
Povos indígenas enquanto sujeitos históricos: produção acadêmica e desafios contemporâneos, por Carlos Trubiliano

Povos indígenas enquanto sujeitos históricos: produção acadêmica e desafios contemporâneos
Carlos Alexandre Barros Trubiliano
carlos.trubiliano@unir.br
Nas últimas décadas, a historiografia brasileira e latino-americana tem registrado revisões críticas, deslocando os povos indígenas da condição de objetos passivos da narrativa colonial para o reconhecimento de sua centralidade enquanto sujeitos históricos. Esse movimento, impulsionado pelo diálogo entre a história social e a antropologia, tem ampliado significativamente a produção acadêmica dedicada às experiências indígenas, evidenciando suas estratégias de resistência, negociação, adaptação e protagonismo ao longo da história. Entretanto, essa renovação historiográfica se desenvolve em meio a disputas contemporâneas em torno da memória, da territorialidade e da efetivação de direitos, revelando tensões persistentes entre interesses econômicos, projetos estatais e a autonomia dos povos originários. É nesse campo de debates que se insere a minha produção acadêmica.
Na última década, tenho desenvolvido uma produção intelectual inserida no campo da História Indígena e das Relações Interétnicas, estabelecendo diálogo com a antropologia, a história social e os estudos críticos sobre o Estado, o colonialismo e a economia. Essa produção tem sido orientada pela preocupação em compreender os povos indígenas enquanto sujeitos históricos contemporâneos, cujas experiências pretéritas se articulam diretamente aos desafios enfrentados no presente, com especial atenção ao contexto amazônico e ao estado de Rondônia.
Desde os primeiros trabalhos, tenho me orientado pela problematização de abordagens essencializantes e tuteladoras, buscando compreender a história indígena enquanto categoria analítica central para o entendimento das dinâmicas de poder, dos processos de colonialidade e das formas de inserção dos povos originários nas transformações socioeconômicas impostas pela expansão do capital.
Um dos eixos centrais da minha produção refere-se à análise histórica das políticas indigenistas e dos processos de contato ao longo do século XX, compreendidos como dispositivos de mediação colonial por meio dos quais o Estado brasileiro buscou regular, integrar e controlar os povos indígenas no interior da construção da Nação. Entre projetos de pesquisa, artigos e capítulos de livros, tenho examinado a atuação estatal na Amazônia por meio de frentes de atração, órgãos indigenistas e políticas desenvolvimentistas, evidenciando as tensões entre discursos de proteção, civilização e integração e as práticas concretas de tutela, disciplinamento social e expropriação territorial.
Acredito que minhas análises contribuem para o debate contemporâneo acerca dos limites estruturais das políticas indigenistas, ao evidenciar a persistência de dispositivos tutelares e de assimetrias de poder historicamente produzidas no interior da formação do Estado nacional. Ao problematizar tais continuidades, meus estudos buscam oferecer subsídios analíticos para compreender por que questões como autonomia indígena, consulta prévia, demarcação territorial e participação política permanecem centrais nas agendas de mobilização e resistência dos povos indígenas.
Outro eixo estruturante da minha produção diz respeito aos processos de monetarização da vida e à inserção dos povos indígenas na economia de mercado, compreendidos como dimensões centrais da expansão capitalista sobre os territórios e modos de vida tradicionais. Estudos como “Do social ao econômico: a inserção do dinheiro na vida dos Paiter Suruí (1969-1990)” visa contribuir com este debate, ao analisar os impactos da introdução do dinheiro, do trabalho assalariado e de atividades econômicas capitalistas — como a agricultura comercial e a pecuária — alterando as formas de organização social, política e econômica do povo Paiter Suruí.
Esse conjunto de estudos insere-se no campo da crítica à colonialidade do desenvolvimento e à economia política das fronteiras internas, analisando a expansão do capital na Amazônia como processo de acumulação por espoliação, territorialização do poder e reconfiguração forçada dos modos de vida indígenas. No texto “Desenvolvimento na pata do gado: neoextrativismo, fronteira agropecuária e impactos em Terras Indígenas em Rondônia (1970–2020)”, analisei a expansão da pecuária como eixo central da territorialização do capital em Rondônia, problematizando o discurso hegemônico do desenvolvimento a partir do conceito de neoextrativismo. Ao evidenciar o papel do Estado e do agronegócio na conversão de florestas em pastagens, busquei demonstrar como a fronteira agropecuária operou como mecanismo de acumulação por espoliação, intensificando conflitos fundiários, degradação ambiental e pressões sobre Terras Indígenas. Nesse processo, os territórios indígenas são reconfigurados como fronteiras de valor econômico, revelando as contradições entre projetos desenvolvimentistas e a reprodução sociocultural dos povos originários, bem como os impactos estruturais dessas dinâmicas sobre a autonomia territorial e da preservação socioambiental.
Em síntese, minhas reflexões reafirmam que a trajetória histórica dos povos indígenas no país está intrinsecamente vinculada às estruturas de violência, expropriação territorial e colonialidade do poder que fundamentaram — e continuam a fundamentar — os projetos de desenvolvimento capitalista impostos à Amazônia. Ao problematizar o papel do Estado, do capital e do agronegócio na produção sistemática de desigualdades, conflitos e destruição dos modos de vida dos povos originários, busco me alinhar às resistências indígenas, reconhecendo suas lutas como centrais na defesa da vida, dos territórios e da justiça socioambiental. Trata-se, portanto, de uma escrita que ultrapassa o registro acadêmico, assumindo compromisso político com a denúncia de históricas injustiças sociais e com a construção de horizontes emancipatórios que afirmem a autonomia dos povos indígenas, o respeito à pluralidade e a urgência de rompermos com modelos predatórios de exploração que continuam a estruturar as relações econômicas e territoriais no Brasil.
Referências
TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros; Surui, Bruno. Do social ao econômico: a inserção do dinheiro na vida dos Paiter Suruí (1969-1990). Revista de Economia Política e História Econômica, Montes Claros, v. 56, p. 173–184. Disponível em: https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/economiaepoliticaspublicas/article/view/4936 . Acesso em: 05 abr. 2026.
TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. Desenvolvimento na pata do gado: neoextrativismo, fronteira agropecuária e impactos em Terras Indígenas em Rondônia (1970–2020). Revista Aurora, Marília, v. 18. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/aurora/article/view/17844 . Acesso em: 05 abr. 2026.
Sobre o autor
Carlos Alexandre Barros Trubiliano
Professor do Departamento de Educação Intercultural da Universidade Federal de Rondônia. Atuou junto à Fundação Nacional dos Povos Indígenas, na Coordenação Regional de Dourados.
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Mestre em História pela Universidade Federal da Grande Dourados. Graduado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Redação: Carlos Alexandre Barros Trubiliano
Fotografia: Carlos Alexandre Barros Trubiliano
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade









