
Inovação em museus brasileiros: entre práticas invisíveis e futuros possíveis, por Raisa Ramoni Rosa

Inovação em museus brasileiros: entre práticas invisíveis e futuros possíveis
Raisa Ramoni Rosa
raisa.ramoni@gmail.com
A inovação em museus brasileiros não começa, necessariamente, com tecnologias avançadas ou grandes investimentos. Ao contrário, ela frequentemente emerge de contextos marcados por limitações estruturais, escassez de recursos e desigualdades institucionais. Nesse cenário, inovar é, muitas vezes, reinventar o possível.
A análise da produção científica nacional sobre o tema evidencia um dado importante: há um volume significativo de práticas inovadoras sendo desenvolvidas no país, mas muitas delas permanecem pouco reconhecidas, pouco sistematizadas e pouco compartilhadas (ROSA; SENA; BERTOTTO, 2026, p. 17). Essa constatação desloca o debate da pergunta “os museus brasileiros inovam?” para uma questão mais complexa: por que as inovações existentes ainda são pouco visíveis enquanto conhecimento estruturado?

Como apontado, pelas autoras, as inovações nos museus brasileiros existem, mas permanecem “[…] pouco acessíveis enquanto objeto sistematizado de conhecimento científico” (ROSA; SENA; BERTOTTO, 2026, p. 17). Trata-se, portanto, menos de uma ausência de inovação e mais de um problema de reconhecimento, registro e circulação.
Inovar sem nomear: a inovação silenciosa
Grande parte das experiências identificadas em museus brasileiros não se apresenta explicitamente como inovação. São ações cotidianas como novas formas de mediação, exposições colaborativas, uso criativo de redes sociais ou reorganizações institucionais, que transformam práticas, mas raramente são registradas como processos inovadores.
Esse fenômeno pode ser compreendido a partir de uma concepção ampliada de inovação. De acordo com o Manual de Oslo, inovar envolve a introdução de melhorias significativas em produtos, processos ou formas organizacionais (OCDE; EUROSTAT, 2018). No contexto museal brasileiro, essas melhorias tendem a ser incrementais, adaptativas e profundamente conectadas às realidades locais.
Nesse sentido, muitas práticas observadas se aproximam do conceito de inovação frugal — soluções criativas, de baixo custo e contextualizadas — ainda que esse enquadramento não apareça explicitamente na literatura analisada (ROSA; SENA; BERTOTTO, 2026, p. 16-17; KOERICH; CANCELLIER, 2020).
Quatro caminhos da inovação museal
A literatura recente permite identificar quatro grandes frentes nas quais a inovação tem se manifestado: exposições e curadorias, uso de tecnologias digitais, estratégias de mediação e relação com públicos, e práticas de gestão e políticas museais (ROSA; SENA; BERTOTTO, 2026, p. 14-16).
No campo das exposições e curadorias, observa-se a adoção de narrativas mais participativas, sensoriais e inclusivas, que tensionam modelos tradicionais de representação.
No uso de tecnologias digitais, destacam-se experiências com redes sociais, ambientes virtuais e recursos interativos, ampliando o alcance e as formas de interação com os públicos.
Já nas estratégias de mediação, há um deslocamento do foco no acervo para o foco nos sujeitos, com práticas voltadas à escuta, à acessibilidade e à participação social.
Por fim, as práticas de gestão e políticas museais envolvem ações relacionadas à formação profissional, planejamento institucional e sustentabilidade, ainda que menos visíveis no debate público. Essas frentes dialogam com as dimensões de inovação propostas por Bessant e Tidd (2009), ao evidenciar mudanças em produtos, processos, posicionamentos e paradigmas. No entanto, no contexto brasileiro, essas transformações são atravessadas por um fator central: a necessidade de adaptação às condições concretas de cada instituição.
O papel da gestão da informação
Um dos principais desafios identificados não está na ausência de inovação, mas na ausência de mecanismos que permitam reconhecê-la, organizá-la e disseminá-la. A pesquisa aponta a carência de sistemas informacionais estruturados, repositórios temáticos e ambientes colaborativos voltados à troca de experiências entre museus (ROSA; SENA; BERTOTTO, 2026, p. 11).
Nesse contexto, a gestão da informação assume papel estratégico. Mais do que processos técnicos de organização de acervos, trata-se de estruturar fluxos informacionais que possibilitem registrar práticas, construir indicadores e subsidiar políticas públicas.
Como propõe Cândido (2019), a gestão museológica deve ser compreendida como um processo integrado que envolve diagnóstico, planejamento, participação e avaliação. A inovação, nesse modelo, emerge como resultado de práticas sustentadas pela informação organizada.
Sem essa base, experiências inovadoras permanecem isoladas, dificultando sua replicação e reconhecimento. O resultado é um cenário em que a inovação existe, mas não se consolida como conhecimento compartilhado.

