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v. 4, n. 04, abr. 2026
A literatura indígena e a universidade: ponte entre mundos, por Carina Pataxó

A literatura indígena e a universidade: ponte entre mundos, por Carina Pataxó

A literatura indígena e a universidade: ponte entre mundos

Carina Pataxó
carinapataxo@gmail.com

A década de 1970 marca o surgimento das organizações e movimentos em defesa dos interesses e direitos dos povos indígenas. Nesse contexto, emerge o Movimento Indígena Brasileiro (1970-1990), caracterizado pela articulação de lideranças indígenas em busca do reconhecimento de direitos para seus povos e comunidades. Os sujeitos indígenas passam a participar da movimentação política, por meio de assembleias. Como consequência dessas articulações e da maior visibilidade da política etnocida da conjuntura histórica, os direitos indígenas são reconhecidos e incorporados à Constituição Federal de 1988.

A minha história, como a de muitos parentes, não é romântica: traduz-se em perda da identidade, apagamentos, deslocamentos e associações negativas. Assim como na literatura indianista, nas cartas de Pero Vaz de Caminha e em outros textos, a “figura” indígena aparece ora desprovida de alma, objetificada, romantizada, folclorizada, tutelada; isto é, sem pertencimento, sem memória, inscrita e escrita pelo outro a partir de sua perspectiva. Minha imagem é frequentemente percebida no Brasil como a de um corpo “brasileiro”, e não como indígena. “Índia sem língua? Índia estudante de doutorado?”  Isso significa, simbolicamente, não ter valor, história.  As “imagens” de povos indígenas em contexto de isolamento, por sua vez, dificilmente são questionadas; ao contrário, são frequentemente associadas à ideia de “índios de verdade”. 

De 1910 a 1988, o Brasil vivenciou a política da integração, segundo a qual o indígena deveria dar um passo em direção ao modelo de progresso então considerado “brasileiro”. Essa gradação envolvia, por exemplo, o uso de determinadas vestimentas, da língua portuguesa, entre outros aspectos, implicando um processo de perda da identidade indígena.  Falar em projeto político de apagamentos das identidades indígenas é também incluir a responsabilidade que as universidades têm de conhecer e difundir as teorias indígenas e suas cosmovisões. Para Laís Munihin, que é do povo Maxakali, as relações-étnicas são debates que também dependem das universidades. Porque, segundo ela, a antropologia ao tratar de relações étnicas, por vezes se ocupou em difundir por outras linguagens, como: discriminação, preconceito (uma outra linguagem que, na balança, parece menor, parece uma violência menor). Pessoalmente, somente em 2019 conheci um artigo, produção coletiva dos professores Lúcia Sá, Felipe Tuxá e de alguns outros pesquisadores sobre racismo contra povos indígenas. 

É também nesse sentido que se dá minha trajetória na universidade, ao discutir a literatura indígena. Primeiro, no trabalho de conclusão do curso de Pedagogia, intitulado: “A presença da literatura indígena em programas governamentais de livro e leitura”, foi possível observar o número reduzido de obras de literatura indígena selecionadas para compor os acervos das escolas públicas por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola. Em seguida, na dissertação de mestrado, intitulada: “Literatura indígena: retomada, protagonismo e resistência”, foi evidenciado, a partir das vozes de escritores e escritoras indígenas, a literatura indígena enquanto demarcadora de território simbólico e multimodal. Atualmente, no doutorado, tenho investigado os diálogos entre a formação continuada de professores e as relações étnico-raciais na escola. Durante meu estágio de doutorado na University of Cambridge, pude aprofundar o debate sobre as relações étnico-raciais na formação inicial de professores.

Tratar das relações étnico-raciais é tratar de políticas de identidade, também de memória e pertencimento indígena. Incorporar a literatura indígena na Universidade implica tensionar saberes, práticas pedagógicas e ampliar padrões de referência, tornando a universidade um espaço efetivo de reconhecimento cultural. É também a oportunidade de reconhecer e reaproximar-se de poéticas que restituam a potência da vida. 

Referências

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, Centro Gráfico, 1988.

MUNDURUKU, Daniel. O caráter educativo do movimento indígena brasileiro (1970-1990). São Paulo: Paulinas, 2012. (Coleção Educação em foco. Série Educação, História e Cultura).

Sobre a autora

Carina Pataxó

Mulher da etnia pataxó. Pesquisadora da Literatura Indígena. Criadora de conteúdo no perfil Literatura Indígena Brasil @literaturaindigenabrasil .

Doutoranda em Educação  junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estágio de doutorado feito na Faculty of Education na University of Cambridge. Mestre em Educação e Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Integrante do Grupo de estudos e pesquisa infância, Linguagem e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Redação: Carina Pataxó (Carina Oliveira Silva)
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima / Larissa Alves

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