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v. 4, n. 04, abr. 2026
Fontes de informação governamentais sobre povos indígenas – Entrevista com Priscila Guarate

Fontes de informação governamentais sobre povos indígenas – Entrevista com Priscila Guarate

Fontes de informação governamentais sobre povos indígenas – Entrevista com Priscila Guarate

Priscila Maria Ferreira Guarate
priscilaguarate@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2025, Priscila Maria Ferreira Guarate defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da Profa. Dra. Patrícia da Silva Neubert e coorientação da Profa. Dra. Djuli Machado de Lucca.

Atualmente, Priscila realiza o doutorado em Ciência da Informação junto à Universidade Federal de Santa Catarina e é bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC). Natural de Porto Velho (RO), tem formação na área de Biblioteconomia e, entre seus hobbies, destaca a leitura e a pintura.

Sua dissertação, intitulada “Fontes de informação governamentais sobre povos indígenas”, analisa órgãos do governo federal brasileiro com o objetivo de identificar, entre as fontes de informação governamentais, aquelas voltadas à saúde dos povos indígenas. A pesquisa analisou portais de ministérios, com destaque para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), discutindo os limites dessas fontes enquanto instrumentos de acesso à informação para os povos indígenas.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Priscila Guarate (PG): Gostaria de dizer que desde o começo a ideia era ser professora universitária, mas não foi bem assim. Quando terminei minha graduação estava empolgada para atuar na área, sempre gostei da ideia de ser bibliotecária e poder ajudar a incentivar a leitura, sendo o meu primeiro emprego como bibliotecária escolar. Preciso dizer o quão apaixonada eu fiquei em conhecer e conviver com crianças e adolescentes descobrindo o incrível mundo da biblioteca e suas infinitas possibilidades, mas, apesar disso, a realidade da baixa remuneração me fez estender os olhares para complementar a formação, para onde eu poderia ir para ter uma remuneração melhor. Encontrei no mestrado a resposta e assim iniciei minha jornada. Em relação ao tema, essa escolha me acompanha desde a graduação. Meu TCC foi voltado à competência em informação do povo indígena Karitiana de Rondônia, sempre quis colocar meus esforços de pesquisa em temas pouco explorados por sentir que esses temas precisam de mais voz e assim eu fiz no mestrado, continuando a trabalhar com a população indígena com foco nas fontes de informação em saúde sobre essas pessoas.

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?

PG: Acredito que tanto os pesquisadores da área da Ciência da informação quanto a população indígena. A dissertação acabou por ser um diagnóstico de que, ainda que existam órgãos próprios do governo federal para tratar especificamente de questões indígenas, principalmente relacionadas a saúde, ainda existem lacunas que precisam ser sanadas e acredito que dessa dissertação podem surgir outros trabalhos que vão auxiliar a “tapar” essa lacuna, assim como também pode servir de argumentos para os povos indígenas reivindicarem mudanças e melhorias.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

PG: Para a ciência eu vejo que é como desbravar um pequeno terreno dentro de uma floresta imensa de possibilidades, a partir do trecho que trilhei outros pesquisadores podem descobrir novas coisas e, assim, vão alargando esse caminho de forma que todos possam se beneficiar desses conhecimentos. Para a tecnologia reflito sobre algo específico que descobri assim que analisei os resultados de minha pesquisa: precisamos ter mecanismos de tradução automática nos idiomas indígenas! Se é possível traduzir  um site inteiro em português para russo, inglês, é necessário que esse mesmo site tenha disponível línguas indígenas. Acredito que seja uma provocação para que sejam criadas novas tecnologias neste sentido. E para a sociedade, como uma pessoa não indígena, tenho para mim que é a minha obrigação de olhar ao redor e ver o que eu posso fazer para ajudar, e como pesquisadora não é diferente. Enquanto as comunidades indígenas continuarem a enfrentar violências, desigualdades no acesso aos serviços básicos do governo todos nós falhamos como sociedade. Essa pesquisa é uma pequena contribuição na esperança de buscar fazer a minha parte para que a gente possa modificar esse cenário.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

PG: Meu trabalho está inserido na linha 02 Informação, Comunicação Científica e Competência, porque eu trabalho com as fontes de informação governamentais que estão inseridas na subárea da Comunicação Científica, abordagem que analisa a produção científica a partir da circulação, comunicação e a distribuição dessas fontes de informação científicas.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

PG: Sem sombra de dúvidas o trabalho que é praticamente a base da minha dissertação é o artigo, “Conceituando fonte de informação indígena”, de autoria de Eliane Bezerra Paiva.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

PG: primeiro eu precisei entender de onde eu ia partir para procurar as fontes de informação governamentais sobre povos indígenas. Defini que partindo de uma espera federal eu poderia começar com os ministérios do governo federal e procurar aqueles que trabalham em temas voltados aos povos indígenas. Definido esse passo, a partir dos sites dos ministérios, procurei nos organogramas das instituições, órgãos e departamentos voltados aos povos indígenas e os sites desses órgãos onde eu poderia começar a analisar os documentos e informações que disponibilizam.  Depois disso eu organizei esses órgãos por temáticas que cobriam aspectos como saúde, educação etc., para posteriormente analisar as fontes que abordam especificamente temas de saúde, para olhar que tipo de informações essas fontes traziam sobre saúde para a população indígena.  Todo esse percurso foi bem experimental, tive que testar muitas coisas porque como é uma pesquisa que não tinha sido feita antes, precisei adaptar meus passos para conseguir recuperar o máximo de informações e dados possíveis. 

