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v. 4, n. 08, ago. 2026
Musealização do Patrimônio Cultural, Memória e Educação Patrimonial – Entrevista com Rayane Soares Rosário

Musealização do Patrimônio Cultural, Memória e Educação Patrimonial – Entrevista com Rayane Soares Rosário

Musealização do Patrimônio Cultural, Memória e Educação Patrimonial – Entrevista com Rayane Soares Rosário

Rayane Soares Rosário
rayanesrosario@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2024, Rayane Soares Rosário defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob orientação do Prof. Dr. Luiz Henrique Assis Garcia.

Natural de Caravelas (BA), é formada em Museologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, atua em instituições culturais, museus, centros de memória e projetos de patrimônio cultural. Atualmente é coordenadora da Memória do Judiciário Mineiro. Entre seus hobbies está ler e viajar.

Sua dissertação, intitulada “A musealização do patrimônio cultural: estudo de caso sobre a Igreja São Francisco de Assis, em Belo Horizonte (MG)”, investigou como a Igreja São Francisco de Assis, localizada no Conjunto Moderno da Pampulha, pode ser compreendida como um espaço musealizado, mesmo não sendo um museu formal. A pesquisa analisou ações de preservação, educação patrimonial, mediação cultural e valorização da memória desenvolvidas no local, demonstrando que determinados bens culturais podem desempenhar funções semelhantes às dos museus. O estudo evidencia a contribuição desses espaços para a produção de conhecimento, a preservação da memória e o fortalecimento da relação entre a sociedade e o patrimônio cultural.

Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Rayane Rosário (RR): Lembro que era período de pandemia e estava há alguns anos “longe” da academia. Achei que era hora de “voltar”. Já o tema, veio muito sobre o lugar que trabalhava à época e uma inquietação que eu experimentava nesse lugar de coordenação das práticas educativas e patrimoniais da “Igrejinha da Pampulha” e o mestrado surgiu como uma oportunidade de investigar cientificamente essa questão e contribuir para os estudos sobre patrimônio, memória e museologia. 

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?

RR: Acredito que os principais beneficiados sejam os profissionais que atuam com patrimônio cultural, museus, turismo cultural e educação patrimonial. Mas os resultados também podem contribuir para gestores públicos, pesquisadores e para a sociedade em geral. 

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

RR: A principal contribuição foi mostrar que os processos de musealização podem acontecer para além dos museus tradicionais. A pesquisa demonstra que alguns espaços patrimoniais possuem potencial para desenvolver ações de preservação, comunicação e educação semelhantes às realizadas em museus. Para a sociedade, isso amplia as possibilidades de valorização do patrimônio cultural e fortalece a participação das pessoas na preservação de sua própria história. 

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?

RR: Está inserida na linha “Memória Social, Patrimônio e Produção do Conhecimento”. Ela dialoga diretamente com esses três elementos, pois investiga como a memória é construída socialmente, como o patrimônio cultural é apropriado pelas pessoas e como esses processos geram conhecimento sobre a história, a cultura e a identidade coletiva. 

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

RR: Sim. As obras de Mário Chagas, Pierre Nora, José Reginaldo Gonçalves e, claro, Ulpiano Bezerra de Menezes foram fundamentais para a construção teórica da pesquisa. 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

RR: Primeiro, não diferente de toda pesquisa, realizei uma revisão bibliográfica sobre museologia, patrimônio cultural, memória e musealização. Depois estudei documentos, legislações de proteção patrimonial e materiais produzidos sobre e pela Igreja. Também analisei o funcionamento da instituição, suas atividades educativas, culturais e religiosas, além de observações realizadas durante minha atuação profissional. A partir disso, construí um estudo de caso que permitiu compreender como ocorre o processo de musealização daquele espaço. 

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

RR: Com certeza, equilibrar a atuação profissional com as exigências da pesquisa acadêmica. Além disso, o tema exigia dialogar com diferentes áreas do conhecimento, o que demandou muitas leituras e um esforço constante para construir conexões entre esses campos. Mas, além disso, também indico o tempo de pesquisa para o mestrado: dois anos passam rápido, o que exige muita dedicação ao processo de pesquisa e escrita. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

RR: Vamos colocar que foram 40% de inspiração e 60% de transpiração. A inspiração veio das inquietações que surgiram na minha prática profissional, mas também dos diálogos que tive ao longo do mestrado. Tive a sorte de contar com um orientador extremamente generoso, que não apenas apontava caminhos metodológicos, mas promovia conversas que ampliaram minha forma de enxergar o patrimônio, a memória e a própria pesquisa. Muitas ideias nasceram dessas trocas. Já a transpiração esteve presente em todo o processo: leituras, escrita, revisões, reorganização de capítulos e o desafio constante de conciliar a vida profissional com as exigências acadêmicas. Foi um percurso intenso, mas também muito transformador. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

RR: A pesquisa é um processo de construção contínua e que nem sempre teremos todas as respostas logo no início (nem no final). Muitas vezes precisamos aceitar as dúvidas como parte do caminho. A defesa é sempre um momento difícil, mas também muito especial porque representa uma conclusão, ainda que não seja “a” conclusão, de um ciclo de aprendizado e crescimento pessoal. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

RR: Eu moro longe da minha família, mas o relacionamento com amigos, que fazem as vezes da “minha família mineira” foi essencial. Foram eles que me mostraram o caminho, todas as vezes que me senti perdida. 

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

RR: Que entendam e lidem com ele como “um ponto de partida”. 

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

RR: Considero positiva. O mestrado ampliou minha capacidade de pesquisa, escrita acadêmica e reflexão crítica. Também consolidou uma base teórica que continua influenciando minha atuação profissional. Publiquei o artigo, junto com meu orientador:  Ressignificações do patrimônio modernista: o processo de musealização da Igreja São Francisco de Assis.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

RR: Tenho atuado em projetos de museologia, patrimônio cultural, memória institucional, gestão de acervos e políticas patrimoniais. Também exerço atividades de docência e consultoria em museologia. 

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

RR: Acabei de ser aprovada para o doutorador no Programa de Pós-graduação em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG. A ideia é 

aprofundar as discussões iniciadas no mestrado, especialmente aquelas relacionadas aos processos de musealização, patrimônio cultural, paisagem cultural e produção social da memória.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

RR: Eu confiaria mais no processo. No início acreditava que precisava ter todas as respostas definidas desde o projeto de pesquisa. Hoje compreendo que a pesquisa se transforma ao longo do percurso e que muitas das melhores descobertas surgem justamente durante o desenvolvimento do trabalho. 

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

RR: O Programa me proporcionou formação acadêmica sólida, contato com excelentes pesquisadores e um ambiente de reflexão crítica. Além de me trazer amizades que levo comigo para vida inteira, incluindo meu orientador, que se tornou um grande amigo. Em contrapartida, gosto de pensar que eu contribuí com atividades acadêmicas, pesquisas, debates e compartilhamento das experiências adquiridas na atuação profissional. 

DC: Você por você: 

RR: Curiosa e apaixonada pela museologia, pela valorização da memória e pelo compromisso com o patrimônio cultural. Acredito que preservar patrimônio é também preservar histórias, identidades e, principalmente, possibilidades de futuro. 


Entrevistada: Rayane Soares Rosário
Entrevista concedida em:  06 de junho de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Rayane Soares Rosário
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela

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