Tendências para os museus brasileiros
A partir desse panorama, algumas tendências se destacam para o futuro dos museus no Brasil. A primeira é a valorização da inovação social e territorial, com fortalecimento de práticas comunitárias, participativas e decoloniais. A segunda envolve o uso crescente de tecnologias digitais, com maior ênfase em acessibilidade, mediação e engajamento.
Destaca-se também a necessidade de criação de redes colaborativas e plataformas de compartilhamento de experiências, capazes de reduzir assimetrias regionais. Outra tendência é o avanço na construção de indicadores de inovação museal, que considerem impactos sociais, culturais e informacionais.
Por fim, observa-se a possibilidade de maior reconhecimento da inovação frugal como característica relevante do campo museológico brasileiro, especialmente em contextos de restrição de recursos.
Essas tendências dialogam com diretrizes recentes de políticas públicas, como o Plano Nacional Setorial de Museus (2025–2035), que reconhece a inovação como eixo estratégico para o setor.

Entre o invisível e o estruturado
O principal desafio para os museus brasileiros não é apenas inovar, mas transformar inovação em conhecimento compartilhado. Isso implica reconhecer que muitas das soluções mais relevantes já estão em prática — ainda que de forma dispersa e pouco visível. Torná-las acessíveis exige investimento em gestão da informação, fortalecimento de redes e desenvolvimento de estratégias de sistematização. Mais do que criar algo novo, o desafio que se coloca para os museus brasileiros é reconhecer, nomear e compartilhar aquilo que já está sendo feito. Em um cenário marcado por desigualdades, a inovação não se manifesta apenas em grandes projetos, mas na capacidade cotidiana de adaptação, escuta e reinvenção. Tornar visíveis essas práticas é, ao mesmo tempo, um gesto técnico, político e informacional — e talvez seja esse o passo decisivo para que o campo museológico brasileiro deixe de apenas inovar em silêncio e passe a construir, de forma coletiva, o seu próprio repertório de futuros possíveis.
Referências:
BESSANT, John; TIDD, Joe. Inovação e empreendedorismo. Porto Alegre: Bookman, 2009.
BRASIL. Ministério da Cultura. Plano Nacional Setorial de Museus – PNSM. Brasil: Ibram, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/museus/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/documentos/plano-nacional-setorial-de-museus-pnsm-2025-a-2035.pdf/view. Acesso em: 16 abr. 2026.
CÂNDIDO, Manuelina Maria Duarte. Gestão de museus, diagnóstico museológico e planejamento: um desafio contemporâneo. 3. ed. Porto Alegre: Padula, 2019. 240 p.
KOERICH, Graziele Ventura; CANCELLIER, Éverton Luís Pellizzaro de Lorenzi. Inovação Frugal: origens, evolução e perspectivas futuras. Cadernos Ebape. Br, Rio de Janeiro, v. 17, p. 1079-1093, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1679-395174424. Acesso em: 16 abr. 2026.
ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE); EUROSTAT. Manual de Oslo: diretrizes para coleta, relato e uso de dados sobre inovação. 4. ed. Brasília: FINEP, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/agu/pt-br/composicao/cgu/cgu/modelos/cti/consulta/manual-de-oslo-ocde-4a-edicao-2018.pdf/view. Acesso em: 16 abr. 2026.
ROSA, Raisa Ramoni; SENA, Priscila Machado Borges; BERTOTTO, Márcia Regina. Inovação em museus no Brasil: análise da produção científica.Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, 2026. Disponível em: https://revistas.ancib.org/tpbci/article/view/810 . Acesso em 16 abr. 2026.
Sobre a autora
Bolsista do Programa de Monitoria de Pós-Graduação e integrante da comissão de eventos do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade do Estado de Santa Catarina. Atuou como museóloga no Sistema Estadual de Museus do Paraná.
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação da Universidade do Estado de Santa Catarina.
Redação: Raisa Ramoni Rosa
Fotografia: Raisa Ramoni Rosa
Diagramação: Marcelly Portela










