
A Coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil e os livros como patrimônio cultural – Entrevista com Gabriela de Carvalho Cafruni

A Coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil e os livros como patrimônio cultural – Entrevista com Gabriela de Carvalho Cafruni
Gabriela de Carvalho Cafruni
gabrielacafruni@gmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Gabriela de Carvalho Cafruni defendeu sua dissertação pelo Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), sob orientação do Dr. Hilário Figueiredo Pereira Filho.
Natural de São Paulo, Gabriela fez sua formação em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Universidade Federal de São Carlos, com período de intercâmbio na Universidade do Porto (Portugal). Entre seus hobbies está o planejamento de viagens.
Sua dissertação, intitulada “A Coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil: significados e repercussões no Museu Chácara do Céu”, investigou os livros como parte do patrimônio cultural a partir do estudo da coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, preservada no Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro. Criada por iniciativa de Raymundo Ottoni de Castro Maya, a Sociedade reuniu cem participantes e produziu uma coleção de 23 livros ao longo do século XX, articulando literatura, artes visuais e produção editorial. Entre as obras está “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, ilustrada por Cândido Portinari. A pesquisa evidencia que os livros preservam não apenas textos, mas também memórias e aspectos da história da arte, da cultura e da produção editorial brasileira.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
GC: Acredito que, antes de falar sobre a escolha da dissertação, vale explicar como o patrimônio entrou na minha trajetória. Hoje percebo que ele esteve presente nas principais escolhas que fiz durante a graduação. Sempre que surgia a oportunidade de escolher um estágio, um projeto de extensão ou alguma atividade, eu acabava seguindo por esse caminho.
Logo no primeiro semestre da faculdade, comecei um estágio voluntário na Unidade Especial de Informação e Memória da UFSCar. Foi ali que tive meu primeiro contato com atividades de preservação de acervos. Depois, tomei a iniciativa de desenvolver um projeto de extensão voltado à preservação e à higienização de um acervo fotográfico e, mais tarde, estagiei em uma fazenda histórica. Como também tinha formação técnica em Design Gráfico, essas experiências despertaram meu interesse pela materialidade dos documentos, pelas técnicas envolvidas em sua produção e preservação e pelas histórias que eles carregam.
Quando surgiu a oportunidade de ingressar no Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural do IPHAN, percebi que o programa reunia exatamente os temas que eu vinha buscando desde a graduação. A escolha acabou sendo muito natural.
O tema da dissertação, porém, surgiu de forma inesperada. No início do mestrado, eu pesquisava controle bibliográfico, tema que também fazia parte das atividades que desenvolvia no programa. Durante um período de aulas no Rio de Janeiro, aproveitei um sábado chuvoso para visitar o Museu Chácara do Céu. Não era uma atividade do mestrado; fui por curiosidade. Ao conhecer a coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil e ler uma pequena placa sobre sua história, saí do museu com mais perguntas do que respostas. Aquela curiosidade continuou me acompanhando nos dias seguintes e percebi que ali existia uma pesquisa que eu gostaria de desenvolver. Conversei com meu orientador, ele apoiou a mudança e foi assim que começou a nascer o tema da dissertação.
Digo que começou porque, no início, eu queria tudo. Queria estudar a coleção, conhecer melhor os membros da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, compreender como os livros eram produzidos, quem participava desse processo e como tudo isso se conectava ao Museu Chácara do Céu. Quanto mais eu pesquisava, mais possibilidades apareciam. Foi somente durante a qualificação que consegui definir o recorte que deu origem à dissertação. Mesmo assim, essa foi uma das etapas mais desafiadoras da pesquisa, porque a vontade era de abraçar todos aqueles caminhos.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
GC: Espero que a pesquisa contribua para ampliar o conhecimento sobre uma coleção ainda pouco estudada e incentive o desenvolvimento de novas pesquisas sobre o tema. Acredito que seus resultados possam ser úteis especialmente para os museus, ao reforçar a importância da pesquisa sobre seus próprios acervos, mas também para estudantes e pesquisadores interessados em patrimônio cultural, Biblioteconomia e Museologia.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
GC: Acredito que a principal contribuição da dissertação foi reunir e organizar informações que estavam dispersas sobre a coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, oferecendo uma nova perspectiva sobre sua importância para o patrimônio cultural brasileiro.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
GC: A pesquisa se insere na linha **Patrimônio Cultural: Instrumentos, Informação e Desenvolvimento**, ao trabalhar com informações, registros e documentação como formas de compreender, interpretar e preservar o patrimônio cultural.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
GC: Uma das ações mais decisivas para a pesquisa foram as visitas às instituições que preservam exemplares da coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. Esses momentos possibilitaram o contato direto com os livros, documentos e outros registros relacionados à coleção, permitindo observar aspectos que dificilmente seriam percebidos apenas por meio de fontes bibliográficas.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
GC: A pesquisa foi construída em diferentes etapas. Primeiro, realizei visitas às instituições que preservam exemplares da coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, com o objetivo de conhecer de perto os livros e os documentos relacionados ao acervo. Em seguida, fiz um levantamento de informações em diferentes fontes, como jornais da época disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, documentos institucionais e referências bibliográficas sobre a coleção.
