
Bibliotecas para fabular mundos possíveis: políticas públicas, formação leitora e atuação nos territórios, por Eduardo Peixoto

Bibliotecas para fabular mundos possíveis: políticas públicas, formação leitora e atuação nos territórios
Eduardo Peixoto
ehpcultural@gmail.com
Quando iniciei minha trajetória e meu caminhar junto das bibliotecas comunitárias, lá em 2015, tinha uma percepção diferente do que era atuar promovendo o livro, leitura, literatura e bibliotecas nos territórios de periferia. Admito, com certa vergonha, que trazia uma energia heróica de “levar leitura para a comunidade”, muito pautado pelas práticas coloniais que nos são impostas desde sempre. Entretanto, com a inauguração da Biblioteca Comunitária do Arvoredo, na zona leste de Porto Alegre, pude experimentar na prática o real impacto da mobilização comunitária que uma Biblioteca oferece. A Lomba do Pinheiro, território onde a Arvoredo está localizada, carrega consigo o triste indicador de ser o segundo bairro com maior taxa de juvenicídio da Capital gaúcha, além da ausência de diversas políticas públicas em suas diversas áreas.
Esta realidade, infelizmente, não cabe apenas à Lomba, Porto Alegre ou ao estado do Rio Grande do Sul. É uma realidade que atravessa diversas comunidades brasileiras, evidenciando a existência destes territórios de exceção de Norte a Sul do Brasil. Diferente do Estado de exceção, onde direitos constitucionais e normativas são pausados temporariamente em razão de crises, calamidades ou ameaças, os territórios de exceção convivem de forma constante e permanente com a ausência destes direitos garantidos. Através de barreiras visíveis e invisíveis de acesso, sejam eles financeiros, geográficos, sociais ou físicos, estas comunidades tornam-se desertos operacionais das políticas públicas enquanto projeto de Estado. Afinal, a quem interessa uma comunidade que não acessa adequadamente cultura, educação, assistência e saúde?
Ao compreendermos o cenário que cerca os territórios periféricos e à margem de nosso país, algumas perguntas me vêm à mente: quem tem o direito de sonhar? A quem o fabular é permitido? E quem encontra as condições para transformar esses sonhos em realidade? Pensando nestas questões mobilizadoras, reflito sobre o reflexo da desigualdade que é projetado para o futuro de nossas comunidades, especialmente as crianças e jovens que têm no futuro um vislumbre de suas perspectivas e potencialidades. É justamente aí que retorno para as bibliotecas e seu poder de subverter este maligno cenário. Cada biblioteca criada no deserto da cidadania, floresce como uma flor de tuna, devolvendo ao território o direito de sonhar, questionar e entender aquele equipamento como um espaço de amparo, conforto, segurança e, principalmente, de referência comunitária dos seus moradores. Suprindo os espaços deixados pelo poder público, as práticas comunitárias surgem como iniciativas da sociedade civil que cansou de viver a exceção que tornou-se regra.

Os serviços realizados pelas bibliotecas, em especial as comunitárias, surgem de um ambiente de afetação e humanidade. Seja pelas relações de afeto construídas nestes ambientes ou por nos sentirmos afetados pelas atividades nelas realizadas, estes espaços são movidos pela formação de leitores críticos, conscientes e humanizados. Nas relações com parceiros locais, como escolas públicas, centros de referência à assistência social, equipamentos de promoção à saúde e outras instituições, as bibliotecas também são responsáveis pela dinamização e formação cultural de seus participantes, possibilitando por muitas vezes o único espaço de fruição e desenvolvimento do potencial dos diversos segmentos culturais para além do livro e da leitura. Através do acesso democratizado e descentralizado de cultura, educação, literatura e oralidade, promovem o protagonismo comunitário, a participação social e o pertencimento de seus leitores com seu próprio território, ampliando assim sua autoestima comunitária.
Para além dos resultados qualitativos, este impacto é revertido em números que fortalecem a comprovação do alcance das bibliotecas comunitárias. Por exemplo, em um ano de execução do projeto “Escritas Periféricas da Rede Beabah!: Expressão Cultural Através da Literatura” da rede Beabah! – Bibliotecas Comunitárias do Rio Grande do Sul, 11 bibliotecas comunitárias alcançaram 10.171 empréstimos de livros nas periferias gaúchas e mobilizaram mais de 11.000 participantes nas ações culturais de seus espaços. O projeto, financiado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura do Ministério da Cultura (MinC), comprova a importância de políticas públicas efetivas e o seu impacto na transformação dos territórios anteriormente invisibilizados. Contrapondo pesquisas baseadas no mercado e no capital do livro e leitura no Brasil, as bibliotecas comunitárias apresentam um Brasil que lê e escreve. E, além disso, reforça a importância da sociedade civil organizada se apropriar destes processos e recursos, revertendo-os para seu território e para os seus habitantes. Afinal, o princípio do “nada sobre nós sem nós” também precisa orientar a formulação e a execução das políticas públicas e dos projetos destinados às comunidades.

