
Gestão do conhecimento indígena e a proposição de um modelo conceitual para o contexto amazônico – Entrevista com Diego Leonardo

Gestão do conhecimento indígena e a proposição de um modelo conceitual para o contexto amazônico – Entrevista com Diego Leonardo
Diego Leonardo de Souza Fonseca
diego.fonseca@ifam.edu.br
Sobre o entrevistado
Em 2025, Diego Leonardo de Souza Fonseca defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina, sob orientação da Profa. Dra. Thais Batista Zaninelli.
Atualmente, Diego atua como Bibliotecário-Documentalista na Coordenação de Documentação e Informação/Biblioteca do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – Campus Manaus Zona Leste. É natural do Pará, e formado em Biblioteconomia em 2010 pela Universidade Federal do Pará. Entre seus hobbies, destaca a prática de atividades físicas e passeios em família.
Sua tese, intitulada “A gestão do conhecimento indígena: proposta de um modelo conceitual para o contexto amazônico”, propõe um modelo conceitual de gestão do conhecimento originário (indígena) a partir de estudos, percepções e relatos construídos de forma coletiva entre pesquisadores e a comunidade indígena participante. A pesquisa parte da compreensão de que o saber indígena é complexo, dinâmico e coletivo, envolvendo elementos como natureza, espiritualidade, modo de vida, experiências e ancestralidade, que ultrapassam as concepções tradicionais do conhecimento ocidental.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?
Diego Leonardo (DL): O doutorado sempre foi um objetivo pessoal e profissional, desde a graduação. A escolha do programa e do próprio tema de pesquisa veio de experiências com as comunidades indígenas amazônicas em projetos de extensão que realizei na instituição que hoje atuo (IFAM). A partir disso, pensei em aprofundar o tema do conhecimento tradicional vinculado ao meu subcampo na Ciência da Informação, que é a Gestão da Informação e do Conhecimento.
DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?
DL: Acho que após a qualificação da tese (cerca de 1 ano antes da defesa) eu considerei ter uma pesquisa robusta e com algumas hipóteses previamente respondidas. Esse processo prosseguiu até a fase de construção do modelo-teste e modelo-final, que foi o resultado do estudo.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
DL: Não tenho um trabalho em específico, mas sim um conjunto expressivo de pesquisas que corroboram para a construção da minha tese. Menciono as pesquisas africanas de gestão de conhecimento indígena, que estão na vanguarda desse tema. Elas foram primordiais para o desenvolvimento do corpus teórico e metodológico da minha tese.
DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?
DL: O ineditismo está no próprio modelo conceitual proposto. Na Ciência da Informação, até então, não existia nenhum modelo conceitual de gestão de conhecimento indígena no Brasil. Já temos esses modelos em outros países. Um outro aspecto importante foi desenvolver esse estudo no âmbito da Amazônia, onde temos a maior concentração de etnias no país.
DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?
DL: O modelo conceitual é útil no momento em que ele reflete a territorialidade e pode servir como uma estrutura inicial para outras pesquisas compreenderem os fluxos e dinâmicas de conhecimento originário em suas comunidades.
DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?
DL: Acredito que ela pode contribuir como um referencial para pesquisadores indígenas e não-indígenas replicarem como ponto de partida para analisar outras comunidades específicas.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
DL: O meu método de pesquisa foi o Grounded theory, ou Teoria Fundamentada nos Dados. A escolha foi pontual, pois precisávamos de um método que permitisse uma participação coletiva de todos os participantes do estudo para que o modelo fosse criado de maneira coletiva e identitária.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?
DL: 5% de inspiração e 95% de transpiração. Escrever uma tese requer fôlego, coragem e resiliência. Um dos grandes desafios foi a barreira linguística, em alguns casos, e a condição do meu “eu pesquisador” de não-indígena, que por vezes esbarrou na resistência de participantes no processo de coleta de dados e socialização.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
DL: Sim. Todo pesquisador constrói um caminho, mas ao longo do percurso percebemos que não há linearidade em uma tese. Enfrentamos barreiras na coleta, na análise, nos procedimentos burocráticos e institucionais, para assim chegar nos resultados.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?
