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v. 4, n. 05, maio 2026
Editorial: 160 anos do Museu Paraense Emílio Goeldi: memória e ciência sob o olhar de um bibliotecário amazônida, por Rodrigo Oliveira de Paiva

Editorial: 160 anos do Museu Paraense Emílio Goeldi: memória e ciência sob o olhar de um bibliotecário amazônida, por Rodrigo Oliveira de Paiva

Editorial: 160 anos do Museu Paraense Emílio Goeldi: memória e ciência sob o olhar de um bibliotecário amazônida, por Rodrigo Oliveira de Paiva

Rodrigo Oliveira de Paiva
rodrigopaiva522@gmail.com

Em maio, celebra-se o Dia Internacional dos Museus, um momento que convida à reflexão sobre o papel dessas instituições na sociedade. É nesse contexto que trago à cena o Museu Paraense Emílio Goeldi, a partir do meu olhar enquanto bibliotecário que atua há 13 anos na instituição, vivenciando cotidianamente os desafios de produzir, preservar e mediar conhecimentos sobre a Amazônia.

Ao completar, em 2026, 160 anos de existência, o Museu Paraense Emílio Goeldi reafirma-se como uma das mais antigas e relevantes instituições científicas do Brasil. Fundado em 1866, no contexto do Segundo Reinado, nasceu com a missão de compreender e dar visibilidade à complexidade da Amazônia, tornando-se, ao longo de sua trajetória, referência na articulação entre ciência, cultura e sociedade.

Museu Goeldi. Prédio da Rocinha / Divulgação: ASCOM/MCTI (2025)

Sua história é marcada por importantes nomes como do zoólogo suíço  Emílio Goeldi, responsável por projetar a instituição no cenário científico internacional. Hoje, o Museu se fundamenta como um complexo que integra laboratórios, coleções científicas e espaços expositivos, desenvolvendo investigações em áreas como botânica, zoologia, ecologia, geologia, arqueologia, antropologia e linguística.

Um dos grandes patrimônios do Museu Paraense Emílio Goeldi são suas coleções científicas, que reúnem acervos biológicos, arqueológicos, etnográficos e documentais. Essenciais à pesquisa, esses registros preservam a memória da Amazônia e sustentam o avanço do conhecimento científico.

Nesse contexto, atuar como bibliotecário em um museu de ciências humanas e naturais é habitar uma fronteira interdisciplinar. E, no meu caso, é também afirmar-me como um bibliotecário amazônida, alguém cuja prática profissional está enraizada no território, nas culturas e nas dinâmicas da Amazônia. Ser um bibliotecário amazônida significa compreender que a informação não se limita aos suportes formais, mas circula nos saberes tradicionais, nas oralidades, nas experiências de povos indígenas e comunidades locais, pedindo, também, uma escuta sensível e um compromisso ético com a diversidade de conhecimentos.

Como chefe da biblioteca do Museu Goeldi, vivencio diariamente a responsabilidade de cuidar não apenas de livros, periódicos e mapas, mas de uma herança intelectual que atravessa gerações de pesquisadores, comunidades tradicionais e múltiplos saberes.

Biblioteca do Museu Goeldi / Divulgação: Rodrigo Paiva (2026)

A biblioteca do Museu Paraense Emílio Goeldi é, simultaneamente, guardiã da memória e promotora do futuro, articulando preservação e inovação em um mesmo espaço de atuação.

Aqui, o usuário não é apenas um leitor: é um cientista em busca de dados precisos, um estudante em formação, um curador, um técnico de campo, um indígena pesquisador ou mesmo um visitante movido pela curiosidade. Essa diversidade de perfis redefine continuamente nossas práticas e amplia o sentido do que entendemos por acesso à informação.

É nesse universo dinâmico que a biblioteca se consolida como um dos pilares da produção científica institucional. Seu acervo ultrapassa 350 mil exemplares, entre livros, periódicos e mapas, refletindo a profundidade e a continuidade das pesquisas realizadas na Amazônia ao longo de mais de um século. Trata-se de uma coleção construída historicamente por expedições científicas, redes de intercâmbio internacional e pela própria produção intelectual do Museu, um patrimônio que sustenta, inspira e projeta o conhecimento amazônico para o mundo.

