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v. 4, n. 08, ago. 2026
O fenômeno produtivismo acadêmico como agenda de pesquisa: descobertas, reflexões e perspectivas, por Luciana Ferreira da Costa

O fenômeno produtivismo acadêmico como agenda de pesquisa: descobertas, reflexões e perspectivas, por Luciana Ferreira da Costa

O fenômeno produtivismo acadêmico como agenda de pesquisa: descobertas, reflexões e perspectivas

Luciana Ferreira da Costa
lucianna.costa@yahoo.com.br

A pesquisa,
É a fusão, em um só crisol,
De observações, teorias e hipóteses
Para ver se cristalizar
Algumas parcelas de verdade.
A pesquisa,
É, ao mesmo tempo, trabalho e reflexão
Para que os homens
Achem todos um pouco de pão 
E mais liberdade.
(Gérard-B. Martin, 1994)

Inicio este texto com um trecho do poema “Um certo olhar sobre a pesquisa”, publicado no Au fil des événements, Jornal da comunidade universitária da Universidade de Laval, registrado no livro de Laville e Dione (1999), porque nele encontro uma síntese daquilo que compreendo como o verdadeiro sentido do fazer científico. Mais do que uma epígrafe, o poema me acompanha em minha trajetória como docente e pesquisadora, pois seus versos despertam em mim emoção e renovam a convicção de que pesquisar é, antes de tudo, um exercício de curiosidade, inquietação, sensibilidade, compromisso e esperança! É sob essa inspiração que compartilho em sequência alguns fragmentos da minha trajetória em pesquisa, construída em experiências, desafios, descobertas, compromisso e a permanente disposição para aprender. 

Minha atuação em pesquisa transita pelos campos da Ciência da Informação, da Biblioteconomia e da Museologia, nos quais tenho formação de base e pós-graduada, sendo aportada pela atuação como docente e pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba, desde 2009, mas, também, pelo vínculo como docente permanente em Programas de Pós-Graduação, como o Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais Universidade Federal da Paraíba e Universidade Federal de Pernambuco (com recorte de atuação no campo da Museologia) e no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Para além dos programas, e antecedendo a minha vinculação a estes, a trajetória em pesquisa também foi forjada pela minha condição de líder de um grupo de pesquisa, criado em 2014, que reúne pesquisadores, nacionais e internacionais, e estudantes em diferentes níveis de formação, e que se consolidou como um espaço de estudos, pesquisas, (in)formação, produção científica, cooperação internacional (com a Universidade de Évora e o Instituto Politécnico de Leiria, ambos em Portugal, e a Universidad Complutense de Madrid na Espanha), práticas científicas (Costa, 2023): a Rede de Pesquisa e Informação em Museologia, Memória e Patrimônio (REDMus).

Logomarca da Rede de Pesquisa e Informação
 em Museologia, Memória e Patrimônio (REDMus)

Entre as agendas de investigação que mobilizam minhas pesquisas, e que vem ocupando lugar central, está o fenômeno produtivismo acadêmico, que, inclusive, a partir dos nossos estudos, iniciados em 2019, foi incursionado na Ciência da Informação no Brasil (Costa, 2021). Trata-se de um fenômeno complexo e cada vez mais presente no cotidiano dos docentes e pesquisadores e, sobretudo, dos que atuam em programas de pós-graduação. Em nossa perspectiva, definimos o produtivismo para além da ênfase e valorização excessiva no quantitativo de publicação de artigos como objetivo final do trabalho intelectual, como remete o termo, a partir da máxima publish or perish. Dessa forma, alargamos o conceito, afirmando que o produtivismo acadêmico:


na nossa visão, refere-se, na verdade, não apenas à quantidade de publicação em periódicos, mas contempla a produção científica como um todo por meio dos seus canais de comunicação científica. […] o produtivismo acadêmico interfere nas demais atividades inerentes aos docentes […] atividades enquadradas na missão da universidade pública: o ensino, a pesquisa e a extensão”. A esta missão, particularmente, acrescentamos a atividade de gestão desde alguma unidade administrativa na universidade (pro-reitoria, chefia de departamento, membro colegiado, coordenação de PPG, etc.) até outras como editoria de periódicos científicos, liderança de grupo de pesquisa, organização de eventos, etc. (Costa; Barbosa Filho, 2022, p. 6).

O fenômeno produtivismo acadêmico, ampliado e considerando o ensino, a pesquisa, a extensão e a gestão, bem como as atividades específicas que esta tétrade engloba, em minhas pesquisas, vem sendo investigado e circunscrito aos programas de pós-graduação consoante ao reconhecimento do papel destes para conferir impulso teórico e conceitual para as áreas de conhecimento, já que é amplamente reconhecido que as pesquisas inovadoras se desenvolvem fundamentalmente no âmbito da pós-graduação (Velloso; Velho, 2001). Tanto que já foram contemplados nos estudos os docentes e pesquisadores em Ciência da Informação, os doutorandos e, atualmente, estamos finalizando os Bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Nas referidas pesquisas, o fenômeno produtivismo acadêmico foi, primeiramente, alinhado aos impactos da Pandemia de COVID-19, seguido, posteriormente, do alinhamento  às reflexões do filósofo e ensaísta Byung-Chul Han (2015) acerca da Sociedade do cansaço e, também, ao bem-estar subjetivo abordando questão que está na ordem do dia do mundo do trabalho e sua precarização: a saúde mental. 

As evidências obtidas dão conta que os sujeitos investigados, em sua maioria, compreendem que devem ser produtivos, mas não produtivistas, entendem que são atravessados pelo produtivismo acadêmico, estão alertas ao seu impacto, inclusive para além do espaço acadêmico, ou seja, para o pessoal com a invasão do ambiente doméstico, do espaço-tempo nos fins de semana que poderia ser dedicado ao lazer e à família. No entanto, apesar de algumas reflexões que indicam movimento de resistência, outros não veem perspectiva de mudança deste sistema hierarquizante e de precarização do trabalho intelectual (Costa, 2026).

Mais recentemente, em execução, ampliei a abordagem do fenômeno para aspectos da genealogia acadêmica com a finalidade de evidenciar como os docentes e pesquisadores vêm influenciando novas gerações de pesquisadores e como a relação de orientação influencia a construção e evolução do campo científico da Ciência da Informação.

Primeira página do artigo “Repercussões do fenômeno produtivismo acadêmico nas práticas científicas e no bem-estar subjetivo dos bolsistas de produtividade em pesquisa”,
publicado na Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação

A perspectiva já projetada acerca do produtivismo acadêmico, temática que não se esgota em face das mudanças e adequações de processos de avaliação da pós-graduação no Brasil por parte da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes) e das agências de fomento à pesquisa, bem como as normativas de cada instituição de ensino superior, é investigá-lo como adensamento ao trabalho de gestão, ou seja, como impacta nas práticas científicas dos coordenadores de programas de pós-graduação consoante às exigências infindáveis que o exercício desta função demanda. A escolha por aprofundar o fenômeno sob a tônica do grupo gestor foi motivada pela minha experiência em coordenação de programa de pós-graduação entre o biênio 2023-2025, bem como pelo dilema que me instiga a apresentar possíveis respostas: como conciliar o intelectual, o docente/pesquisador com o coordenador?

Para além do produtivismo acadêmico e outras temáticas no âmbito da Ciência da Informação e Biblioteconomia, impossível não destacar as minhas agendas de pesquisa na Museologia, área em que realizei o doutorado na Universidade de Évora (Portugal) e o pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), ao que cito como exemplo de investigações o ensino e a formação em Museologia, a gestão de museus e os estudos de público. A paixão pelo universo dos museus tem raízes na minha infância e adolescência no Rio de Janeiro, cidade onde nasci e formei tantas memórias e olhar curioso nestes espaços, graças aos incontáveis passeios familiares aos museus, sobretudo, ao Museu Nacional e, também, os passeios escolares que despertaram em mim o encantamento pela instituição museu, portanto, muito antes de eu imaginar que moldaria e se tornaria parte significativa da minha vida acadêmica e de atuação como docente e pesquisadora.