DL: O meu doutorado foi também uma licença-paternidade. Minha esposa engravidou e tivemos a nossa filha durante o percurso da tese. Ela precisou fazer viagens conosco desde pequena. Sempre tive o apoio da minha esposa, que também é pesquisadora e acadêmica.
DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?
DL: Propor algo novo. Acho que atender ao ineditismo que nos é imposto requer o desbravamento científico e metodológico. E, particularmente, pesquisar sobre conhecimento indígena é complexo e exige espaço para aprender algo novo a cada passo da pesquisa.
DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?
DL: Acho que no campo da Ciência da Informação é um tema que tende a ser explorado, principalmente quando relacionado com Epistemologias do Sul e Conhecimentos Tradicionais.
DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?
DL: Pretendo seguir atuando como Bibliotecário, que é o que adoro fazer, além também de permanecer na pesquisa, publicando artigos e adentrando a outros temas. Porém, atuar na docência é algo que considero, com certeza.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
DL: Teria evitado alguns erros, principalmente na construção metodológica. Mas o erro faz parte do processo, porque é a partir dele que você consegue observar alternativas que talvez ficariam escondidas em algumas tomadas de decisão.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
DL: Tive uma considerável trajetória de participações em eventos e publicações de pesquisas ao longo do doutorado. Tive 18 artigos publicados, 02 capítulos de livro, 07 trabalhos publicados em anais e diversas participações em eventos nacionais e internacionais (autor e ouvinte). Dentre estes, posso citar dois trabalhos, sendo um deles premiado em 2ª lugar no ENANCIB 2024 e outro publicado no periódico Qualis A1 que é resultado da minha qualificação: “Etnoconhecimento e gestão do conhecimento indígena: um briefing dos modelos africanos” e “Modelos conceituais de Gestão do Conhecimento Indígena: uma discussão na Ciência da Informação”.
DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?
DL: Sim. Tive a oportunidade de fazer o estágio docência no Departamento de Ciência da Informação (CIN) da UEL ministrando aulas nos Cursos de Biblioteconomia e Arquivologia, como uma etapa obrigatória do doutorado. Foi um aprendizado muito enriquecedor e permitiu conhecer mais de perto a atuação docente na graduação.
DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?
DL: Sim. Inclusive, foi nesse período que foram realizadas algumas mudanças estruturais no meu corpus de pesquisa. Essa vivência in loco me permitiu repensar algumas decisões metodológicas, principalmente pela influência de alguns professores, além da minha orientadora, que tive o privilégio de trocar informações diretamente.
DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
DL: A minha maior recomendação é viver a sua própria experiência. Tome outros trabalhos como base, mas viva a sua própria trajetória. Isso será fundamental lá na frente, na entrega do seu resultado.
DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?
DL: Acima de tudo, uma relação amigável. O orientador faz parte da jornada do orientando. Quando a relação envolve cumplicidade, o caminho é mais agradável. Eu tive essa sorte!
DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?
DL: Recentemente eu tenho desenvolvido um projeto que será aplicado na instituição que atuo. Penso que ele poderá ser, a longo prazo, uma pesquisa para um possível pós-doutorado. Ainda é algo embrionário.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?
DL: O PPGCI/UEL sempre me deu suporte, inclusive na participação de eventos, incluindo um evento internacional no Uruguai em 2023. Busquei contribuir com publicações e participações em eventos e nos grupos de pesquisa.
DC: Você por você:
DL: Um bibliotecário que se enxerga como um pesquisador em construção, e que pode contribuir para uma Ciência da Informação mais atuante e plural.
Entrevistada: Diego Leonardo de Souza Fonseca
Entrevista concedida em: 09 de fevereiro de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Naiara Raíssa da Silva Passos
Fotografia: Diego Leonardo de Souza Fonseca
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima / Larissa Alves









