
Perspectivas socialistas para a Ciência da Informação: da Informatika soviética à inovação chinesa, por Roberto Lopes dos Santos Junior

Perspectivas socialistas para a Ciência da Informação: da Informatika soviética à inovação chinesa
Roberto Lopes dos Santos Junior
robertolopes@ufpa.br
Entre diferentes contribuições para a consolidação da Ciência da Informação (CI) na segunda metade do século vinte, cita-se ideias e iniciativas oferecidas no antigo bloco comunista, em especial no seu país líder, a União Soviética. Essas contribuições serviram de base para, segundo Pinheiro (2005), o desenvolvimento conceitual da CI nos anos 1960. Uma breve análise tanto do legado soviético quanto das novas perspectivas oferecidas pela China mostram-se interessantes em expandir as abordagens históricas centralizadas no ocidente.
Das bibliotecas à Informação científica
O regime comunista, desde sua ascensão em 1917, sempre deu grande importância para o desenvolvimento científico e tecnológico da Rússia, objetivando tirá-la do atraso ao qual se encontrava. Essa visão seria aproveitada pela bibliotecária, e esposa do líder bolchevique Vladimir Lênin (1870-1924), Nadezhda Krupskaya (1869-1939), a qual junto com outras profissionais como Lyubov Khavkina-Hamburger (1871-1949) e Genrietta Abele-Derman (1882-1954), desenvolveu novas formas de classificação a partir do sistema biblioteco- bibliográfica (BBK), que uniu elementos do Classificação Decimal Universal de Paul Otlet com o Marxismo-leninismo, além de apresentar projetos de reformulação dos currículos em Biblioteconomia e na tentativa de criação de um Sistema Nacional de Bibliotecas Soviéticas (Santos Junior, 2025).
Essa proposta, mesmo com reveses nos anos 1940, permitiu a consolidação de um campo de estudo mais sofisticado para a organização informacional, culminando com a criação do primeiro mestrado em Informação Científica, na Universidade Estatal de Moscou, em 1959.
Expansão, apogeu e redefinições
A partir de 1945, com a URSS consolidada como a segunda superpotência do planeta e imersa na intensa competição científica e tecnológica da Guerra Fria, surgiram discussões no partido comunista sobre como o país deveria lidar com a produção, organização e disseminação de informações no bloco comunista que se delineava. A consolidação da Cosmonáutica, Indústria Nuclear e Computação justificavam a criação de “centros” ou “espaços” onde essa informação deveria ser representada e disponibilizada aos cientistas e sociedade civil(Santos Junior, 2024).

Como principal resposta a essas demandas, em junho de 1952 foi instituído o Instituto Estatal de Informação Científico e Técnica (VINITI), atingindo, em seu ápice, 20 mil funcionários em atividade. Desse direcionamento, a URSS consolidou tanto um “sistema de informação científica” interno quanto, segundo termo de Richards (1999), um “império comunista de informação” em sua área de influência.
A partir de 1966, a URSS guiou seu estudo teórico na nomenclatura Informatika, proposta pelo pesquisador e então diretor do VINITI A. I. Mikhailov (1905-1988) – disciplina que estuda a estrutura, propriedades e atividades da informação científica – sendo a principal vertente de pesquisa em informação no comunismo. As ideias de Mikhailov – mesmo com oposições e críticas sobre um pretensa rigidez em seu escopo – se tornaram consideravelmente influentes fora da esfera comunista, sendo citado por renomadas pesquisadoras brasileiras como Lena Vânia Ribeiro Pinheiro, Isa Maria Freire, Vânia Hermes de Araújo e Cristina Ortega.Pouco do que foi oferecido por Moscou durante o comunismo se manteve após 1991. Os principais organismos soviéticos ou foram extintos ou, como no caso do VINITI, tiveram considerável reorganização estrutural, adaptando suas atividades quase exclusivamente à Federação Russa. No escopo teórico, tanto o BBK quanto a Informatika caíram em desuso tanto na Rússia quanto nos países comunistas remanescentes (Santos Junior, 2021).

Coube a uma geração de experientes pesquisadores ligados à realidade soviética a, por vezes ingrata, missão de redefinir os caminhos teóricos e práticos da área no pós-comunismo. Arkady Chernyi (1929-2013), Ruggero Gilyarevsky (1929-2025), Arkady Sokolov (1934-2023), Arkady Ursul (1936-2020) e Irina Marshakova (1941-2020) foram nomes que readaptaram os serviços informacionais russos e apresentaram uma releitura da Informatika, retirando o caráter marxista-leninista e oferecendo análises mais diversificadas das outrora apresentadas no período soviético (Santos Junior, 2021).

Divulgação: Editora Appris
Novas abordagens no século vinte e um: a Ciência da Informação chinesa
Na República Popular da China, desde 1949 com a liderança do partido comunista, nas últimas décadas vem implementando gigantescos programas de investimento em Ciência e Tecnologia, muitas vezes rivalizando (e, por vezes, até superando) a Europa e os Estados Unidos.
No campo informacional, a China, em um primeiro momento, seguiu por um caminho muitas vezes ecoando práticas e teorias soviéticas, devido a atuação do VINITI em organismos informacionais no país entre 1956-1961. Mas o rompimento sino-soviético (1961-1962) seguido pela Revolução Cultural (1966-1976) impuseram revezes nessas iniciativas. Quase imediatamente após a morte do secretário Geral Mao Tsé Tung, redirecionamentos foram apresentados por seu sucessor Deng Xiaoping.
Nos anos 1980 e 1990, o governo chinês realizou profunda restruturação dos institutos em CI, com novas diretrizes oferecidas em 1992 e 1997, com objetivos de renovação tecnológica e expansão de investimento no campo científico, internacionalizando sua atuação. O Marxismo-leninismo, mesmo diminuído e com uma nova “roupagem”, não seria descartado, mas abordagens soviéticas seriam, discretamente, substituídas por propostas ocidentais ou nativas (Guo; Zhao, 2016).
Atualmente, pesquisas recentes (Zhu, 2025) identificaram limitações, em especial nas disparidades na criação de faculdades em CI em diferentes regiões da China. Mas também foi verificado vertiginoso crescimento de cursos e produção científica e grande variedade de correntes de pesquisa, com direcionamentos ligados a Inovação, Robótica, Inteligência Artificial, Nanotecnologia e Computação Quântica. Foi percebido também profunda inserção de pesquisadores em âmbito internacional, ocupando órgãos de pesquisa multinacionais e participando do corpo editorial de diferentes periódicos estadunidenses.

Caminhos de pesquisa de uma Ciência da Informação “socialista”
Alguns questionamentos, na verdade indicações de novas pesquisas, são sugeridos a partir dessa contextualização: qual o legado da abordagem soviética no campo teórico e prático para a Ciência da Informação brasileira? Sobre a realidade russa, quais caminhos de pesquisa podem ser identificados nas décadas de pós-comunismo? Em relação a China, podemos indicar, em alguma medida, continuidades com o que foi produzido na URSS? Qual o estado da arte da Ciência da Informação chinesa? E podemos identificar uma nova potência que poderá suplantar o então hegemônico cenário estadunidense?
Referências
GUO, F.; ZHAO, R. Analysis and investigation of information science education in China. In: International Conference on Asia-Pacific Digital Libraries (ICADL 2016) / Asia-Pacific Forum of Information Schools (APIS 2016). Proceedings. Tsukuba, 2016.
PINHEIRO, L. V. R. Processo evolutivo e tendências contemporâneas da ciência da informação. Informação e Sociedade, v. 15, n. 1, 2005. Disponível em: https://ridi.ibict.br/bitstream/123456789/23/1/I%26SPinheiro2005.PDF. Acesso em: 19 dez. 2025.
RICHARDS, P. S. The soviet overseas information empire and the implications of its disintegration. In: History and heritage of science information systems. 1998 Conference Proceedings. 1999, p. 206-214.
SANTOS JUNIOR, R. L. Após o comunismo: a Biblioteconomia e Ciência da informação nas antigas repúblicas soviéticas (1991-2021). Revista Conhecimento em Ação, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 193-214, 2021. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/view/44913/0. Acesso em: 20 fev. 2026.
SANTOS JUNIOR, R. L. Informática vermelha: história da computação na União Soviética (1948-1991). Curitiba: Appris, 2024.
SANTOS JUNIOR, R. L.. A informação entre a foice e o martelo: análise histórica do desenvolvimento da Ciência da Informação no bloco comunista (1918-anos 1990). INCID, v. 16, p. 1-25, 2025. Disponível em: https://revistas.usp.br/incid/pt_BR/article/view/225460/218810. Acesso em: 20 jan. 2026.
ZHU, W. How is the development of library and information science in China? Library Hi Tech, v. 43, p. 204–223, 2025. Disponível em: https://www.emerald.com/lht/issue/43/1. Acesso em: 20 fev. 2026.
Sobre o autor
Roberto Lopes dos Santos Junior
Professor da Faculdade de Arquivologia e do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Pará. Líder do grupo de pesquisa Информация – Estudos Epistemológicos em Ciência da Informação.
Doutor e mestre em Ciência da Informação pelo convênio Universidade Federal do Rio de Janeiro e Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Bacharel em Arquivologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Redação: Roberto Lopes dos Santos Junior
Fotografia: Roberto Lopes dos Santos Junior
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