Essas informações foram organizadas e analisadas para compreender a origem da Sociedade, sua atuação, o processo de produção dos livros e sua relação com o patrimônio cultural brasileiro.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
GC: Uma das maiores dificuldades foi mudar meu olhar sobre o objeto de pesquisa. No início, eu estava muito encantada com a coleção, e isso acabava se refletindo na escrita. Durante a qualificação, percebi que precisava ir além da admiração e analisar o tema de forma mais crítica, buscando compreender também suas contradições, limites e diferentes possibilidades de interpretação.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
GC: Acho que essa resposta mudou ao longo do mestrado. No início, era praticamente 100% transpiração. Durante as atividades supervisionadas, eu trabalhava com controle bibliográfico e pretendia seguir por esse tema. Tudo mudou depois de uma visita ao Museu Chácara do Céu. Foi ali que conheci a coleção da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil e, naquele momento, foi quase 100% inspiração.
Decidi mudar completamente o tema da dissertação e, ao mesmo tempo, surgiu a dúvida se conseguiria concluir a pesquisa dentro do prazo. Com o tempo, inspiração e transpiração encontraram um equilíbrio. A curiosidade deu o impulso inicial, mas foram o estudo, as visitas, a pesquisa em documentos históricos e a escrita que deram forma à dissertação.
Entre as dificuldades, destaco o início do mestrado durante a pandemia, que alterou o cronograma e adiou as atividades presenciais, além do desafio de definir o recorte da pesquisa e desenvolver um olhar mais crítico sobre o tema.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
GC: Se eu pudesse deixar uma mensagem para quem está começando um mestrado, diria para não ter medo de mudar de rota. Nem sempre a melhor pesquisa é aquela que imaginamos no primeiro projeto. Às vezes, ela surge de uma pergunta inesperada ou de uma curiosidade que insiste em permanecer.
Também aprendi que a pesquisa não termina na defesa. Ela continua nas conversas, nas novas perguntas que surgem e nas pessoas que passam a conhecer aquele tema a partir do nosso trabalho.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
GC: Foi tranquilo, pois sempre tive o apoio da minha família. Eles acompanharam de perto essa etapa da minha trajetória e foram fundamentais para que eu pudesse me dedicar à pesquisa e concluir o mestrado.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
GC: Eu recomendaria que outros pesquisadores mantivessem a curiosidade e estivessem abertos às possibilidades que surgem ao longo da pesquisa. Muitas vezes, um objeto, um documento ou uma coleção pode revelar histórias que ainda não foram exploradas. Também destacaria a importância de olhar para diferentes tipos de acervo como fontes de conhecimento.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
GC: Durante o mestrado, minha produção científica esteve concentrada no desenvolvimento da pesquisa e na elaboração da dissertação. Ainda não publiquei trabalhos derivados diretamente desse estudo, mas considero que o tema apresenta muitos caminhos a serem explorados, inclusive questões que precisaram ficar fora do recorte adotado. Pretendo retomar essas possibilidades em futuras produções.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
GC: Atuei em Salvador como Técnica Superior em Organização e Gestão da Cultura, trabalhando com políticas públicas de livro, leitura e bibliotecas. Embora tenha sido uma experiência temporária, ela ampliou minha atuação na área cultural e aproximou a pesquisa acadêmica da prática profissional. Atualmente, busco dar continuidade à minha trajetória nas áreas de Biblioteconomia, Patrimônio Cultural e gestão cultural.
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
GC: Essa é uma pergunta que eu mesma tenho dificuldade de responder. Hoje, diria que não pretendo fazer doutorado, mas aprendi a não confiar tanto nas minhas próprias certezas.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
GC: Se eu tivesse a oportunidade de começar novamente, provavelmente faria muitas coisas de forma diferente, porque hoje tenho uma visão que só foi construída ao longo do processo. Mas também acredito que a pesquisa não teria necessariamente o mesmo resultado. Poderia ter sido melhor ou pior, mas certamente seria outra.
Muitas das escolhas, dúvidas e mudanças de percurso fizeram parte da construção da dissertação e contribuíram para que ela tivesse a identidade que tem hoje. O principal aprendizado foi compreender que a pesquisa não segue uma receita pronta e que o próprio caminho percorrido também faz parte do resultado.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
GC: O Programa de Pós-Graduação me proporcionou uma formação interdisciplinar e ampliou meu olhar sobre o patrimônio cultural. Em contrapartida, acredito que também contribuí ao levar a perspectiva da Biblioteconomia para as discussões sobre patrimônio, especialmente no que se refere aos acervos, à informação e à preservação.
DC: Você por você:
GC: Sou uma mistura de curiosidade e movimento. Tenho uma relação muito forte com as histórias: as que encontro nos livros, as que preservo por meio do patrimônio e as que vou construindo ao longo do caminho. Acredito que cada experiência acrescenta uma nova camada à pessoa que sou.
Entrevistada: Gabriela de Carvalho Cafruni
Entrevista concedida em: 03 de agosto de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Gabriela de Carvalho Cafruni
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela










