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v. 4, n. 04, abr. 2026
Bibliotecas multiculturais e o comportamento informacional dos povos indígenas Terena – Entrevista com Lilian Teixeira

Bibliotecas multiculturais e o comportamento informacional dos povos indígenas Terena – Entrevista com Lilian Teixeira

Bibliotecas multiculturais e o comportamento informacional dos povos indígenas Terena – Entrevista com Lilian Teixeira

Lilian Aguilar Teixeira
teixeiralili@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2025, Lilian Aguilar Teixeira defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade de Coimbra, em cotutela com o Doutorado em Ciência da Informação da UNESP, sob orientação da Profa. Dra. Ana Lúcia Terra e coorientação dos professores Dr. Oswaldo Francisco de Almeida Júnior e Dr. Antônio Hilário Aguilera Urquiza.

Atualmente, Lilian atua como bibliotecária no Instituto Federal de São Paulo. Natural de Mato Grosso do Sul, possui formação nas áreas de Administração e Biblioteconomia e, entre seus hobbies, destaca viajar e assistir séries.

Sua tese, intitulada “Bibliotecas multiculturais: estudo do comportamento informacional dos povos indígenas Terena (Brasil)”, investiga como o povo indígena Terena busca e utiliza informações na aldeia Bananal, em Mato Grosso do Sul, com o objetivo de propor um modelo de biblioteca multicultural adequado às suas necessidades. A pesquisa, de abordagem qualitativa, envolveu visitas à aldeia, observação do cotidiano e entrevistas com anciões, estudantes, professores e o cacique da comunidade, buscando compreender o comportamento informacional e propor diretrizes para a criação dessa biblioteca.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Lilian Teixeira (LT): A decisão de fazer o doutorado esteve diretamente ligada ao meu aprimoramento profissional. A inspiração para o tema surgiu quando atuei na Editora da UFMS e tive contato com o trabalho desenvolvido pelo professor Antônio Hilário junto aos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, especialmente na publicação de livros em seus próprios idiomas. A partir dessa experiência, percebi que, mesmo sendo natural de um estado com um número expressivo de povos indígenas, eu ainda não tinha refletido com a devida profundidade sobre a necessidade de a Biblioteconomia repensar as questões de acesso à informação sob a perspectiva da multiculturalidade. Trata-se de uma população historicamente estigmatizada no Brasil, que por muito tempo foi rotulada de forma equivocada como “silvícola” e “sem conhecimento”, o que reforçou exclusões e invisibilidades no campo informacional. 

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e  conclusões alcançados?

LT: O processo de qualificação na Universidade de Coimbra ocorre de forma diferente do que é comum no Brasil, pois acontece ao final do primeiro ano. Embora o projeto já tivesse sido aceito, a certeza de que eu tinha, de fato, uma tese e conseguiria chegar aos resultados veio no segundo ano, quando iniciei as entrevistas nas aldeias. A partir desse momento, ao ouvir os relatos e compreender as vivências dos participantes, senti que precisava seguir adiante para que a pesquisa pudesse, de alguma forma, contribuir concretamente com os povos indígenas. 

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

LT: Os artigos de Jelina Haines, uma pesquisadora australiana nascida nas Filipinas, com raízes ancestrais dos povos indígenas das Américas e do México, que realizou pesquisas etnográficas.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

LT: No contexto brasileiro, o ineditismo da tese está no fato de se tratar de uma pesquisa etnográfica desenvolvida dentro de uma aldeia indígena e com a comunidade, e não apenas sobre ela. Até então, esse tipo de abordagem ainda não havia sido realizado na área da Ciência da Informação no Brasil, especialmente no que diz respeito ao estudo do comportamento informacional de povos indígenas, considerando seus próprios contextos culturais, sociais e linguísticos.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

LT: A pesquisa pode contribuir para que a sociedade conheça melhor a história e as vivências dos povos indígenas no Brasil, reconhecendo que suas culturas são de extrema importância para a construção da nossa identidade coletiva. Além disso, o trabalho reforça a necessidade de valorização e preservação desses saberes, não apenas como memória do passado, mas como parte fundamental da nossa história e do nosso presente.  

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

LT: A principal contribuição da minha tese é dar visibilidade ao comportamento informacional de um povo indígena a partir da sua própria realidade e perspectiva. O estudo amplia o campo da Ciência da Informação no Brasil ao incorporar uma pesquisa etnográfica realizada com a comunidade indígena, algo ainda pouco explorado na área. Além disso, a tese propõe um modelo de biblioteca multicultural pensado a partir das necessidades reais da comunidade Terena, contribuindo para reflexões sobre políticas públicas, práticas bibliotecárias mais inclusivas e a valorização dos saberes indígenas. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

LT:  Desde o início, eu queria que a tese trouxesse resultados construídos a partir da visão da própria comunidade indígena. Por isso, entendi que aplicar apenas questionários não seria adequado. Eu precisava conhecer as pessoas, ouvir suas histórias e compreender o cotidiano da aldeia. Dessa forma, optei pela etnografia, que é um tipo de pesquisa baseada na convivência e na observação direta. O primeiro passo foi solicitar autorização ao cacique da aldeia, explicando de forma clara os objetivos do estudo. Em seguida, iniciei os trâmites formais para obter autorização da FUNAI e do comitê de ética. Após essas etapas, elaborei entrevistas com perguntas abertas, que permitiam aos participantes falar livremente. Por fim, realizei várias visitas à aldeia, sempre com agendamento prévio e com o apoio de uma professora da escola onde a pesquisa foi desenvolvida. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

LT: Para levar uma tese até o fim, há muito mais transpiração do que inspiração — eu diria algo em torno de 90% de transpiração (risos). Não é um processo fácil, principalmente quando se tenta manter algum equilíbrio emocional enquanto se concilia estudo e trabalho. Com o tempo, a sensação é de que conseguimos dar conta de menos coisas, porque precisamos priorizar e, inevitavelmente, algumas áreas da vida ficam em segundo plano. Em determinados momentos, precisei deixar de lado o cuidado com a minha saúde física para preservar a saúde mental. A busca por equilíbrio acabou sendo também a forma de encontrar inspiração. Muitas ideias surgiam em momentos inesperados, como antes de dormir, quando eu anotava para não esquecer, ou nas trocas de conversa com outras pessoas. Eram nesses momentos que eu me sentia mais confiante e percebia que estava no caminho certo. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

LT: Uma das maiores dificuldades foi a decisão de realizar o doutorado em Portugal. Essa escolha ocorreu porque não obtive liberação do meu antigo local de trabalho, a UFMS, para cursar o doutorado no Brasil, pois no meu estado de origem não havia doutorado em Ciência da Informação. Optei pela Universidade de Coimbra pelo fato de o período de aulas concentrar-se em seis meses. Para viabilizar o curso, precisei utilizar três meses de licença capacitação e cumprir o restante do período em licença sem remuneração. Dessa forma, realizar um doutorado, ao mesmo tempo em que mantinha as atividades profissionais, foi extremamente cansativo, tanto física quanto emocionalmente.  

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

LT: No segundo ano do doutorado, mudei de estado, de trabalho e fiquei geograficamente mais distante da minha família. Mesmo assim, sempre contei com o apoio da minha mãe, que foi fundamental para que eu conseguisse enfrentar as dificuldades ao longo desse período. 

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

LT: Uma das maiores dificuldades foi lidar com as questões burocráticas ao longo da pesquisa. A aprovação pelo comitê de ética, especialmente em estudos com povos indígenas, é um processo naturalmente mais demorado e exigente. Além disso, enfrentei a burocracia administrativa em Portugal para viabilizar a cotutela com a UNESP, o que demandou tempo e esforço. Soma-se a isso a logística das viagens até a aldeia em Mato Grosso do Sul, que se tornaram ainda mais desafiadoras pelo fato de eu residir, naquele período, em São Bernardo do Campo. 

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis  sobre sua tese?

LT: Sugiro estudos com a temática dos povos indígenas na Ciência da Informação em quer realizem a metodologia etnográfica para que os resultados apontem as reais necessidades informacionais.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

LT: Defendi a tese há cerca de três meses, então, neste momento, minha principal pretensão é descansar um pouco da rotina intensa de estudos. Paralelamente, estou vivenciando um novo desafio profissional, que é a transição de uma universidade para um instituto federal. Esse movimento tem exigido um processo de adaptação, sobretudo por se tratar de um novo público, os adolescentes. Assim, este é um momento de me dedicar a essa fase, compreender melhor esse contexto e consolidar minha atuação nesse novo espaço.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

LT: Se eu tivesse conseguido uma redistribuição da universidade e me mudado para São Paulo antes, provavelmente teria tentado realizar o doutorado integralmente na UNESP. A experiência na Universidade de Coimbra, embora se trate de uma instituição mundialmente reconhecida, foi em alguns aspectos decepcionante. As universidades brasileiras, especialmente no que diz respeito à pesquisa, à orientação e à produção científica, são, em muitos casos, superiores. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

LT: Avalio que mantive um bom nível de produção científica ao longo do doutorado. Participei ativamente do grupo de pesquisa coordenado pelo professor Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, Informação, mediação, cultura, leitura e sociedade, o que contribuiu significativamente para o amadurecimento teórico da pesquisa e para o diálogo acadêmico contínuo.

Em termos de publicações, destaco especialmente o artigo publicado na IFLA Journal, por se tratar de um periódico internacional de grande relevância na área de Biblioteconomia e Ciência da Informação, e por apresentar diretamente resultados da tese, intitulado: “Multicultural libraries: A study on the information behaviour of the Terena people, Brazil”.

Também publiquei trabalhos em eventos científicos nacionais relevantes.

No ENANCIB, publiquei o trabalho “Mapeamento Das Unidades Informacionais Do Brasil Com Função Mediadora Aos Povos Indígenas”.

No Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação (CBBD), participei com um trabalho voltado à experiência prática de bibliotecas indígenas: “Relato do processo de criação da BiblioÓca, a primeira biblioteca indígena do Mato Grosso”.

Também tive publicação na Revista EDICIC, reforçando o diálogo internacional da pesquisa: “El accesso a la información de los estudiantes de las escuelas indígenas del territorio indígena Taunay Ipegue de Mato Grosso do Sul/Brasil | Revista EDICIC”.

Além disso, publiquei um capítulo de livro diretamente relacionado à temática da tese e alinhado à Agenda 2030 da ONU, intitulado: “Exploring the Information Sources of the Indigenous People of Terena (Brazil) considering the United Nations (UN) 2030 Agenda for the Safeguarding of Cultural Heritage | Oficina Universitária”.

Por fim, recebi um convite para publicação na revista da Biblioteca Nacional da Coreia, o que considero um reconhecimento internacional importante da trajetória acadêmica desenvolvida durante o doutorado: “Pesquisa sobre Literatura Multicultural e Indígena: Análise da Literatura Relacionada”. 

DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

LT: Durante o doutorado, não realizei monitoria ou estágio docência. Essa experiência eu tive anteriormente, no mestrado, quando já atuava como professora no curso de Biblioteconomia do IESF. No período do doutorado, atuei como tutora em um curso de graduação em Biblioteconomia e também em uma pós-graduação em Educação Midiática em Direitos Humanos. 

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

LT: Não de forma direta, pois essas atividades não estavam relacionadas ao tema específico da minha pesquisa.  

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

LT: Recomendo que, ao trabalhar com povos indígenas, os pesquisadores busquem conhecer profundamente suas culturas e, sobretudo, respeitá-las durante todo o processo de pesquisa. É fundamental que o trabalho seja desenvolvido de forma ética e que haja retorno dos resultados para as comunidades, pois infelizmente muitos pesquisadores de diferentes áreas realizam pesquisas nesses contextos e não retornam para compartilhar os resultados com os próprios participantes. 

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

LT: Tive uma excelente experiência com meus orientadores no doutorado. Acredito que uma relação baseada no apoio, na paciência, no diálogo e na troca constante é fundamental para que a pesquisa flua e para que o processo de formação acadêmica seja saudável e produtivo. 

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

LT: A tese teve como objetivo principal apresentar diretrizes para a criação de bibliotecas multiculturais voltadas aos povos indígenas no Brasil. Como a defesa ocorreu recentemente, ainda não iniciei contatos formais com o Ministério dos Povos Indígenas ou com órgãos estaduais que atuam diretamente nessa área. No entanto, minha perspectiva é justamente avançar nesse diálogo institucional, apresentando a proposta desenvolvida na pesquisa, com a intenção de que essas diretrizes possam ser discutidas e, futuramente, implementadas. A partir disso, pretendo dar continuidade aos estudos, acompanhando possíveis desdobramentos práticos da proposta e aprofundando pesquisas relacionadas às políticas informacionais e às bibliotecas voltadas às populações indígenas.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

LT: O Programa de Pós-Graduação da UNESP contribuiu de forma significativa ao longo do doutorado, especialmente por meio do apoio financeiro para participação em eventos acadêmicos importantes, como o ENANCIB, em Aracaju, o BOBCATSS, na Noruega, e o Seminário Hispano, em Vitória. Essas oportunidades foram fundamentais para a divulgação da pesquisa, o diálogo com outros pesquisadores e o amadurecimento acadêmico do trabalho. Ao longo desse período, procurei retribuir ao Programa representando a instituição nesses eventos, compartilhando os resultados da pesquisa e contribuindo para a visibilidade e o fortalecimento do Programa no cenário científico.

DC: Você por você: 

LT: Sou uma pessoa que lutou para alcançar seus ideais, mesmo enfrentando obstáculos ao longo do caminho. Tenho convicção de que, embora já tenha 18 anos de serviço público e hoje desfrute de uma vida mais estável, isso não me define de forma limitada nem me enquadra nos estereótipos que muitas vezes são atribuídos ao servidor público. Essa postura, inclusive, trouxe alguns desgastes ao longo da trajetória, mas nunca abri mão da minha convicção de estar em constante movimento, buscando realizar algo que faça sentido e que contribua para quem mais precisa. Acredito que esse é o tipo de legado que devemos deixar em um mundo cada vez mais marcado pelo individualismo. 


Entrevistada: Lilian Aguilar Teixeira
Entrevista concedida em:  22 de janeiro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Lilian Aguilar Teixeira
Fotografia: Lilian Aguilar Teixeira
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade / Larissa Alves

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