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v. 4, n. 05, maio 2026
Musealização do Acervo Arqueológico na Universidade Federal de Rondônia, por Daiane Pereira, Gilcimar Costa Barbosa e Silvana Zuse

Musealização do Acervo Arqueológico na Universidade Federal de Rondônia, por Daiane Pereira, Gilcimar Costa Barbosa e Silvana Zuse

Musealização do Acervo Arqueológico na Universidade Federal de Rondônia

Daiane Pereira
Gilcimar Costa Barbosa
Silvana Zuse
rtdarq@unir.br

Em maio celebramos o Dia Internacional dos Museus, instituições permanentes, sem fins lucrativos e a serviço da sociedade, que pesquisam, colecionam, conservam, interpretam e expõem o patrimônio material e imaterial (ICOM, 2022). Embora não se denomine oficialmente como um museu, o Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) vem atuando no processo de gestão e musealização de seu acervo arqueológico, composto por diferentes tipologias de acervos oriundos de centenas de sítios arqueológicos de diversas localidades de Rondônia. No Brasil, o patrimônio arqueológico é considerado, pela Constituição Federal (1988), como bem da União e patrimônio cultural brasileiro, contando com um robusto conjunto de legislações que garantem sua preservação e valorização, uma tarefa compartilhada entre o governo, as instituições e os cidadãos.

Neste contexto, o Curso de Arqueologia da UNIR atua como uma Instituição de Guarda e Pesquisa (IGP), cadastrada em âmbito federal no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sendo responsável por conservar, proteger, estudar e promover a extroversão dos bens arqueológicos, atendendo ao trinômio pesquisa, conservação e socialização (IPHAN, 2025).

Exposição Arqueologia e Diversidades: 10 mil anos de história no rio Madeira / 
Divulgação: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia

Essa importante atribuição expande a atuação do Curso de Arqueologia da UNIR também para a gestão do acervo arqueológico, por meio da pesquisa e da aplicação da cadeia operatória de procedimentos museológicos curatoriais. Com isso, os pilares epistemológicos e metodológicos da museologia, traduzidos nos conceitos de salvaguarda (conservação e documentação) e comunicação (exposição e ações educativo-culturais) (Bruno, 2014), são trabalhados de forma multidisciplinar na ciência arqueológica.

Relacionando ensino, pesquisa e extensão no processo de gestão dos acervos arqueológicos, a equipe da Reserva Técnica do Curso de Arqueologia da UNIR mantém variadas ações e espaços de extroversão dos acervos e de suas informações, que convidamos a todos a conhecer:

Exposição Arqueologia e Diversidades

A exposição “Arqueologia e Diversidades: 10 mil anos de história no rio Madeira” aborda a profunda história das margens e ilhas do rio Madeira ao longo dos últimos dez mil anos, por meio da cultura material. Na sala expositiva, por meio de um roteiro sugerido, os visitantes percorrem os caminhos dessa longa trajetória, marcada por grande diversidade cultural. O público pode visualizar os materiais arqueológicos e obter informações sobre como foram elaborados e utilizados, o período em que foram produzidos, o local onde foram encontrados e o modo como são coletados e estudados nas pesquisas arqueológicas. A exposição conta com um grupo de mediadores que realiza a comunicação desses conhecimentos e facilita a troca de informações e experiências com os visitantes.

Entre os materiais arqueológicos mais antigos estão os objetos produzidos pelos povos indígenas por meio do lascamento e do polimento de rochas. Os potes e outros objetos de argila, elaborados há cerca de quatro mil anos na região, são os mais abundantes da exposição. As cerâmicas são utilizadas para cozinhar, armazenar, servir e consumir alimentos, fermentar bebidas, realizar sepultamentos (urnas funerárias), fiar fibras vegetais e representar figuras humanas e de animais. Associadas a elas estão as rochas polidas, como lâminas de machado e adornos corporais, entre eles pingentes e contas de colar.

A exposição também apresenta materiais da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (E.F.M.M.), construída no início do século XX para escoar a borracha, evidenciando a circulação de produtos provenientes de diversos países, embalados em metais, vidros, cerâmicas, grés, louças e porcelanas, encontrados em sítios arqueológicos históricos. O estudo desses sítios e materiais é importante para a compreensão das invasões aos territórios indígenas, que provocaram transformações nos modos de vida dos povos que ocupavam a região há milhares de anos, por meio da proliferação de doenças, da exploração da mão de obra e de deslocamentos forçados.

Exposição Gravuras Rupestres

O Espaço Expositivo Gravuras Rupestres, inaugurado em abril de 2026, abriga a mais nova exposição do Curso de Arqueologia da UNIR. O ambiente, praticamente ao ar livre, totaliza pouco mais de 300 m², onde estão dispostos dezesseis blocos rochosos contendo gravuras rupestres, produzidas pelos povos originários que habitaram a Ilha do Padre e áreas próximas à faixa territorial hoje ocupada pela Usina Hidrelétrica de Jirau. O termo técnico atribuído a essa tipologia de bens arqueológicos varia entre gravura, grafismo, petróglifo, entre outros. As temáticas identificadas incluem representações humanas, de animais, plantas e formas geométricas, e as técnicas de confecção envolvem picoteamento, abrasão e raspagem.

Exposição Gravuras Rupestres na Universidade Federal de Rondônia – Campus Porto Velho / Divulgação: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia

Nesse novo ambiente expositivo, reforça-se a diversidade cultural dos povos indígenas que, ao inserirem marcas nas estruturas que compõem a paisagem do rio Madeira, materializaram cosmovisões inerentes ao universo simbólico de um ou mais grupos humanos, em múltiplas cronologias. 

O acesso à exposição é gratuito e livre para todas as faixas etárias, podendo ser realizado de segunda a sexta-feira, nos períodos da manhã e da tarde. O acesso digital aos blocos pode ser feito no site da Reserva Técnica, com visualização dos grafismos em detalhe. Presencialmente, como recursos de comunicação, a exposição conta com quatro totens explicativos contendo textos em português e em braille, além de imagens, com o objetivo de proporcionar maior autonomia aos visitantes na compreensão do conteúdo exposto, dispensando a necessidade obrigatória de acompanhamento por mediador. Ainda assim, visitas em grupo podem ser agendadas, com possibilidade de mediação.

Exposição Gravuras Rupestres na Universidade Federal de Rondônia – Campus Porto Velho / Divulgação: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia – Vídeo institucional

Reserva Técnica VisitávelUma reserva técnica é o espaço e mecanismo de preservação, no caso do patrimônio arqueológico, abriga coleções provenientes de escavações, pesquisas e doações, garantindo sua preservação a longo prazo e a produção de conhecimento científico. Embora tradicionalmente vista como um “depósito”, vem sendo ressignificada como parte fundamental da cadeia operatória museológica, articulando salvaguarda e comunicação. Nesse contexto, destaca-se a reserva técnica visitável, um modelo que amplia o acesso público ao patrimônio ao permitir visitas mediadas, transformando esses espaços em ambientes “vivos” de extroversão do conhecimento, fortalecendo o papel social da arqueologia e possibilitando múltiplas interpretações sobre a cultura material.

Reserva Técnica Visitável do Curso de Arqueologia da UNIR / Divulgação: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia

A Reserva Técnica do Curso de Arqueologia da UNIR, é um exemplo desse movimento contemporâneo. Com mais de mil metros quadrados, o espaço abriga acervos provenientes de centenas de sítios arqueológicos distribuídos por diferentes regiões de Rondônia, reunindo uma expressiva diversidade de vestígios que testemunham a longa ocupação humana na Amazônia. A reserva convida o público a conhecer não apenas os objetos, mas também os processos científicos que lhes dão sentido. A visitação, que pode ser feita mediante agendamento, possibilita compreender o processo curatorial, etapa fundamental da pesquisa arqueológica que assegura a preservação física, informacional e social dos acervos. Mais do que um espaço de guarda, trata-se de um lugar de encontro, aprendizado e valorização do patrimônio, onde passado e presente se conectam por meio das relações entre pessoas, objetos e conhecimento.

Portal do Acervo Arqueológico da Reserva Técnica do Curso de Arqueologia / Divulgação: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia

Um convite à sociedade

Para conhecer esses espaços, convidamos a sociedade a visitar as exposições e a Reserva Técnica do Curso de Arqueologia da UNIR, no campus José Ribeiro Filho, em Porto Velho. As visitas são gratuitas, de segunda a sexta-feira, nos períodos da manhã e da tarde. Grupos e instituições podem agendar previamente pelo site rtarqueologia.unir.br , onde também é possível obter mais informações e acessar o repositório digital Tainacan, ampliando o contato com os acervos e os conhecimentos produzidos pela arqueologia na universidade.

Conheça a Reserva Técnica do Curso de Arqueologia

UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA. Reserva Técnica – Curso Arqueologia UNIR. Disponível em: https://rtarqueologia.unir.br/ . Acesso em: 11 maio 2026.

Referências

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Portaria nº 271, de 2025. Dispõe sobre normas relacionadas à gestão do patrimônio arqueológico. Disponível em: https://www.gov.br/iphan

BRUNO, Maria Cristina Oliveira. Musealização da arqueologia: caminhos percorridos. Revista de Arqueologia, v. 26, n. 2, p. 4–15, 2014.

ICOM – International Council of Museums. Museum definition. 2022. Disponível em: https://icom.museum/en/resources/standards-guidelines/museum-definition/

Sobre os autores

Daiane Pereira

Professora do curso de Bacharelado em Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia. Atua como curadora da Reserva Técnica de Arqueologia da UNIR e pesquisadora colaboradora no Núcleo de Pesquisa Arqueológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá. Coordenadora do Grupo de Trabalho Acervos da Sociedade de Arqueologia Brasileira.

Doutora em Antropologia /Arqueologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Mestra em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe. Licenciada em História pela Universidade de Caxias do Sul.

Gilcimar Costa Barbosa 

Museólogo vinculado ao Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia. É delegado, em Rondônia, do Conselho Regional de Museologia – 4ª Região e membro do grupo de pesquisa Recôncavo Arqueológico, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 

Mestre em Arqueologia e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Bacharel em Museologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Silvana Zuse 

Professora do Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia. Atua no ensino de Arqueologia Brasileira, Métodos e Técnicas de Laboratório e Arqueologia Pública, desenvolvendo pesquisas sobre cerâmicas indígenas arqueológicas e projetos de extensão voltados à divulgação da história indígena na longa duração. 

Doutora e Mestra em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Licenciada em História pela Universidade Federal de Santa Maria.


Redação: Daiane Pereira, Gilcimar Costa Barbosa e Silvana Zuse
Fotografia: Curso de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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