Entre esses exemplares, destacam-se documentos cartográficos de grande relevância, como o mapa etno-histórico elaborado pelo etnólogo alemão Curt Nimuendajú, reconhecido pela UNESCO no programa Memória do Mundo em nível internacional. Esse reconhecimento coloca um documento salvaguardado em uma instituição da Amazônia num patamar de relevância global, ao lado de obras emblemáticas da história, como a Bíblia de Gutenberg. O acervo da biblioteca do Museu Goeldi, por si só, traduz a riqueza e a complexidade da Amazônia. A biblioteca não é apenas um espaço de guarda: é um território de produção de sentidos, onde diferentes temporalidades e saberes se encontram.

Folha de rosto da obra “Delle navigationi et viaggi”, de Giovanni Battista Ramusio, datada de 1554  / Divulgação: Rodrigo Paiva (2026)

É nesse cenário que se insere a coleção de obras raras, um dos conjuntos mais preciosos do Museu. Esse acervo reúne publicações que atravessam séculos e revelam os primeiros registros sobre o chamado “Novo Mundo”, além de obras fundamentais para a história da ciência. Entre elas, destaca-se uma das publicações mais antigas da biblioteca, datada de 1554, do viajante e compilador italiano Giovanni Battista Ramusio. Seu trabalho reúne narrativas de viagem que ajudaram a construir as primeiras representações europeias sobre as Américas, sendo hoje uma fonte histórica de valor inestimável.

A coleção de obras raras abrange ainda publicações dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, contemplando diferentes momentos da história do conhecimento científico e das relações entre Europa e Amazônia. São obras que registram expedições, descrevem espécies, interpretam culturas e revelam modos de pensar que, mesmo datados, continuam a dialogar com o presente. Para garantir a preservação desse patrimônio, o Museu dispõe atualmente de uma sala cofre, especialmente projetada para proteger esses tesouros bibliográficos. Com controle de temperatura, umidade e segurança, esse espaço assegura a integridade física das obras, reconhecendo seu caráter único. 

As transformações tecnológicas também ampliaram o alcance da biblioteca. Com a consolidação do repositório institucional, a produção científica do Museu Goeldi passou a circular em escala global, fortalecendo o acesso aberto e o intercâmbio acadêmico. Essa abertura é essencial para que o conhecimento produzido na Amazônia converse com o mundo, sem perder suas raízes locais.

Coleção de entomologia do Museu Goeldi /Divulgação: Rodrigo Paiva (2026)

Outra situação significativa é o projeto de organização de uma biblioteca na Estação Científica Ferreira Penna, na Floresta Nacional de Caxiuanã. Em meio à floresta, esse espaço representa a expansão do acesso à informação para além dos centros urbanos, apoiando diretamente as atividades de pesquisa de campo e reforçando o compromisso com uma ciência conectada ao território.

Ao celebrar seus 160 anos, o Museu Paraense Emílio Goeldi reafirma sua missão de produzir, preservar e compartilhar conhecimentos sobre a Amazônia. Sua biblioteca, com seus mais de 350 mil exemplares e coleções singulares, materializa esse compromisso, conectando passado, presente e futuro em uma mesma tessitura de saberes.

Trabalhar nesse espaço é, acima de tudo, reconhecer o papel do conhecimento como canal de transformação. Entre mapas que redesenham territórios, livros que atravessam séculos e pesquisas que apontam novos caminhos, seguimos construindo, diariamente, uma ciência que nasce na Amazônia e dialoga com o mundo.

Sobre o autor:

Rodrigo Oliveira de Paiva

Chefe do Serviço de Biblioteca do Museu Goeldi. Membro do Grupo de Pesquisa “Vestígios – Grupo de Pesquisa Comunicação, Linguagens, Discursos e Memórias na Amazônia” da Universidade Federal do Pará.

Doutor em Ciências da Comunicação pelo Programa de Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará. Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Pará. Bibliotecário pela Universidade Federal do Pará. 


Redação: Rodrigo Oliveira de Paiva
Fotografia: Rodrigo Oliveira de Paiva
Diagramação: Naiara Raissa da Silva Passos

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