• contato@labci.online
  • revista.divulgaci@gmail.com
  • Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho - RO
v. 4, n. 08, ago. 2026
Musealização e Saberes Locais no Geopark Araripe – Entrevista com Ranielle Figueiredo

Musealização e Saberes Locais no Geopark Araripe – Entrevista com Ranielle Figueiredo

Musealização e Saberes Locais no Geopark Araripe – Entrevista com Ranielle Figueiredo

Ranielle Menezes de Figueiredo
ranielle.figueiredo@ufop.edu.br

Sobre a entrevistada

Em 2024, Ranielle Menezes de Figueiredo defendeu sua tese pelo Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Museu de Astronomia e Ciências Afins, sob orientação da Profa. Dra. Deusana Maria da Costa Machado e coorientação do Prof. Dr. Rafael Celestino Soares.

Natural de Brejo Santo (CE), Ranielle é professora do Departamento de Museologia da Universidade Federal de Ouro Preto. Entre seus hobbies está a pintura, atividade que também dialoga com seu interesse pelas expressões culturais.

Sua tese, intitulada “Cavaqueando com os saberes tradicionais: uma proposta de musealização do Geopark Araripe sob o olhar da comunidade local”, investigou as relações entre comunidades do sul do Ceará e os fósseis e demais patrimônios naturais do Geopark Araripe. A pesquisa evidenciou que esses bens assumem diferentes significados para os moradores, relacionados à memória, identidade, história de vida e formas de sustento. Como resultado, propõe incorporar os saberes tradicionais à musealização, fortalecendo ações educativas e inclusivas.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?

Ranielle Menezes (RM): Decidi fazer doutorado porque sentia a necessidade de aprofundar minhas pesquisas e contribuir para a Museologia a partir da minha própria trajetória. Saí do Ceará ainda muito jovem para estudar e sempre estive vinculada a universidades públicas. Com o tempo, surgiu um desejo cada vez maior de compreender melhor minhas origens, minha região e as pessoas que fazem parte dessa história. Desde criança eu ouvia falar dos fósseis do Cariri, mas conhecia apenas superficialmente sua importância científica, cultural e social. Ao me aproximar desse universo, percebi que havia muito mais do que um patrimônio geológico de relevância internacional: existiam comunidades, saberes tradicionais e modos de vida que, muitas vezes, permaneciam à margem das narrativas oficiais sobre o território.

Foi dessa inquietação que nasceu o tema da minha tese. Meu objetivo passou a ser compreender como a Museologia poderia dialogar com essas comunidades e contribuir para processos de musealização mais participativos, em que os conhecimentos locais fossem reconhecidos e valorizados. Mais do que eu estudar o Geopak Araripe, eu queria investigar as relações estabelecidas entre patrimônio, território e população, buscando construir uma proposta que colocasse os moradores como protagonistas na produção e na comunicação desse patrimônio.

Assim, o doutorado representou não apenas uma etapa da minha formação acadêmica, mas também um reencontro com minhas raízes e uma oportunidade de devolver à minha região um conhecimento construído em diálogo com aqueles que vivem e dão significado a esse território.

DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e  conclusões alcançados?

RM: Acho que tive essa certeza quando fui a campo. Foi no contato direto com as comunidades, ouvindo suas histórias, acompanhando seus cotidianos e compreendendo as relações construídas ao longo de gerações, que percebi que havia, de fato, uma tese. Até então, eu tinha um problema de pesquisa e muitas inquietações, mas foi a experiência de campo que deu sentido a tudo. Ao mergulhar nas histórias de vida das pessoas, compreendi que a verdadeira Museologia e o verdadeiro significado do patrimônio não estão apenas nos objetos ou nos lugares, mas, sobretudo, nos encontros, na escuta sensível e na participação. A pesquisa me mostrou que o patrimônio se constrói na relação entre comunidades, universidade, pesquisa científica e saberes locais, em um diálogo no qual diferentes formas de conhecimento se complementam e se fortalecem.

À medida que fui conhecendo as trajetórias dos moradores, suas memórias, seus modos de interpretar o território e as conexões que estabelecem com o Geopark Araripe, a pesquisa foi ganhando consistência. As narrativas revelavam dimensões que dificilmente seriam percebidas apenas pela literatura ou pela observação distante. Nesse momento, entendi que a tese não era apenas sobre a musealização de um território, mas sobre a construção coletiva de sentidos, mostrando que processos participativos podem transformar a forma como compreendemos, preservamos e comunicamos o patrimônio.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

RM: Sem dúvida, a tese de doutorado de Aline Rocha de Souza Ferreira de Castro, intitulada “O patrimônio geológico sob a perspectiva da população residente no município de Santana do Cariri, Ceará, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação do professor Ismar de Souza Carvalho, foi uma das principais referências para a construção da minha pesquisa. O trabalho da Aline foi pioneiro ao demonstrar que a compreensão do patrimônio geológico não pode se restringir ao olhar técnico ou científico. Ao investigar como a população de Santana do Cariri percebe e atribui significado à geodiversidade, ela evidenciou que as comunidades possuem formas próprias de compreender e valorizar esse patrimônio. Essa perspectiva foi decisiva para a minha tese. 

DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?

RM: Acredito que o principal ineditismo da minha tese esteja na forma como ela propõe pensar a musealização de um território: não apenas a partir do conhecimento científico, mas do diálogo efetivo entre a ciência e os saberes tradicionais. Em muitos museus de ciência e museus universitários, são desenvolvidas pesquisas de enorme relevância para a produção do conhecimento. No entanto, frequentemente esquecemos que esses museus estão inseridos em comunidades que também produzem conhecimento, acumulado e transmitido de geração em geração.

Esses saberes locais são fundamentais para compreender e preservar o patrimônio, mas nem sempre encontram espaço nos processos de pesquisa, nas narrativas museológicas ou nas ações de preservação. Minha tese parte justamente da premissa de que as comunidades não devem ser apenas fontes de informação ou público das instituições, mas participantes ativos na construção do conhecimento e das práticas de musealização.

O trabalho de campo foi essencial para isso. Conversar com as pessoas, ouvir suas histórias, compreender suas formas de viver, interpretar e se relacionar com o território revelou dimensões do patrimônio que dificilmente seriam percebidas apenas pelo olhar acadêmico. A pesquisa mostrou que o patrimônio ganha novos significados quando reconhecemos que diferentes formas de conhecimento podem dialogar em condições de respeito e reciprocidade.

Nesse sentido, considero que a tese contribui para aproximar a Museologia, a Ciência da Informação e as Geociências de uma perspectiva mais participativa e colaborativa. Ela propõe que ultrapassemos os limites físicos e simbólicos da universidade, dos museus e dos espaços institucionais para construir conhecimento com as comunidades, e não apenas sobre elas. Afinal, preservar o patrimônio também significa reconhecer e valorizar aqueles que historicamente lhe atribuem sentido e garantem sua continuidade.

DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?

RM:  Acredito que minha tese pode ser útil à sociedade por reforçar a importância de incluir as comunidades nos processos de preservação e valorização do patrimônio. Foram muitos meses de escuta e diálogo, e percebi que as pessoas sentem falta de serem ouvidas e reconhecidas como parte das decisões sobre os territórios onde vivem. Ao valorizar seus saberes, suas memórias e suas experiências, a pesquisa demonstra que a construção do conhecimento e das ações de preservação se torna mais rica, democrática e significativa. No fim, a maior contribuição da pesquisa talvez seja lembrar algo que, por vezes, a academia esquece: antes de qualquer teoria ou metodologia, existem pessoas. São elas que atribuem significado ao patrimônio, preservam memórias, constroem identidades e garantem que esse legado continue vivo para as próximas gerações. 

DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?

RM: A principal contribuição da minha tese é demonstrar que a musealização de um território se fortalece quando é construída de forma participativa, integrando o conhecimento científico aos saberes tradicionais. A pesquisa evidencia que as comunidades não devem ser vistas apenas como público ou objeto de estudo, mas como protagonistas na produção de conhecimento e na preservação do patrimônio. Ao propor essa aproximação entre universidade, museus e comunidade, a tese oferece uma perspectiva que pode orientar pesquisas, ações museológicas e políticas de preservação mais inclusivas e socialmente comprometidas. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

RM: Essa foi, sem dúvida, a parte mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais bonita da pesquisa. Fazer trabalho de campo significou voltar no tempo e me reencontrar em um território que também era meu, mas que havia ficado distante depois de tantos anos vivendo em outras cidades. Antes mesmo das entrevistas, foram muitas caminhadas, visitas e conversas pelo Cariri. Eu precisava compreender aquele lugar novamente e descobrir o que realmente queria investigar. Foi desse processo que nasceu o título da tese, Cavaqueando com os saberes tradicionais. “Cavaquear”, para nós, significa conversar, e foi exatamente isso que fiz: foram muitos cafés, muitas prosas e muita escuta até que o objeto de pesquisa se revelasse. Só então defini as entrevistas como principal metodologia, porque entendi que as respostas que eu buscava estavam nas pessoas e nas histórias que elas tinham para contar. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?

RM: Diria que foi 50% inspiração e 50% transpiração. A pesquisa exigiu muito trabalho, planejamento e persistência, mas também foi profundamente transformadora. Voltar ao Ceará, percorrer novamente o Cariri e desenvolver minha pesquisa em um território que faz parte da minha história foi um privilégio. Mais do que realizar uma investigação acadêmica, vivi um reencontro com minhas origens. Além disso, poder proporcionar aos meus filhos a experiência de morar, ainda que por um período, na terra onde nasci foi uma das maiores emoções da minha trajetória. Houve desafios, como em qualquer doutorado, mas eles foram superados pelo significado que essa pesquisa teve para a minha vida pessoal e profissional. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?

RM: A maior dificuldade foi conciliar a pesquisa com a maternidade. Sou mãe de duas crianças pequenas e, durante o trabalho de campo, convivi com o sentimento constante de culpa por passar longos dias pesquisando enquanto meus filhos ficavam em casa. Essa experiência me fez refletir sobre como ainda é desafiador ser mulher, mãe, esposa e pesquisadora. Só consegui chegar até a defesa porque tive uma rede de apoio extraordinária. Minha família acreditou no meu sonho, cuidou dos meus filhos e esteve ao meu lado em todos os momentos. Por isso, embora a tese tenha o meu nome na capa, essa conquista é coletiva e pertence a todos que caminharam comigo. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?

RM: A pesquisa acabou fortalecendo ainda mais os meus laços familiares. Minha família compreendeu a importância desse sonho e caminhou comigo durante todo o doutorado, oferecendo acolhimento, incentivo e apoio nos momentos mais desafiadores. Ao mesmo tempo, voltar ao Ceará para desenvolver a pesquisa me aproximou das minhas origens e me permitiu compartilhar essa experiência com meus filhos. No fim, percebi que o doutorado não foi uma conquista individual, mas uma construção coletiva, que nos tornou ainda mais unidos e mostrou que, quando caminhamos juntos, somos mais fortes. 

DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?

RM: A maior dificuldade da pesquisa foi conquistar a confiança das pessoas. O trabalho de campo aconteceu logo após o período mais crítico da pandemia de COVID-19, quando ainda havia muito receio em relação ao contato com desconhecidos. Além disso, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), indispensável para a pesquisa, despertava desconfiança. Na época, muitas pessoas da região haviam sido vítimas de golpes envolvendo assinaturas em documentos, o que tornava compreensível o medo de participar. Por isso, antes de entrevistar, precisei construir relações. Passei um tempo me apresentando às comunidades, conversando, participando do cotidiano e até concedendo entrevistas em rádios locais para explicar quem eu era e o objetivo da pesquisa. Um episódio resume bem esse processo: um morador recusou meu convite para participar da pesquisa, mas, alguns dias depois, me encontrou debaixo de uma árvore e disse: “Ei, agora eu quero dar entrevista. Está todo mundo dando, eu também quero fazer parte”. Naquele momento, percebi que a pesquisa havia deixado de ser apenas minha. Eu tinha conquistado a confiança das pessoas, e isso foi, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior conquista do trabalho de campo. 

DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?

RM: Assim que concluí o doutorado, direcionei meus esforços para outro grande objetivo: tornar-me professora universitária. Sempre acreditei que a pesquisa, o ensino e a extensão caminham juntos, e desejava construir minha trajetória em uma universidade pública. Em 2025, esse sonho se realizou com minha aprovação em concurso para professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Hoje, meu objetivo é continuar desenvolvendo pesquisas na área da Museologia, formando novos profissionais e fortalecendo o diálogo entre a universidade e a sociedade. 

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

RM: Sinceramente, acho que não faria nada diferente. É claro que cometi erros e enfrentei dificuldades, mas cada um deles me ensinou algo e ajudou a construir a pesquisadora que sou hoje. Quando fecho os olhos e revisito essa trajetória, percebo que faria o mesmo caminho novamente, porque foi justamente o processo, com suas incertezas, encontros, desafios e descobertas, que deu sentido à tese. Aprendi que pesquisar exige planejamento, mas também abertura para mudar de rota, ouvir as pessoas e permitir que o campo transforme o pesquisador tanto quanto o pesquisador busca compreender o campo. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

RM: Durante o doutorado, minha prioridade foi a construção da pesquisa de campo e da tese. Por isso, embora tenha publicado alguns artigos e apresentado trabalhos em eventos científicos, reconheço que não consegui dedicar à produção bibliográfica o tempo que gostaria. O trabalho de campo exigiu uma imersão profunda, e conciliar essa etapa com a maternidade e as demais atividades acadêmicas foi um grande desafio. Agora, com mais tranquilidade e maturidade, tenho retomado os resultados da pesquisa para transformá-los em artigos científicos e ampliar o alcance das discussões iniciadas na tese. Acredito que esse é um processo natural: algumas pesquisas continuam produzindo frutos por muitos anos após a defesa.

DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?

RM: Sim. Durante o doutorado, tive a oportunidade de atuar como monitora em duas disciplinas, experiências que contribuíram significativamente para minha formação docente. A primeira foi na disciplina Ação Cultural e Educativa nos Museus I, ministrada pela professora Cristina Valença, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), para o curso de Museologia. A segunda foi na disciplina Paleontologia, ministrada pelo professor Leonardo Monteiro, na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), para o curso de Biologia.

DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?

RM: Sim. As experiências de monitoria contribuíram para minha tese ao ampliar meu olhar sobre as práticas educativas e a mediação do conhecimento, além de fortalecer minha formação docente e minha capacidade de dialogar com diferentes públicos e áreas do conhecimento.

DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

RM: Eu recomendaria, acima de tudo, ter paciência e respeitar o tempo da pesquisa. Quando o trabalho envolve comunidades, é fundamental compreender que o ritmo do processo não é determinado pelo pesquisador, mas, muitas vezes, pelo próprio grupo. Construir relações de confiança, ouvir e estar disponível para o diálogo demanda tempo, mas é justamente isso que torna a pesquisa mais ética, sensível e significativa.

DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?

RM: Acredito que a relação entre orientador e orientando deve ser baseada em confiança, diálogo, respeito e parceria. Tive a felicidade de vivenciar essa experiência durante o doutorado. Minha orientadora, a professora Deusana Machado, acompanhou a pesquisa com grande dedicação, chegando a ir do Rio de Janeiro ao Ceará para conhecer de perto o campo e compreender melhor o objeto de estudo. Ao mesmo tempo em que esteve presente em todas as etapas do processo, ela também me deu autonomia para construir meu próprio percurso como pesquisadora.

Também contei com o apoio do meu coorientador, Rafael Celestino, que atuava no Geopark Araripe durante o período da pesquisa e conhecia profundamente a região. Sua presença foi fundamental para meu acolhimento no campo, facilitando aproximações, diálogos e a compreensão das dinâmicas locais. A combinação desses dois olhares, um mais próximo do território e outro com ampla experiência acadêmica, enriqueceu muito minha formação e fortaleceu a pesquisa. Saber que podia contar com o apoio de ambos me deu segurança para enfrentar os desafios do doutorado e desenvolver meu trabalho com confiança.

DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?

RM: Sim. A tese abriu novos caminhos de pesquisa e desdobramentos práticos. Atualmente, desenvolvo pesquisas em colaboração com os professores Paulo de Oliveira e Rafael Celestino voltadas à implementação do Ecomuseu dos Baixios, no Cariri cearense. Além disso, pretendo dar continuidade aos estudos sobre musealização, patrimônio, participação comunitária e ecomuseus, aprofundando as discussões iniciadas no doutorado e ampliando seu impacto tanto no campo acadêmico quanto nas comunidades envolvidas.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?

RM: O Programa de Pós-Graduação foi fundamental para meu crescimento como pesquisadora, professora e também como mãe. Durante o doutorado, amadureci academicamente e, ao mesmo tempo, aprendi a valorizar ainda mais minhas origens e os saberes das comunidades com as quais desenvolvi minha pesquisa.

Espero também ter contribuído com o Programa ao reforçar a importância de reconhecer os conhecimentos tradicionais e as metodologias participativas como parte da produção científica. Um dos momentos que melhor representa essa troca foi minha defesa de tese. Embora o doutorado fosse sediado no Rio de Janeiro, optei por defender a tese no Ceará, em uma praça pública. No início, a ideia pareceu inusitada, mas, para mim, não fazia sentido concluir uma pesquisa construída com uma comunidade longe das pessoas que a tornaram possível.

O dia da defesa foi marcado por muitos imprevistos: faltou energia na cidade, foi necessário conseguir um gerador emprestado em uma loja e, durante a apresentação, passaram carros, motos e até um cortejo fúnebre. Ainda assim, aquele foi o lugar certo para encerrar esse ciclo. Estar cercada pela comunidade, por amigos e familiares transformou a defesa em um momento de celebração coletiva e reafirmou minha convicção de que a universidade pode e deve dialogar com os territórios e com as pessoas que produzem conhecimento junto conosco.

DC: Você por você: 

RM: Sou uma pesquisadora movida pela curiosidade, pelo diálogo e pelo desejo de construir conhecimento junto com as pessoas. Tenho muito orgulho das minhas origens e acredito que a universidade faz mais sentido quando se aproxima das comunidades e reconhece seus saberes. Também sou mãe, professora e museóloga, papéis que me ensinaram a olhar o mundo com mais sensibilidade, paciência e responsabilidade. Sigo acreditando que a ciência pode transformar realidades quando é feita com escuta, respeito e compromisso social.


Entrevistada: Ranielle Menezes de Figueiredo
Entrevista concedida em:  01 de julho de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Ranielle Menezes de Figueiredo
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »