• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 4, n. 05, maio 2026
A mediação da informação no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas – Entrevista com Thiago Giordano Siqueira

A mediação da informação no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas – Entrevista com Thiago Giordano Siqueira

A mediação da informação no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas – Entrevista com Thiago Giordano Siqueira

Thiago Giordano Siqueira
thiago.giordano@gmail.com

Sobre o entrevistado

Em 2025, Thiago Giordano Siqueira defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista, sob orientação do Prof. Dr. Oswaldo Francisco de Almeida Júnior.

Thiago Giordano é manauara, realizou o bacharelado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas e atualmente atua como docente do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri. Entre seus hobbies está explorar cafeterias e experimentar cafés de diferentes origens e torras, prática que associa à descoberta de territórios, culturas e processos.

Sua tese, intitulada “Mediação da informação em museus: concepções a partir dos textos da exposição de longa duração do Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas”, evidencia que os textos expositivos não apenas informam, mas também participam da forma como o visitante percebe, interpreta e atribui sentido ao patrimônio exposto. A pesquisa amplia a compreensão sobre a mediação da informação em museus ao demonstrar que ela também ocorre de modo implícito, por meio da escrita expositiva, tornando a experiência museal mais acessível, significativa e socialmente relevante.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Thiago Siqueira (TS): Aconteceu em um momento de muita incerteza. Estávamos saindo da pandemia e, naquele período, tinha planos de inscrição por meio de convênio na instituição em que eu atuava profissionalmente, mas isso não se concretizou. Então precisei reorganizar a rota com rapidez, porque eu não trabalhava com a possibilidade de não ingressar em um doutorado naquele momento. Quanto ao tema, ele nasceu de uma inquietação intelectual que foi ganhando força: entender melhor o papel dos textos nas exposições. Eles parecem discretos, mas influenciam muito a forma como o público compreende, interpreta e se relaciona com o que está sendo exposto.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e  conclusões alcançados?

TS: Essa certeza não chegou de uma vez. Ela foi aparecendo aos poucos, à medida que o material empírico e a fundamentação teórica começaram a conversar de verdade. Houve um momento em que percebi que eu não estava apenas analisando textos de exposição, mas encontrando neles uma chave importante para compreender a mediação da informação no contexto museal. Ali a pesquisa ganhou corpo, direção e, sobretudo, densidade. A partir daí, ainda houve muito trabalho, claro, porque a tese não se escreve por milagre, mas eu já sabia que havia um problema consistente, um caminho analítico possível e uma contribuição que valia a pena defender.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

TS: Sim. Eu diria que minha tese nasceu de um encontro teórico muito feliz. De um lado, o texto Mediação da informação: um conceito atualizado, de Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, publicado em 2015, foi decisivo para eu pensar a mediação como ação de interferência. De outro, a tese Atuação do museu enquanto sistema aberto: uma realidade possível, de Guilhermina de Melo Terra, ampliou meu olhar sobre o museu como ecossistema aberto. Quando essas duas perspectivas se encontraram, senti que havia ali uma chave muito potente para compreender os textos expositivos como parte ativa da mediação da informação no museu. Soma-se a isso algumas reuniões com Alice Semedo, professora de Museologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que também foram importantes nesse percurso. Chegamos a cogitar uma investigação integrada ao Centro de Investigação Transdisciplinar sobre Cultura, Espaço e Memória da mesma faculdade, mas isso não foi possível em razão do tempo e das burocracias envolvidas.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

TS: Entendo que a tese traz um deslocamento teórico e analítico importante ao mostrar que os textos de exposição em museus também participam da mediação da informação. O ineditismo, para mim, está em produzir uma leitura nova sobre um problema ainda pouco explorado com essa densidade. Procurei evidenciar que esses textos exercem um papel central na produção de sentidos, na interpretação do acervo e na relação entre museu e público. Interessa-me, especialmente, observar tanto o que é escrito quanto o que é invisibilizado nesses textos, porque ambos interferem na forma como a informação circula e é apropriada socialmente. Nesse sentido, os textos da exposição deixam de ser vistos como elementos acessórios e passam a ser compreendidos como parte ativa da mediação, como ação de interferência na produção de sentidos e na apropriação social da informação. Além disso, considero que o trabalho alcança densidade doutoral porque articula elaboração conceitual, análise empírica e contribuições que podem repercutir na prática dos museus. 

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

TS: Minha tese pode ser útil à sociedade porque chama atenção para algo que muitas vezes parece secundário no museu, mas interfere diretamente na experiência do público: o texto da exposição. Quando esses textos são pensados com mais cuidado, o museu pode se comunicar melhor, ampliar seu alcance educativo e se tornar mais acessível para diferentes visitantes. Na prática, a pesquisa oferece subsídios para que instituições museais revejam sua comunicação e fortaleçam o vínculo entre patrimônio, informação e comunidade.

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

TS: Vejo duas contribuições principais. A primeira é teórica: a tese mostra que os textos expositivos podem ser compreendidos como parte da mediação da informação em museus, e não apenas como apoio descritivo. A segunda é analítica e metodológica: o trabalho propõe um caminho de investigação para estudar esses textos em articulação com a experiência do público e com o contexto institucional do museu. Considero isso relevante porque amplia a forma de analisar a comunicação museológica e oferece uma chave de leitura mais refinada para a Ciência da Informação e para a Museologia.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

TS: Primeiro, defini o foco da pesquisa: entender como os textos de uma exposição influenciam a experiência do público e participam da mediação da informação. Depois, escolhi o Museu Amazônico como objeto principal do estudo, também em razão da minha atuação, à época, como servidor da UFAM. Em seguida, fiz uma etapa de leitura e revisão de trabalhos já publicados sobre mediação da informação, museus e textos expositivos, além da análise de documentos institucionais do museu. Na parte prática, apliquei questionário, observei diretamente a exposição e registrei de forma organizada os aspectos mais importantes percebidos no campo. Como o acesso do público ao museu estava restrito naquele período, também utilizei os livros de visita, que reuniam comentários e impressões deixados pelos visitantes. Por fim, reuni todo esse material e analisei os dados para identificar padrões, relações e pontos centrais que me ajudaram a chegar às conclusões da tese.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

TS: Eu diria que 20% de inspiração e 80% de transpiração. A inspiração foi importante para sustentar o interesse pelo tema e dar direção ao trabalho, mas a maior parte do processo exigiu constância, disciplina e capacidade de seguir mesmo nos períodos mais difíceis.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

TS: Mais do que um desabafo, eu faria um reconhecimento de que o doutorado é um percurso exigente, muitas vezes silencioso, e que nem sempre isso aparece no resultado. A defesa representa uma conquista importante, mas ela é atravessada por dúvidas, renúncias, esforço contínuo e amadurecimento pessoal. Foi uma caminhada intensa, mas também muito formadora.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

TS: Foi um período que exigiu bastante, inclusive no plano pessoal. A mudança de estado implicou afastamento da minha rede de apoio e adaptação a uma nova realidade. Isso naturalmente impacta a convivência familiar, mas também reforça a importância dos vínculos afetivos como sustentação ao longo do processo.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

TS: A maior dificuldade foi sustentar o equilíbrio entre a exigência intelectual do doutorado e as condições emocionais e práticas necessárias para dar conta do processo. A escrita, em especial, foi um dos pontos mais desafiadores, porque ela concentrava a pressão por qualidade, prazo, publicação e amadurecimento teórico.

DC: Que temas de doutorado citaria como pesquisas futuras possíveis  sobre sua tese?

TS: A tese indica como pesquisas futuras a avaliação da aplicação dos textos propostos no espaço expositivo, para verificar seus efeitos na experiência do público. Também aponta a necessidade de aprofundar estudos sobre acessibilidade, linguagem simples, design da informação e outros modos de mediação em museus, inclusive em ambientes digitais.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

TS: Estou muito feliz e com a sensação de estar no caminho certo. Recentemente assumi como docente na Universidade Federal do Cariri, uma instituição que me recebeu de portas abertas e onde já percebo boas possibilidades de articulação no ensino, na pesquisa, na extensão e na cultura, o que considero especialmente importante em uma universidade que possui uma pró-reitoria dedicada a essa área. Neste momento, minha principal pretensão profissional é consolidar essa nova etapa e contribuir de forma qualificada para a formação de profissionais na região, a partir do diálogo entre a Ciência da Informação, a docência e as demandas sociais e culturais do território.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

TS: Com o que sei hoje, eu talvez conduzisse algumas etapas com mais serenidade. Ainda assim, reconheço que a complexidade do processo também foi parte importante da formação que o doutorado me proporcionou.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

TS: Avalio essa trajetória de forma muito positiva. O PPGCI/UNESP possui uma tradição consolidada de incentivo à publicação e à circulação qualificada da pesquisa, aspecto que contribuiu para que o doutorado também se tornasse um período importante de amadurecimento intelectual e de consolidação da minha agenda de pesquisa.

Ao longo desse percurso, busquei desenvolver investigações que não permanecessem restritas ao espaço acadêmico, mas que também pudessem dialogar com práticas profissionais e ampliar a circulação social do conhecimento produzido. Esse movimento resultou em publicações científicas, produto técnico e, posteriormente, na publicação do livro derivado da tese.

Entre as produções vinculadas diretamente à pesquisa, destaco o artigo “Perspectivas sobre a mediação da informação em museus: explorando os textos das exposições”, publicado em 2023 na revista Informação em Pauta, e o artigo “Concepciones de mediación de la información en el ámbito de los museos a partir de la literatura científica en Ciencia de la Información”, publicado em 2024 na revista Información, cultura y sociedad. As duas publicações contribuíram para ampliar o debate sobre mediação da informação em museus, tanto no contexto brasileiro quanto em diálogo com a produção latino-americana da área.

A tese, intitulada: “Mediação da informação em museus: concepções a partir dos textos da exposição de longa duração do Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas”, também gerou desdobramentos voltados à prática museológica. Um deles foi o desenvolvimento do produto técnico Museu Amazônico: guia para a exposição de longa duração, pensado como instrumento de mediação e aproximação entre exposição, instituição e público.

Mais recentemente, a pesquisa foi publicada em formato de livro pela Editora Diálogo Freiriano, ampliando ainda mais as possibilidades de circulação do trabalho para além da tese acadêmica e alcançando estudantes, pesquisadores e profissionais interessados nas interfaces entre museus, informação e mediação cultural.

Por isso, considero que o doutorado resultou em um percurso de pesquisa que teve continuidade para além da defesa da tese. As discussões desenvolvidas na investigação geraram artigos, produto técnico e publicação em livro, ampliando a circulação da pesquisa e fortalecendo o diálogo entre a Ciência da Informação e o campo museológico.

DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

TS: Não foi necessário porque já havia atuado como docente. No entanto, participei de algumas formações virtuais ofertadas pela UNESP no âmbito do Programa de Atividades e Aperfeiçoamento em Docência no Ensino Superior (PAADES).

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

TS: A formação de aperfeiçoamento em docência no ensino superior também foi muito importante nesse percurso, porque favoreceu o desenvolvimento de competências diretamente relacionadas à prática docente. Destaco a atenção na seleção e elaboração de instrumentos de avaliação, bem como o fortalecimento de iniciativas que facilitem a interlocução entre o docente e os estudantes. Foi uma experiência que contribuiu para tornar minha atuação pedagógica mais atenta, estruturada e sensível aos processos de ensino e aprendizagem.

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

TS: Eu diria: usem a tese como ponto de partida, porque ainda há muita coisa para explorar. Esse debate pode crescer bastante quando levado para outros museus, outros públicos e outras formas de mediação.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

TS: Entendo que a relação entre orientador e orientando deve ser construída com diálogo, respeito, confiança intelectual e clareza de expectativas. É fundamental para o desenvolvimento da pesquisa, porque envolve acompanhamento, escuta e direcionamento, sem perder de vista a autonomia que o doutorado também exige do pesquisador.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

TS: Por enquanto ainda não. Acho que irei alterar um pouco o foco devido outras oportunidades que surgiram. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

TS: Foi fundamental para minha formação acadêmica e científica, ao oferecer uma base sólida de pesquisa, incentivo à publicação, amadurecimento intelectual e acesso a um corpo docente de excelência. Da minha parte, procurei contribuir com dedicação, produção científica vinculada ao doutorado e compromisso com a qualidade do trabalho desenvolvido nesse período.

DC: Você por você: 

TS: Sou alguém movido pela curiosidade e pela disposição de seguir adiante. Gosto de pesquisa, de docência e do desafio de transformar reflexão em algo que dialogue com as pessoas. Levo meu trabalho a sério, mas sem abrir mão da leveza. Tenho tentado construir meu caminho exatamente assim.


Entrevistada: Thiago Giordano Siqueira
Entrevista concedida em:  25 de março de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Lilian Aguilar Teixeira
Fotografia: Thiago Giordano Siqueira
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima / Marcely Yasmin Portela Trindade

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »