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v. 4, n. 05, maio 2026
Dinâmica dos Fluxos de Informação em Organizações Intensivas em Conhecimento – Entrevista com Wánderson Araújo

Dinâmica dos Fluxos de Informação em Organizações Intensivas em Conhecimento – Entrevista com Wánderson Araújo

Dinâmica dos Fluxos de Informação em Organizações Intensivas em Conhecimento – Entrevista com Wánderson Araújo

Wánderson Cássio Oliveira Araújo
wcassio@ufc.br

Sobre o entrevistado

Em 2025, Wánderson Cássio Oliveira Araújo defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação do Dr. Gregório Varvakis (UFSC) e António Lucas Soares (Universidade do Porto).

Atualmente, Wánderson atua como bibliotecário de referência na Biblioteca de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Ceará. Natural de Magalhães de Almeida, Maranhão, seus hobbies são ler revistas em quadrinhos, livros de ficção científica e fantasia, assistir a séries e filmes de diferentes gêneros e aproveitar a praia.Sua tese, intitulada “Dinâmica dos Fluxos de Informação em Organizações Intensivas em Conhecimento”, buscou entender como a informação circula dentro de organizações que dependem fortemente do conhecimento, como empresas e instituições inovadoras. A pesquisa analisou estudos já publicados e realizou entrevistas com diretores e líderes dessas organizações para identificar padrões no uso da informação. Com os resultados, foi desenvolvido um modelo prático que funciona como um guia para ajudar organizações a planejar, organizar e melhorar a circulação da informação em projetos, tornando o uso do conhecimento mais eficiente no dia a dia.

fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Wánderson Araújo (WA): Desde a graduação, tive grande interesse por pesquisas em Gestão da Informação, o que motivou minha escolha pela Biblioteconomia. O tema da minha tese é a continuidade da pesquisa desenvolvida no meu mestrado, agora ampliada em escala, e também resulta da articulação de cerca de vinte anos de estudos realizados no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (PGCIN/UFSC). Esses estudos concentram-se na análise, construção e gestão de Fluxos de Informação, utilizando um método que combina Dimensões Estruturantes e itens informacionais construtivos.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?

WA: Minha pesquisa de tese foi construída a partir da perspectiva da Representação Gráfica de Síntese (RGS). À medida que avançava no estudo, eu literalmente desenhava as ideias que iam surgindo. Esse trabalho visual foi fundamental para que meu orientador e os integrantes do nosso grupo de pesquisa compreendessem o direcionamento e a estrutura da investigação. Após muitas reuniões e sucessivas remodelações dos esquemas, chegamos a um ponto em que o modelo se tornou compreensível para qualquer pessoa. Nesse momento, avançamos para uma abordagem ainda não explorada na Ciência da Informação, o que deixou claro que a pesquisa era exequível. O resultado do uso da RGS está na tese representado por um conjunto de infográficos, esquemas lógicos e fluxos.

DC: Citaria algum trabalho (artigo, dissertação, tese) ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

WA: Como mencionado anteriormente, minha tese é fruto de vinte anos de pesquisas desenvolvidas no PGCIN/UFSC. O trabalho seminal de Renata Curty, em sua dissertação de mestrado, foi o ponto de partida para que esse percurso fosse possível. Nos anos seguintes, a dissertação de Danielly Oliveira Inomata, a minha própria dissertação de mestrado e a tese da Inomata foram fundamentais para a consolidação do arcabouço lógico-teórico da pesquisa, especialmente por aprimorarem o método de análise inicialmente proposto por Curty.

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

WA: Os estudos sobre Fluxos de Informação, em geral, são desenvolvidos sem uma visão elementar de como esses fluxos são construídos. Faltavam aos pesquisadores elementos estruturantes claros para sua construção, gestão e avaliação. Minha pesquisa supre essa lacuna ao definir um conjunto de quatro Dimensões Estruturantes e seus respectivos itens. Embora outras investigações já tenham apontado essa perspectiva, o diferencial do meu trabalho está no desenvolvimento de uma lógica construtiva. Em termos práticos, se alguém se pergunta “o que é necessário para construir, gerir e avaliar ambientes informacionais e seus fluxos de informação?”, a tese oferece uma resposta sistematizada para essa questão.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

WA: As contribuições da minha pesquisa se concentram, primeiramente, no avanço teórico da Ciência da Informação, especialmente nos estudos sobre Fluxos de Informação. Do ponto de vista social, a pesquisa é útil para organizações que necessitam construir, gerir e avaliar seus ambientes informacionais com foco na melhoria das estruturas de informação, na gestão dos fluxos informacionais e na criação de conhecimento. A aplicação do Modelo de Referência para a Gestão de Fluxos de Informação, desenvolvido como um dos resultados da tese, permite que as organizações visualizem seus ambientes informacionais de forma ampliada, considerando suas complexidades e compreendendo-os como constituídos por Dimensões Estruturantes e diferentes itens informacionais construtores. Esse Modelo de Referência funciona como um checklist prático para avaliar como a gestão do ambiente informacional da organização ocorre e que ações corretivas podem ser feitas. 

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

WA: Minha pesquisa contribuiu para os estudos sobre Fluxos de Informação em três frentes principais. A primeira foi a definição metodológica de como os Fluxos de Informação são estruturados e construídos, considerando que possuem Dimensões Estruturantes, cada uma composta por um conjunto de itens informacionais construtores. A segunda contribuição foi a proposição do conceito de Metafluxo de Informação, ainda não explorado na literatura, que descreve como múltiplos fluxos informacionais em uma organização tendem a se articular para solucionar desafios operacionais e aproveitar oportunidades de mercado. Por fim, a pesquisa resultou na criação de um Modelo de Referência para a Gestão de Fluxos de Informação, que pode ser utilizado como uma lista de verificação para a operacionalização do ambiente de circulação informacional de projetos. Esses produtos podem ser aplicados de forma individual ou integrada, possibilitando uma visão abrangente dos ambientes informacionais que se deseja construir, gerir ou avaliar.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

WA: O método Design Science Research (DSR) foi a escolha mais adequada, pois possibilita o desenvolvimento de artefatos, algo que esteve presente desde a concepção inicial da tese. O DSR permitiu uma construção consistente das Dimensões Estruturantes dos Fluxos de Informação e de seus respectivos itens. Posteriormente, o método foi combinado com a Análise Temática de Braun e Clarke, que se mostrou extremamente útil para estabelecer relações temáticas entre as dimensões estruturantes e seus itens.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

WA: Sendo bastante sincero, transpirei muito menos do que no mestrado. Iniciei o doutorado com um nível de conhecimento e maturidade acadêmica muito maior. Além disso, o tema da pesquisa é algo que realmente gosto de estudar. A combinação entre domínio das habilidades necessárias para a pesquisa e afinidade com o tema facilitou bastante o processo. Dediquei mais esforço às atividades transversais, como orientação de alunos, apoio a outros pesquisadores e preparação de aulas, do que propriamente à escrita da tese.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

WA: Acredito que ainda faltam, nas universidades, espaços de colaboração mais consistentes. Embora existam grupos de pesquisa, muitos professores não dispõem de salas ou ambientes adequados para que os alunos possam compartilhar conhecimento de forma cotidiana. Tive a sorte de contar com esse tipo de espaço. Quando surgia uma dúvida, meu orientador estava na sala ao lado; quando um colega precisava de ajuda com uma base de dados, bastava girar a cadeira; e, quando era necessário trocar ideias, havia o espaço do café. Não basta ter apenas salas de aula: é fundamental que existam ambientes propícios à criação de conhecimento por meio da colaboração.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

WA: Tirando a saudade do meu sobrinho, foi um período bastante tranquilo. Saí de casa muito cedo para estudar em Fortaleza. Depois, mudei-me para Santa Catarina para o mestrado, em seguida para Rondônia para assumir um concurso público, retornei a Fortaleza para outro concurso e, posteriormente, voltei a Santa Catarina para o doutorado. Minha família já está acostumada com a distância. No entanto, passar um ano na Europa durante o doutorado sanduíche foi diferente, pois não era possível simplesmente pegar o carro e visitá-los.

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

WA: Acredito que, como ocorre com muitos pesquisadores, a coleta de dados foi a etapa mais difícil. Conseguir entrevistar um número satisfatório de empresas é sempre um desafio, pois depende da disponibilidade e do interesse dos participantes. Quando o entrevistado não percebe valor na pesquisa, dificilmente se dispõe a dedicar seu tempo ao estudo.

DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?

WA: Se eu fosse um aluno de mestrado interessado em Fluxos de Informação, aplicaria o que propus na tese em ambientes informacionais complexos, como hospitais de grande porte, setores de logística de empresas de transporte nacional, organizações que prestam serviços financeiros ou até mesmo redes de petshops. O que foi proposto na tese é aplicável a qualquer ambiente informacional, desde que realizadas as devidas adaptações ao contexto e ao locus da pesquisa.

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

WA: Atualmente, sou bibliotecário concursado na Universidade Federal do Ceará (UFC). Amo meu trabalho e tenho muito orgulho do que faço. Atuo diretamente com pesquisadores da universidade, desenvolvendo soluções informacionais e oferecendo capacitação em métodos de pesquisa, busca avançada em bases de dados, elaboração de estratégias de busca de alta sensibilidade e uso de Inteligência Artificial na pesquisa acadêmica. Minha agenda está bastante cheia, e preciso encontrar mais tempo para escrever artigos científicos. Escrever mais artigos é a minha única pretensão no momento. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

WA: Acredito que a trajetória da tese ocorreu conforme o planejamento que tracei. Antes de iniciar o doutorado, organizei minha vida financeira e busquei aprimorar minhas habilidades como pesquisador. No entanto, eu teria me preparado melhor para a seleção do doutorado sanduíche. Os prazos costumam ser curtos e envolvem diversas etapas, como seleções, provas de proficiência, organização de documentos, solicitação de visto e reserva financeira. Nesse aspecto, certamente adotaria algumas atitudes diferentes.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado (projetos, artigos, trabalhos em eventos, participação em laboratórios e grupos de pesquisa)? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

WA: Acredito que poderia ter publicado mais, mas optei por me envolver com atividades de ensino, como explico na resposta seguinte. A escolha de atuar em ações práticas foi tomada pensando nos resultados que isso traria para minhas habilidades profissionais. Consequentemente todo o aprendizado nessas ações, atualmente, estão sendo úteis para meu trabalho na UFC.  Ainda assim, publiquei trabalhos durante o doutorado e destaco, especialmente, o livro Tópicos em Gestão do Conhecimento para Iniciantes, resultante de um projeto PIBIC, que recebeu muitos elogios pela proposta e pelos resultados alcançados. Além do livro, destaco os artigos “Modelagem de fluxos de informação em projetos: proposta para construção e avaliação de metaestruturas de circulação da informação” e “Planejamento de fluxos de informação em projetos: questões norteadoras para a construção de estruturas de circulação da informação”. Ambos os artigos são resultados diretos da minha tese e foram apresentados no Enancib 2024, ocasião em que recebi o prêmio de primeiro lugar do GT4 com o primeiro artigo citado. 

DC: Exerceu alguma monitoria/estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

WA: Atuei como monitor docente em cursos de graduação em Engenharia, fui professor convidado em disciplinas de duas pós-graduações (Engenharia e Gestão do Conhecimento e Psicologia), tutor de um MINTER entre a UFSC e o Ministério da Justiça e Segurança Pública e orientador de alunos de PIBIC. Todas as experiências foram tranquilas. Embora atualmente seja bibliotecário na UFC, já atuei como professor na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), e na UFC parte do meu trabalho envolve a capacitação de alunos e professores em técnicas de pesquisa atuando diretamente em sala de aula e em colaboração com os cursos da universidade. 

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

WA: Essas atividades contribuíram de duas maneiras. Primeiramente, parte do conteúdo trabalhado foi útil para expandir e aprimorar ideias já presentes na pesquisa. Em segundo lugar, o contato direto com pessoas de diferentes áreas e perspectivas possibilitou a combinação de conhecimentos diversos, favorecendo a construção de soluções criativas para questões teóricas e práticas da tese. 

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

WA: Eu recomendaria um foco especial na análise dos Metafluxos de Informação em ambientes complexos. Embora o conceito de Metafluxo ainda não tenha sido explorado anteriormente, o que fizemos foi identificar e nomear um processo que já ocorre naturalmente em organizações intensivas em conhecimento. Trabalhar com Metafluxos me parece um excelente ponto de partida para pesquisas futuras.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

WA: Acredito que o processo de orientação deve se sustentar em três pilares. O orientador deve ser alguém que inspire o orientando a encontrar seu próprio caminho. O orientando, por sua vez, deve estar sempre aberto ao aprendizado, compreendendo que todo novo desafio ensina algo. Por fim, ambos devem estar dispostos a aprender um com o outro.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

WA: Minha tese encerrou um ciclo de vinte anos de pesquisa dentro da perspectiva desenvolvida no PGCIN/UFSC. Espero que outros pesquisadores se interessem pelo tema e contribuam para seu aprofundamento, já que se trata de um campo inesgotável. No futuro, pretendo dedicar mais tempo à escrita dos artigos derivados da tese e, quem sabe, daqui a alguns anos, realizar um novo doutorado.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

WA: Tenho profunda gratidão a toda a equipe docente e aos técnicos administrativos do meu Programa de Pós-Graduação, que foram fundamentais para uma trajetória tranquila durante o doutorado. Atuei mais diretamente junto ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento (PPEGC), no qual desempenhei atividades como tutor em diferentes projetos que foram importantes para melhorar minha atuação como pesquisador e profissional. Como meu orientador, o professor Gregório Varvakis, atua no PPEGC eu tive grande envolvimento em pesquisas com as equipes desse programa. Acho que foi um privilégio ter à disposição dois PPG durante o trajeto da tese. As diferentes visões, abordagens e ensinamentos nunca foram conflitantes, mas sim complementares e expandiram minhas possibilidades de aprendizado. 

DC: Você por você: 

WA: Como bibliotecário, acredito que me tornei o profissional que almejava ser quando ingressei na universidade, mantendo uma curiosidade constante para aprender novos assuntos e a disposição para compartilhar meus conhecimentos com outras pessoas. O reconhecimento que tenho hoje na instituição em que trabalho é reflexo direto dessas duas características. Como pessoa, alcancei os objetivos que tracei ainda quando era atendente em uma loja do McDonald’s antes da universidade. Com o passar do tempo, novos objetivos surgiram e também foram conquistados, mas todos eles, sem dúvida, só se tornaram possíveis graças à dedicação aos estudos, aos amigos que estiveram comigo nessa jornada e às pessoas que se dispuseram a me ensinar ao longo do caminho.


Entrevistado: Wánderson Cássio Oliveira Araújo
Entrevista concedida em:  12 de janeiro de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Herta Maria de Açucena do N. Soeiro
Fotografia: Wánderson Cássio Oliveira Araújo
Diagramação: Herta Maria de Açucena do N. Soeiro

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