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v. 4, n. 05, maio 2026
Museum Ludens: O jogo digital como ponte entre o museu e o (não) público – Entrevista com Jessica Botelho

Museum Ludens: O jogo digital como ponte entre o museu e o (não) público – Entrevista com Jessica Botelho

Museum Ludens: O jogo digital como ponte entre o museu e o (não) público – Entrevista com Jessica Botelho

Jéssica Oliveira da Silva Botelho
jessy.13.botelho@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2024, Jessica Oliveira da Silva Botelho defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Patrimônio e Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e do Museu de Astronomia e Ciências Afins, sob orientação da Profa. Dra. Júlia Nolasco Leitão de Moraes.

Natural do Rio de Janeiro, Jessica é bacharela em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e atua como museóloga. Entre seus hobbies estão a leitura, assistir a videoclipes e jogar videogames e jogos digitais.Sua dissertação, intitulada “Museum Ludens: o jogo digital como ponte entre o museu e o (não)público”, investiga como os jogos digitais podem aproximar diferentes públicos dos museus. A pesquisa discute de que modo a experiência de jogar permite criar conexões com objetos, narrativas e histórias presentes nos espaços museológicos. A partir de exemplos como a franquia Assassin’s Creed e Animal Crossing New Horizons, o estudo evidencia como os jogos podem despertar interesse por temas históricos, mitológicos e culturais, favorecendo novas formas de mediação, aprendizagem e relação com o patrimônio preservado nos museus.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Jessica Botelho (JB): Desde criança quis trabalhar em museus e ter a possibilidade de estudar os objetos que eles expõe, então assim que soube que era possível estudar para além da graduação, firmei na minha cabeça o sonho de ir o mais longe possível na área, então fazer o mestrado foi uma parte do meu sonho concluído, assim como a graduação em museologia. O Tema da dissertação é a junção de duas coisas que mais gosto no mundo: Museus e videogames. Ao longo da vida fui percebendo que tanto eu quanto outras pessoas a minha volta aprendiam algumas coisas antes mesmo de verem na escola ou até mesmo o básico de outros idiomas, e inclusive eu reconhecia algumas coisas vistas na graduação a partir de jogos que tive contato, então idealizei que meus trabalhos de conclusão e minha pesquisa seriam voltados a defender como as pessoas poderiam se aproximar do museu a partir do que tem contato e aprendem a partir do jogos digitais.

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?

PJB: Acredito que, além de mim (pois quero continuar a pesquisar sobre a relação dos jogos e dos diversos tipos de público de museus), outros pesquisadores que trabalham com a influência dos jogos digitais na sociedade e nos indivíduos em sua esfera pessoal e social.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

JB: Quero acreditar que, ao trabalhar com a relação entre o que se pode aprender nos videogames e o que se pode ver no museu, meu trabalho engrosse o coro de pesquisadores e profissionais que também acreditam que o jogo pode ajudar a aproximar pessoas e influenciá-las a visitar museus para ver de perto aquilo que viram em formato de pixels em jogos e se interessaram em pesquisar e saber mais.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

JB: Está inserido na linha de Museu e Museologia, pois é a linha que trabalha com a museologia relacionada aos diferentes campos do saber, seu papel no âmbito social, como uma forma de interpretação da realidade e as novas tecnologias de comunicação.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

JB: Desde a Monografia, passando pelo pré-projeto até chegar no trabalho finalizado, uma obra muito importante foi o livro “Homo Ludens: O jogo como elemento da cultura” do historiador holândes Johan Huizinga, que escreve sobre como o jogo está inserido em diversos aspectos da nossa sociedade e cultura. Para a dissertação em específico, três artigos foram importantes, sendo eles “Museu, Informação artística e ‘poesia das coisas” da minha orientadora Prof.ª Julia Moraes, “Público, o X da questão?” de Luciana Sepúlveda e “Museu e Comunicação: exposição como objeto de estudo” Maria Isabel Roque, pois são textos que tratam da definição de públicos de museu e a relação objeto-público, alicerces para embasar a minha defesa do jogo como um meio de aproximar pessoas do museu.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

JB: Os passos foram definidos a partir da definição de quais seriam as questões abordadas e que deveriam ser respondidas a partir do desenvolvimento do trabalho. Identifiquei três questões principais, defini os objetivos para respondê-las e assim pude identificar com facilidade o que precisaria ser feito como metodologia. Foi necessário pesquisa bibliográfica, então li e destaquei o que pude dos autores que tive acesso relacionados ao tema, fiz uma análise descritiva do jogo que usei como exemplo e de como o museu  e suas práticas são representados nele, e por fim entrevistei três voluntários que jogam o jogo em questão e analisei o quanto suas respostas se aproximavam ou não da minha proposta.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