Sobre o meu percurso na Museologia, impossível não compartilhar que recentemente, em maio deste ano, tive a imensa alegria de, na minha cidade, receber a Medalha de Honra 90 anos da Escola de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Entrega da Medalha de Honra ao Mérito 90 anos da Escola de Museologia da UNIRIO

A honraria foi idealizada pelo grande Professor Dr. Ivan Coelho de Sá, então Diretor da Escola de Museologia, em reconhecimento de instituições e profissionais decisivos ao longo das últimas décadas para a Museologia e os museus no Brasil. Fui agraciada com a honrosa Medalha em reconhecimento da minha atuação no ensino e formação de profissionais, pela liderança em redes de pesquisa, produção científica e contribuições para o fortalecimento da pesquisa em Museologia. Uma honra imensurável receber essa homenagem, que acolhi com profunda gratidão e emoção! Uma coisa é certa, recebi esse reconhecimento não como um ponto de chegada, mas como um incentivo para seguir contribuindo e investigando questões que reverberem no fortalecimento da área e de seus campos de interlocução, como a Ciência da Informação, com a convicção de que há muito a descobrir, construir, aprender e compartilhar.

Assim, em linhas de síntese, retomando mais um trecho do poema inicial, sigo em busca de surpresas e descobertas, ciente de que “a pesquisa é a surpresa, a cada descoberta, de se ver recuar as fronteiras do desconhecido […]”. Dessa forma, pesquisar é manter viva a curiosidade científica e o compromisso com perguntas que ainda precisam ser respondidas. É essa perspectiva que continua orientando minha trajetória e renovando, constantemente, minha convicção de que a ciência pode e deve ser construída por meio de estímulos saudáveis.

Referências

COSTA, L. F. O impacto do produtivismo acadêmico nas atividades dos docentes dos Programas de Pós-Graduação em Ciência da Informação das Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 21., 2021, Rio de Janeiro. Anais […], Rio de Janeiro, 2021. p. 1-15. Disponível em: https://enancib.ancib.org/enancib/pt_BR/article/view/1696/1745  . Acesso em: 04 ago. 2026.

COSTA, L. F. Investidas científicas da Rede de Pesquisa e (In)Formação em Museologia, Memória e Patrimônio (REDMUS): experiências e perspectivas futuras. In: MAGALHÃES, F.; COSTA, L. F.; HERNÁNDEZ-HERNÁNDEZ F.; CURCINO, A. (Org.). Museologia e Património Volume 10. Leiria: Edições IPleiria, 2023. p. 429-446. Disponível em: https://www.ipleiria.pt/esecs/investigacao/edicoes/ . Acesso em: 10 dez. 2023.

COSTA, L. F. Repercussões do fenômeno produtivismo acadêmico nas práticas científicas e no bem-estar subjetivo dos bolsistas de produtividade em pesquisa. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 24, e02628, 2026. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rdbci/article/view/8681585 Acesso em: 04 ago. 2026.

COSTA, L. F.; BARBOSA FILHO, E. T. Produtivismo acadêmico: desvelando o conhecimento dos docentes da pós-graduação em Ciência da Informação das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, v. 18, p. 1-23, 2022. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1725 . Acesso em: 04 ago. 2026.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes Limitada, 2015.

LAVILLE, C.; DIONNE, J. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Editora Artes, 1999. p. 278-279.

VELLOSO, J.; VELHO, L. M. L. S. Mestrandos e doutorandos no país: trajetórias de formação. Brasília: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2001. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me001615.pdf . Acesso em: 10 out. 2014.

Sobre a autora

Luciana Ferreira da Costa

Professora do Departamento de Ciência da Informação e Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Editora do periódico Perspectivas em Gestão Conhecimento. Líder da Rede de Pesquisa e (In)Formação em Museologia, Memória e Patrimônio (REDMus).

Doutora em História e Filosofia da Ciência Museologia pela Universidade de Évora, Portugal. Mestra em Ciência da Informação e Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba. Pós-Doutorado realizado junto ao Programa de Pós-Graduação em Museologia da Universidade Federal da Bahia. 


Redação: Luciana Ferreira da Costa
Fotografia: Luciana Ferreira da Costa
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos

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