
As esculturas devocionais católicas nos museus: musealização e ressignificação da imagem sacra – Entrevista com Rebeca Silva

As esculturas devocionais católicas nos museus: musealização e ressignificação da imagem sacra – Entrevista com Rebeca Silva
Rebeca Cristina de Oliveira Silva Corrêa
rebeca.cristina95@hotmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Rebeca Cristina de Oliveira Silva Corrêa defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Patrimônio e Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e do Museu de Astronomia e Ciências Afins, sob orientação da Profa. Dra. Helena Cunha de Uzeda.
Natural do Rio de Janeiro, Rebeca é museóloga e aguarda sua nomeação para o Instituto Brasileiro de Museus. Entre seus hobbies estão a leitura, tocar instrumentos musicais e assistir a filmes e séries na Netflix.Sua dissertação, intitulada “As esculturas devocionais católicas nos museus: musealização e ressignificação da imagem sacra de São Vicente Ferrer no MHN”, analisa as transformações que ocorrem no processo de comunicação das imagens sacras católicas quando são deslocadas de seu contexto religioso original para o espaço museológico. A pesquisa toma como estudo de caso a escultura de São Vicente Ferrer, exposta no Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro. O estudo evidencia como a musealização permite que esculturas religiosas sejam interpretadas para além da devoção, passando a ser compreendidas em seus aspectos simbólicos, artísticos, científicos e históricos, em diálogo com as novas leituras possibilitadas pelos museus.
inspirou na escolha do tema da dissertação?
Rebeca Cristina (RC): Quando terminei a minha graduação já estava planejando prestar concursos e me inserir no mercado de trabalho, para então mais a frente iniciar no mestrado. Lembro que já estava avançando em alguns processos seletivos, quando veio a pandemia da COVID-19 e vi os meus planos interrompidos. Um dia no meio da pandemia recebi o e-mail anunciando a abertura do edital do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (PPG-PMUS) e decidi me inscrever. A escolha do tema deve-se primeiramente as minhas experiências que observei durante o projeto de extensão “Igrejas Históricas no Rio de Janeiro: Descobrindo e Revelando seus Acervos”, coordenado pela Profª Drª Márcia Valéria Rosa, docente da UNIRIO, em que realizei visitas mediadas para o público que visitava a Igreja de São Francisco de Paula, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?
RC: Considero o principal público beneficiado a comunidade museal e acadêmica.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
RC: Destaco como contribuição a democratização do nosso patrimônio. A musealização dá uma nova vida ao objeto. Ao colocar essa peça em um museu, ela deixa de ser acessada apenas por quem compartilha daquela fé e passa a ser um bem cultural de todos. Isso permite que qualquer pessoa, independente de sua crença, possa admirar a beleza da obra, refletir sobre o passado e ter acesso a essa multiplicidade de significados permitindo que aquele bem seja acessível para as próximas gerações.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
RC: Minha dissertação está inserida na Linha 1: Museu e Museologia. Essa linha aborda temas como Museologia e Sistemas Simbólicos, Teoria da Exposição e Teoria do Objeto, temáticas em minha pesquisa se encaixa, pois exploramos os aspectos comunicacionais das exposições museológicas e os objetos nelas inseridas, partindo da ressignificação das esculturas devocionais musealizadas nos museus que são ambientes laicos.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
RC: Os trabalhos da pesquisadora portuguesa Maria Isabel Roque e do cientista da religião Mircea Eliade. Tive contato com suas obras ainda durante a pesquisa para o meu TCC, o que despertou a vontade de me aprofundar em seus estudos. Destaco aqui o livro O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, e a tese O Sagrado no Museu, de Maria Isabel Roque. Além deles, as discussões teóricas ocorridas nas aulas da pós-graduação foram decisivas para unir esses conceitos ao contexto brasileiro. Cito também as publicações do 41º Simpósio do ICOFOM, que teve como tema “Museologia e o Sagrado”.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
RC: Minha metodologia foi definida, primeiramente, pela minha vivência durante a graduação. No projeto de extensão da Profa. Márcia Valéria, eu realizava mediações em uma igreja que possuía um museu em suas dependências. Ali, pude observar como os visitantes se comportavam diante de obras expostas, o que me despertou o desejo de compreender como as pessoas percebem objetos sagrados quando estão em um museu. Essas experiências foram essenciais para a escolha da metodologia: um estudo de caso com observação direta da obra escolhida, a imagem de São Vicente Ferrer, exposta no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O trabalho possui caráter qualitativo e partiu de uma sólida base teórica, construída por meio de pesquisas bibliográficas para dar o suporte necessário à análise dessa obra e do seu contexto.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
RC: A escrita foi um grande desafio. Sempre estudei em escola pública, só tive aulas de redação e produção textual no 3º ano do Ensino Médio. Apesar de ler bastante e escrever, sempre foi difícil, pois preciso de tempo e calma para desenvolver o texto. Ter que desenvolver uma dissertação em poucos meses foi um desafio maior ainda… parecia que a escrita não fluía, tive que muitas vezes escrever por etapas o que estava na minha mente, diversas vezes eu reescrevia até estar satisfeita com o texto. Durante esses processos sempre abri mão de muita coisa para que pudesse me dedicar somente à escrita. Eu e a minha orientadora tínhamos prazos para cada sub-capítulo e seguia ele à risca apesar das dificuldades com escrita para que minha defesa fosse realizada no prazo correto, eu não podia atrasar a data, pois era bolsista CAPES.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
RC: Como a metodologia se deu através de um estudo de caso, acredito que houve mais transpiração do que inspiração, eu diria, que uns 60% de transpiração. Inicialmente, tive dificuldade com o recorte da pesquisa, mas após os conselhos da minha orientadora em optar por um estudo de caso e escolher uma obra dentro de um museu tradicional, o trabalho fluiu melhor. Depois, o desafio maior passou a ser a documentação da obra escolhida, pois em sua ficha catalográfica tinha muitas lacunas informacionais. É um objeto que ainda necessita de uma extensa pesquisa.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
RC: É muito importante que ouça o orientador e faça os devidos ajustes necessários. Quando entramos no mundo da pesquisa, principalmente no mestrado, ficamos muito animados para defender o nosso tema, que, muitas vezes, inicialmente, ainda necessita de alguns recortes. Durante o processo de produção da dissertação, considero a qualificação uma das etapas mais importantes. O norte e os conselhos que minha banca me passou ajudaram muito a delimitar melhor o meu trabalho, o que foi essencial para dar continuidade à minha pesquisa.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
RC: Eu hoje me enxergo como uma pessoa extremamente abençoada e privilegiada por ter uma família que me apoia e torce por mim. Se hoje eu cheguei até aqui foi principalmente por causa dos meus pais que em todo tempo, durante a graduação e o mestrado, estiveram ao meu lado. Como iniciei o mestrado ainda na pandemia, a maioria das minhas aulas foram online e minha família foi bastante compreensiva em manter o silêncio em casa durante o tempo das aulas.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
RC: Leiam bastante, procurem pesquisadores brasileiros para compreender como nossas teorias se aplicam à nossa realidade e, o mais importante, não tenham medo diante dos desafios que se apresentam.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
RC: Participei de eventos do nosso programa da nossa universidade. Hoje, eu gostaria de ter participado de mais produções científicas, porém passei por algumas dificuldades e provações durante o mestrado e tive que buscar muitas forças para continuar. No momento, após o bom êxito no resultado do meu estudo para concurso público, estou terminando alguns artigos para publicá-los. O mais importante para mim foi o reconhecimento dos meus colegas do programa, que me convidaram para apresentar os resultados da minha dissertação no 1º Seminário Discente do PPG-PMUS, UNIRIO/ MAST, realizado no Museu da República, com o tema Museu, Educação e Pesquisa.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
RC: Desde a conclusão da minha dissertação eu foquei em estudar para concursos e neste momento da entrevista estou aguardando a nomeação sair no Diário Oficial. Eu pretendo aplicar o conhecimento que adquiri para o fortalecimento da preservação do patrimônio do nosso país. Meu objetivo é contribuir com o museu que eu for destinada após a nomeação, unindo a visão acadêmica com as práticas do museu e ajudar em novas pesquisas para a nossa área.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
RC: Pretendo sim. Penso em expandir minha área e fazer um doutorado em Comunicação.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
RC: Com certeza já teria delimitado melhor o tema e estaria com o trabalho bem adiantado após a qualificação. Porém, hoje em dia, percebo que isso faz parte da maturidade do pesquisador e do desenvolvimento de sua competência acadêmica.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
RC: O Programa foi o espaço fundamental para o meu amadurecimento como mestranda. Ele me ofereceu as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do meu olhar crítico sobre o patrimônio e a museologia. Acredito que minha pesquisa tenha contribuído para o Programa e espero continuar contribuindo ainda mais com os desdobramentos da minha dissertação.
DC: Você por você:
RC: Hoje, com a maturidade necessária para continuar com a vida acadêmica, percebo a importância de continuar resistindo e ocupando espaços antes inimagináveis para pessoas que vieram de onde eu vim.
Entrevistada: Rebeca Cristina de Oliveira Silva Corrêa
Entrevista concedida em: 30 de março de 2026.
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Portela
Fotografia: Rebeca Cristina de Oliveira Silva Corrêa
Diagramação: Marcelly Portela