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

PG: Eu diria que o principal desafio foi lidar com a instabilidade dos sites governamentais. Em mais de um ano de observação e coletas nos sites dos ministérios, especialmente o site da SESAI, as informações simplesmente desapareciam de um dia para o outro.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

PG: Acredito que 40% inspiração e 60% transpiração. Entre as dificuldades de trilhar esse caminho, a mais desafiadora é lidar consigo mesmo. A gente sempre se acha incapaz de desenvolver ou de dar conta das demandas da pesquisa. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

PG: Quanto ao desabafo vou ter que resumir bastante para não assustar os leitores que planejam trilhar esse caminho (brincadeira, gente), acredito que são muitas camadas que compõem o caminho da pesquisa que escolhi. Primeiro tive que vencer o processo de seleção, no qual você duvida a todo momento que é capaz de passar, e comigo foi assim a cada fase que eu passava (foram 3 fases: envio do projeto, entrevista e análise de currículo), depois disso você luta para se encaixar no perfil acadêmico que é exigido: máxima dedicação e produção, tudo isso ainda duvidando de si mesmo a cada passo do caminho. E ainda tem aquela camada que compõe o financeiro, que é ter de arcar com o próprio sustento, o que felizmente ficou mais fácil com a bolsa de mestrado. Por fim, a camada de gênero, enquanto mulher que também tem que arcar com as demandas e cuidados da vida doméstica e da vida acadêmica.  Todas essas dificuldades compuseram o caminho que trilhei para concluir a pesquisa.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

PG: Sem eles teria sido impossível. Quando não acreditei em mim eles acreditaram e me deram forças para conseguir concluir a minha pesquisa.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

PG: Eu digo que perguntem aos indígenas o que eles pensam a respeito das informações em saúde que são disponibilizadas pelo governo. Mas não só em relação a isso, que perguntem às pessoas as quais suas pesquisas se focam (se for possível, principalmente tendo em vista as questões éticas relacionadas e ao tempo de pesquisa, que no mestrado é bem curto) o que elas pensam sobre. Para que nós não corramos o risco de produzir mais pesquisas etnocêntricas. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

PG: Acredito que eu tive um bom rendimento dentro do que era possível para mim. Participei de projetos de pesquisa e também de grupos de pesquisa, produzi trabalhos que ainda estão em processo de avaliação (me referindo aqui a produções originadas da minha dissertação), e também trabalhos que foram submetidos e apresentados em eventos científicos da área: no WIDAT 24, “Dados governamentais sobre povos indígenas: o governo como fonte de informação sobre a população brasileira” e no 25 Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação: “O governo federal brasileiro como fonte de informação sobre a população indígena”.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

PG: Comecei a cursar o doutorado na UFSC e pretendo continuar a desenvolver minha pesquisa.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

PG: Eu teria pegado mais leve comigo mesma. Trabalhar com pesquisa é usar a mente em tempo integral, é muito importante que a gente saiba descansar e utilizar nosso tempo para fazer atividades além da pesquisa, para distrair e descansar a cabeça. Isso melhora a criatividade, reduz a carga de estresse e a procrastinação.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

PG: Posso dizer que a minha experiência com o PGCIN me ensinou muito profissionalmente e também me proporcionou conhecer pessoas incríveis, de profissionais que admiro e espero um dia ser como eles, a amigos queridos que fizeram toda a diferença nessa caminhada. Eu espero ter contribuído com a minha participação no meu grupo de pesquisa e também como representante discente de 2024. 

DC: Você por você:

PG: Posso dizer que duas palavras me definem bem: determinação e teimosia.  Nunca aceitei desistir sem lutar, e disso tiro a lição: a força de vontade leva a gente longe e no meu caso, de Porto Velho, Rondônia, até Florianópolis, em Santa Catarina! Com todas as dificuldades de adaptação a uma cidade e cultura,  minha teimosia de não abrir mão do que eu queria pesquisar, mesmo que não fosse um tema “tendência” contribuiu para a construção de minha identidade e valores enquanto pesquisadora. Desde o início dessa jornada (mestrado) eu tinha certeza que a coisa mais importante era fazer um trabalho do qual eu me orgulhasse e posso dizer que eu me orgulho desse trabalho. 


Entrevistado: Priscila Maria Ferreira Guarate
Entrevista concedida em:  2 de fevereiro de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Priscila Maria Ferreira Guarate
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima / Herta Maria de Açucena do N. Soeiro / Larissa Alves

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