JB: A principal dificuldade foi escrever meu trabalho sem deixar a “Jessica jogadora” tomar conta da minha escrita. Por mais que eu tentasse, em muitos momentos ficava visível que meu gosto pelos jogos falava mais alto que até mesmo minha orientadora percebia, então era um ponto em que eu tentava tomar bastante cuidado mas acabava levando uns “puxões de orelha” nas orientações.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

JB: Eu sinto que foi muito mais transpiração, então dividiria entre 20% inspiração e 80% transpiração. Como já era uma ideia que eu estava amadurecendo desde a graduação, tive bastante tempo para pensar, mas o trabalho em si tive que fazer durante os dois anos de mestrado, sem atraso pois recebia bolsa de incentivo, com aulas online em 2022, quando ainda enfrentávamos as sequelas da quarentena e da pandemia de COVID-19 e, pode parecer besteira, mas ainda tive que manejar minha ansiedade e fobia social, agravados na quarentena e falar com pessoas desconhecidas para entrevistá-las, o que foi bem difícil para mim.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

JB: Escrever uma dissertação e defender suas convicções é algo realmente desgastante, tive noites sem dormir, tive bloqueios de escrita e às vezes pareceu que não conseguiria terminar meu trabalho ou fazer ele bom o suficiente para ser aprovada, mas no final, ao ser aprovada, entregar ele impresso e finalmente conquistar o grau que sonhava foram momentos que compensaram tudo, então posso dizer que foi uma caminhada cansativa, mas com um final feliz e satisfatório para mim.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

JB: Minha mãe, meu irmão e meu noivo foram de grande apoio neste período, inclusive durante o processo seletivo, torcendo por mim e ficando felizes quando consegui ser selecionada. Meu irmão inclusive pode estar presente na minha defesa, mas todos eles sempre acompanharam de perto a evolução do trabalho e não se cansavam em me ouvir falar sobre minha pesquisa e os novos livros que lia para melhorar meu embasamento.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

JB: Por favor, entrem em contato comigo, tenho outras bibliografias sobre a relação do jogo e do digital a oferecer, que não pude utilizar no meu trabalho pois não conversava com meu tema, mas posso passar os nomes e quero ajudar outros mestrandos assim como me ajudaram quando estava escrevendo meu trabalho. É muito importante e faz uma diferença enorme fazer esse networking bibliográfico, sou muito grata até mesmo pelas indicações que não usei, pois foram enriquecedoras academicamente.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?JB: Tenho alguns artigos começados, mas publiquei apenas um com a coautoria da minha orientadora. Foi publicado no XXIV ENANCIB (Encontro Nacional da Pesquisa em Ciência da Informação) de 2025, intitulado “Imaginação museal e jogos digitais: Animal Crossing New Horizons e a conformação de público(s) efetivo(s) de museus”, fiquei realmente orgulhosa de ter meu artigo aprovado para publicação e perceber que era um tema com bastante interessados.

Jéssica Botelho com sua dissertação encadernada, intitulada “Museum Ludens”

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

JB: Nesse meio tempo arranjei um emprego fora da minha área, por dificuldades em encontrar vagas dentro dela, porém não desisti do meu objetivo de trabalhar em um museu. Continuo fazendo cursos online relacionados a museologia, a comunicação e outras disciplinas que se relacionam e buscando meu espaço na área.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

JB: Pretendo fazer e no mesmo programa inclusive. Mas sinto que o tema de anteprojeto que desenvolvi até agora ainda não está bom o suficiente para desenvolver uma tese. Continuo lendo bibliografias relacionadas e buscando novos autores, para que eu consiga apresentar um bom anteprojeto na seleção.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

JB: Alguns livros e textos eu teria lido logo no início e não teria me apegado tanto a algumas referências que havia usado antes. Aprendi que é bom se aventurar em referências novas e faz parte do amadurecimento acadêmico perceber  que podemos ter novas visões sobre o mesmo assunto com o passar do tempo e a partir de novos conhecimentos.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

JB: O programa me proporcionou conhecer novos profissionais tanto da museologia como de outras áreas, além do suporte financeiro para poder concluir essa etapa. Acredito que o próprio trabalho finalizado e aprovado em si já é um retorno que damos para a academia, pois sem sua aprovação, o trabalho é entendido como não pertinente para ela. Tudo que desenvolvemos a partir da formação também entendo como uma forma contribuir para o Programa que um dia fizemos parte.

DC: Você por você:

JB: Confesso que é difícil para mim definir a mim mesma, mas acredito que posso dizer que sou uma pessoa que quando começa algo, dificilmente desiste, desde um livro ruim até mesmo quando pensei que não conseguiria terminar a graduação. Sou apegada às coisas e lugares que gosto, e isso se reflete nas minhas pesquisas. Acho que é mais fácil me entender pelas coisas que falo, produzo e demonstro do que por um definição minha, já que tenho dificuldades. 


Entrevistado: Jessica Oliveira da Silva Botelho
Entrevista concedida em:  14 de abril de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Portela
Fotografia: Renato Bruno Lopes Coimbra Setúbal
Diagramação: Marcelly Portela

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