Ao aproximarmos a participação social das práticas desenvolvidas em nossos espaços e projetos, fortalecemos os processos democráticos e ampliamos a diversidade de perspectivas na construção das bibliotecas e de suas atividades. Neste movimento, venho atuando junto da equipe do Instituto Caju e das secretarias gaúchas da Cultura (Sedac) e da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), em parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola do Rio Grande do Sul (CIEE-RS), desenvolvendo a Biblioteca do Centro da Juventude (CJ) Alvorada, no Rio Grande do Sul. Também fruto de uma política pública, voltada à segurança pública e promoção da cidadania, a Biblioteca nasce desde a sua concepção com uma gestão horizontal e participativa, onde os jovens de 14 a 29 anos frequentadores do CJ opinam e deliberam sobre a programação cultural, curadoria de acervo, cronograma de atividades, planejamento e organização do espaço. Desde então, o conceito de biblioteca ampliou-se e hoje, cinco meses após sua inauguração, conta com oficinas, clubes de leitura, aulas de dança, rodas de capoeira e ações voltadas à articulação comunitária e territorial com uma média de 150 empréstimos por mês. Com a disponibilização de um acervo diverso, representativo e que promova o livre pensamento, a Biblioteca vem construindo um novo ambiente para jovens que, até então, sequer imaginavam que um equipamento cultural de qualidade pudesse existir em seu território e ser pensado também para eles.
Enquanto profissionais da informação e entusiastas das bibliotecas em suas mais diversas tipologias, é fundamental que estejamos apropriados das políticas públicas existentes em nosso país e dos espaços de participação social existentes em nossos municípios e estados, como os Conselhos Municipais / Estaduais de Políticas Culturais. Após um período de extinção do Ministério da Cultura e desmonte das diversas políticas, programas e projetos que promoviam o livro, leitura, literatura e bibliotecas, hoje encontramos um cenário que promove o esperançar de novos tempos. Seja pela ampliação dos investimentos públicos em cultura, que vêm alcançando níveis recordes nos últimos anos, seja pela criação e retomada de programas estruturantes, abre-se uma oportunidade histórica para fortalecer o acesso ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas em todo o país.

obra “A manipulação das ostras”, de Luiz Maurício Azevedo / Imagem: Biblioteca Comunitária do Arvoredo
Entretanto, sem as bibliotecas e os profissionais que nelas atuam presentes e ativos em seu planejamento e realização, nada disso será executável.
Por isso, exalto a existência e a resistência desses equipamentos de cidadania, cultura e educação, assim como o compromisso dos profissionais e agentes culturais que fazem da democratização do acesso ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas um projeto coletivo de transformação social. Se, para Antônio Candido, a literatura constitui um direito humano fundamental, as bibliotecas comunitárias nos ensinam diariamente que ela convive com múltiplas formas de narrar, fabular e produzir conhecimento, presentes na oralidade, nas ancestralidades e nas experiências dos territórios.

É nesse encontro entre livros, memórias, vozes e comunidades que as bibliotecas comunitárias seguem construindo cidadania, fortalecendo vínculos e ampliando horizontes de futuro. Que sigamos, juntas e juntos, construindo um país em que todas as pessoas tenham o direito de ler, contar suas próprias histórias, fabular mundos possíveis e reconhecer, em suas comunidades, um lugar legítimo de produção de cultura, conhecimento e esperança.
Convite do autor!
A rede Beabah! – Bibliotecas Comunitárias do Rio Grande do Sul, completa 18 anos de existência em 2026 e, como presente, realizará o “I Seminário Beabah!: Bibliotecas para fabular mundos possíveis” nos dias 04 e 05 de setembro de 2026 no Auditório do Campus Porto Alegre do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).
As inscrições são gratuitas e as informações referentes à programação e convidados você encontra no Instagram do coletivo: @beabah_rs e no site www.beabah-rs.com.br

Sobre o autor
Coordenador na Biblioteca do Centro da Juventude Alvorada/RS. Membro da equipe de curadores da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Vice-presidente da Associação Sul-Rio-Grandense de Bibliotecários (ARB). Integra através do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul) o Programa Agentes Territoriais de Cultura; e, através do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da Universidade Federal do Alagoas (NEES/UFAL), a Equipe Pedagógica do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler Bibliotecas), ambas iniciativas do Ministério da Cultura (MinC).
Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade de Caxias do Sul.
Redação: Eduardo Henrique Peixoto
Fotografia: Eduardo Henrique Peixoto, Rede Beabah! e Biblioteca do Arvoredo
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos










