.  Esse conjunto levou a tese a ser indicada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista ao Prêmio CAPES de Tese 2025, sendo considerado a melhor tese do programa no ano de 2024.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

AO: A utilidade social da tese não está apenas no passado que revisita, mas sobretudo no presente que ajuda a esclarecer. A análise dos documentos do Instituto Nacional do Livro mostra que compreender o Estado Novo envolve perceber como o Estado recorre à linguagem para orientar percepções, definir valores e estabelecer critérios sobre o que deve ser lido, aprendido ou silenciado. O estudo evidencia um aspecto sensível e muitas vezes ignorado da história brasileira: o papel da linguagem institucional, especialmente da terminologia, na legitimação de projetos autoritários. Ela, oferece um instrumento crítico para identificar como discursos oficiais e políticas públicas podem sustentar determinadas configurações de poder, em um contexto marcado por disputas em torno da memória histórica, tentativas de censura e ampla circulação de desinformação. Desse modo, a pesquisa se apresenta como intervenção propositiva ao reconstituir a tessitura das políticas de leitura e publicação do período, tensionando os sentidos históricos das políticas culturais e educacionais e estimulando reflexões sobre seus desdobramentos contemporâneos, além de articular um sistema de organização do conhecimento que pode ser aprimorado e aplicado em instituições.

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

AO: A primeira é evidenciar que o Instituto Nacional do Livro atuou, no Estado Novo, como aparelho discursivo voltado à construção de uma determinada imagem de Brasil, deslocando a compreensão tradicional de órgão técnico para a de instrumento político e ideológica, recolocando a política no centro da discussão, e isso era algo que ainda não tinha sido feito com esse nível de profundidade. A segunda contribuição é a articulação entre Análise Crítica do Discurso e análise terminológica que permitiu demonstrar como termos recorrentes foram convertidas em sentidos naturalizados, revelando os mecanismos pelos quais o Estado moldou percepções e legitimou valores.  E por último, a elaboração do glossário terminológico do INL, por sua vez, funciona como mapa das ideias-força que o regime buscou consolidar, evidenciando a conversão de vocabulário em ideologia. Ao expor esses processos, a tese mostra que a OSC é atravessada por relações de poder e constitui parte de um sistema de produção de sentidos, cujos efeitos permanecem perceptíveis nas práticas contemporâneas de circulação da informação.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

AO: O procedimento metodológico envolveu a reunião de um corpus formado por 58 notícias de 11 jornais do Estado Novo, além de decretos, relatórios e documentos do Instituto Nacional do Livro. Esse material foi lido como conjunto de indícios, buscando-se compreender a função e a recorrência de determinados termos. Utilizaram-se a Análise Crítica do Discurso e a análise terminológica para identificar estratégias linguísticas associadas ao projeto político do regime com o INL. A partir desse exame, elaborou-se um glossário que sistematizou os principais termos empregados no período, evidenciando seus sentidos específicos. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

AO:   Foi um processo em que a transpiração teve muito mais peso do que a inspiração. Aproximadamente 80% do trabalho consistiu em leitura extensa, organização do material, revisões constantes e persistência diante das dificuldades. Os 20% de inspiração surgiram nos momentos em que as ideias começaram a se conectar, revelando sentidos que não estavam evidentes no início. Não é possível avançar sem pesquisar muito, sem analisar cada documento com cuidado e sem construir o corpus de forma rigorosa. Por isso, a atenção constante, a escuta interna e o hábito de anotar tudo foram essenciais. O processo exigiu disciplina, paciência e confiança de que, com o tempo, as conexões se tornariam visíveis.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

AO:  A trajetória foi atravessada por um forte senso de responsabilidade, que se impunha diante de um tema sensível e de documentos capazes de revelar aspectos estruturantes da história nacional. Lidar com esse material exigia rigor constante, o que gerava um acúmulo de tensões: noites prolongadas e a sensação recorrente de que ainda era preciso avançar um pouco mais. Esse movimento combinava dedicação intensa e o acumulo de cansaço, compondo um percurso marcado por esforço contínuo e pela pressão inerente ao compromisso assumido com a pesquisa.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

AO:  Foi um apoio muito importante no manejo do tempo, especialmente nos momentos em que era necessário dedicar-me apenas à escrita e à leitura. Não considero que tenha sido um período difícil; ao contrário, foi um momento de muito compartilhamento. Houve situações em que precisei do auxílio do meu marido, que também escrevia sua tese, sobretudo nos pedidos de leitura, quando eu precisava de um olhar externo. Contar com ele para revisar um parágrafo, verificar a fluidez do texto e oferecer outra perspectiva fez diferença e ajudou bastante no processo de escrita.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

AO: A maior dificuldade foi transformar o processo de análise em um resultado organizado. Primeiro veio a leitura discursiva; depois, a identificação dos termos. O ponto mais trabalhoso foi justamente sistematizar tudo isso no minissistema em forma de glossário. Construí-lo exigiu selecionar, depurar e agrupar os termos de modo a integrar análises dispersas em uma estrutura coerente e funcional, característica dos sistemas de organização do conhecimento.

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis  sobre sua tese?

AO: Para pesquisas futuras, destacam-se: aprofundar o estudo das coleções editadas e distribuídas pelo INL; acompanhar a circulação dos termos ideológicos em órgãos como o DIP, ministérios, departamentos de saúde, instâncias educacionais e imprensa regional; comparar esses diferentes espaços para observar a coerência da linguagem política do regime; e investigar as formas de controle social mediadas por documentos, considerando o papel de livros, relatórios e programas de leitura na construção de uma ideia de nação durante o Estado Novo.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

AO: Agora que concluí o doutorado, quero seguir escrevendo, pesquisando, ensinando e construindo caminhos que façam sentido para mim e para quem compartilha esse percurso. A experiência como professora substituta na Faculdade de Biblioteconomia da UFPA reforçou meu desejo de permanecer na docência e de aprofundar minha atuação no campo da informação. Atualmente realizo pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia na (UFPA), o que tem ampliado meu repertório diante de novas possibilidades de investigação. Meu objetivo imediato é ser aprovada como docente efetiva, contribuindo para a formação de novos profissionais e avanço nos estudos sobre discurso político, memória, Estado Novo, imprensa e Organização do Conhecimento. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

AO: Não mudaria nada, porque foi justamente esse percurso que deu forma à tese. No início, eu queria compreender tudo de imediato, movida por aquela energia quase estereotipada da cientista que pretende “dominar o mundo”, mas esse impulso manteve o trabalho avançando. Depois, entendi que pesquisa exige ritmo, atenção e reescrita, e que as ideias amadurecem quando o texto é revisitado. Escrevi, reescrevi e confiei no material, mesmo quando as respostas tardavam. O miniglossário mostrou isso e cada tentativa sustentou o resultado final. Por isso valorizo o caminho, pois foi ele que tornou a tese possível.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

AO: Avalio minha produção científica durante o doutorado como consistente e em diálogo direto com o desenvolvimento da pesquisa. As publicações foram ganhando maturidade ao longo do processo, resultando em uma trajetória articulada e relevante para a área. Entre os trabalhos produzidos nesse período, destaco:

“Do amigo das crianças ao herói do Brasil”: uma análise da representação documentária da imagem de Getúlio Vargas nas cartilhas do Estado Novo – Informação & Sociedade, 2024

A divulgação do conhecimento bibliográfico no Estado Novo no Brasil: uma perspectiva da Organização Social do Conhecimento na Revista Cultura Política – Em Questão, 2023

Caráter persuasivo e estrutura organizacional panóptica: as narrativas do Instituto Nacional do Livro e o Plano de Divulgação de Obras Bibliográficas no Brasil – Em Questão, 2021

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

AO: A recomendação é investigarem o INL e o Estado Novo, adotando uma postura sensível às dimensões históricas e políticas que estruturam esse período. É importante reconhecer como o nacionalismo varguista, a atuação do DIP e o uso estratégico da linguagem moldaram práticas institucionais e produziram sentidos que permearam a vida social. Da mesma forma, recomendaria atenção ao fato de que documentos, discursos e instituições não são isentos de interesses. Eles carregam disputas interpretativas e marcas históricas, o que exige um olhar atento às camadas de sentido e às relações de poder que atravessam as fontes.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

AO: A orientação foi uma das partes mais importantes da minha trajetória no doutorado. Tive um orientador que equilibrava rigor acadêmico e humanidade, sabendo quando indicar leituras, pedir aprofundamento, ouvir ou simplesmente acolher. Nossas conversas iam muito além da tese e incluíam reflexões sobre pesquisa, escrita e o próprio fazer científico. Muitas vezes eu tinha um insight e guardava para contar depois. Essas trocas davam sentido ao processo e abriam novos caminhos interpretativos. Hoje vejo que esse diálogo foi fundamental e mostrou que fazer ciência é também um exercício de partilha.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

AO: Sim, minha tese abriu novos caminhos de pesquisa. No momento, estou realizando meu pós-doutorado em Comunicação na UFPA, onde aprofundo estudos sobre discurso, memória impressa e propaganda estatal. Quem sabe, em um futuro próximo e já atuando como docente, eu possa desenvolver um projeto de pesquisa ou até mesmo iniciar um segundo pós-doutorado, tomando como base o projeto já elaborado, “Discurso bibliográfico: o livro como objeto epistêmico na propaganda Vargas”. Minhas perspectivas são ampliar esse percurso, compreendendo os livros como documentos performativos, capazes de organizar saberes e legitimar discursos.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

AO: Foi fundamental para meu percurso, pois me permitiu participar de publicações científicas que fortalecem o trabalho coletivo do PPGCI/Unesp. O ambiente acadêmico ofereceu condições para estabelecer relações qualificadas com docentes que já eram referências na minha trajetória, além de possibilitar o acompanhamento de disciplinas, a participação em palestras e o diálogo constante com pesquisadores consolidados. Essa convivência ampliou minha inserção acadêmica e contribuiu para a construção de uma compreensão mais sólida e aprofundada do campo de estudos.

DC: Você por você: 

AO: Sou uma pessoa intensa em tudo o que faço, e essa característica orienta minha atuação acadêmica. Busco constantemente novas referências teóricas, aprofundo-me nas pesquisas e dedico-me integralmente às publicações científicas. Entrego-me por completo ao trabalho intelectual, porque é no mundo acadêmico e científico que encontro o espaço de realização e sentido para expor minhas ideias. Como lembra Deleuze, toda criação exige “uma certa dose de loucura”, não no sentido patológico, mas como força vital que rompe o habitual e permite pensar o novo. Identifico-me com essa perspectiva: é nesse impulso criador, sempre inquieto e um pouco excessivo, que encontro a potência de ser pesquisadora e docente.


Entrevistada: Alessandra Nunes de Oliveira
Entrevista concedida em:  20 de novembro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Alessandra Nunes de Oliveira
Diagramação: Ana Júlia Pereira de Souza

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »