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v. 4, n. 08, ago. 2026
Vivência no Centro de Memória do Circo e a pesquisa dos Saberes do Circo, por Mônica Barbalho Silva

Vivência no Centro de Memória do Circo e a pesquisa dos Saberes do Circo, por Mônica Barbalho Silva

Vivência no Centro de Memória do Circo e a pesquisa dos Saberes do Circo

Mônica Barbalho Silva
monicabsilva@prefeitura.sp.gov.br

Sou iniciada no Centro de Memória do Circo (CMC) por meio da 1ª edição do Sou de Circo, programa de formação e experimentação profissional em museologia, pesquisa e história do circo voltado para jovens circenses e ancorado no acervo do CMC. Cheguei à instituição pela vivência no Circo Social e pela experiência na Museologia. Por meio do “Sou de Circo”, fui apresentada ao acervo da instituição e comecei a desenvolver diversas atividades relacionadas a ele, juntamente com o grupo de jovens circenses e à equipe do CMC. Segui atuando em outros projetos e, em 2022, fui convidada a integrar a equipe do Núcleo de Acervo da instituição.

O acervo do CMC é como o circo: diverso, surpreendente, para todos os gostos, espetacular. Com uma variedade de formatos e suportes, os documentos registram o espetáculo, as artes e os artistas, o modo de vida circense, seus saberes e formas de expressão. Por meio de aparelhos como clavas e monociclos, figurinos de artistas de diferentes artes, perucas de circo-teatro, sapatos de palhaços, instrumentos musicais, fotografias, cartazes, livros e tantas outras tipologias, a instituição salvaguarda e difunde a memória e a cultura circenses.

Detalhe da página inicial do site do Centro de Memória do Circo / Imagem: Centro de Memória do Circo

Atualmente, minha principal atuação no CMC ocorre como responsável pelo Núcleo de Acervo. Respondo pelos procedimentos de conservação preventiva, tratamento técnico dos documentos, pesquisa das coleções, desenvolvimento de exposições, formação técnica da equipe de trabalho, assim como a parte normativa de desenvolvimento de políticas, manuais e procedimentos de trabalho, além do atendimento às demandas do público: visitas mediadas às exposições e às reservas técnicas, além de pesquisas no acervo. Minha principal meta é ampliar o acesso a esse acervo tão rico. Colaborar nas diferentes frentes do ciclo curatorial de um acervo é uma oportunidade. Ver a ação que se iniciou com uma aquisição terminar em uma pesquisa e uma exposição é muito gratificante. A diversidade do acervo apresenta constantes desafios e oportunidades de aprendizado por exigir formação, pesquisa e troca com outros profissionais para desenvolver os trabalhos.
Um dos prazeres do trabalho no CMC é participar de sua programação cultural. O Dia do Circo (27 de março), o Dia do Palhaço (10 de dezembro), o aniversário do CMC (16 de novembro), o Picadeiro Aberto (toda última segunda-feira do mês). Eventos, entre outros, que trazem à tona os modos de fazer e viver circenses, a magia do espetáculo. E é muito satisfatório atuar nos bastidores desses eventos e, algumas vezes, na cena, como no Picadeiro Aberto. Além de funcionária do CMC, sou fã de circo. Gosto de assistir aos espetáculos, participar de formações e trabalhar com o acervo do CMC, pois são diferentes formas de ver e viver o circo. Dessa vivência nasceu o desejo de auxiliar na valorização e no reconhecimento da cultura circense, assim, contribuir com sua salvaguarda. Com isso, modifiquei minha proposta inicial de pesquisa para um olhar sobre o patrimônio imaterial.
A pesquisa de mestrado “Saberes Circenses: a experiência do Centro de Memória do Circo na salvaguarda do patrimônio imaterial” investiga os saberes circenses difundidos pelo Centro de Memória do Circo (CMC) — instituição pública da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo — e reflete sobre os limites e as possibilidades de salvaguardar saberes vinculados a uma manifestação popular, de natureza imaterial e dinâmica, a partir de inventários, pesquisas e ações de comunicação por meio de um centro de memória, conforme proposto pelo CMC.

Capa da dissertação: “Saberes circenses: a experiência do Centro de Memória do Circo na salvaguarda do patrimônio imaterial” de Mônica Barbalho Silva

E o que seriam os saberes? “O conceito dos saberes aplica-se a todas as artes e artesanatos que fazem parte de uma cadeia de atividades que culmina com a apresentação do espetáculo, mesmo as que não estão diretamente ligadas a ele” (TAMAOKI, 2017, p. 133); o CMC atua principalmente com cinco saberes: arquitetura nômade, o saber montar a lona de circo; bordados, relacionados à confecção dos figurinos; sombrinhas, ligadas às lembranças e à culinária; tabuletas, representantes da comunicação circense; e a gastronomia, relacionada à culinária circense presente nos espetáculos, como as maçãs do amor.

Para a pesquisa, foram realizadas uma revisão bibliográfica sobre a trajetória do circo, a Museologia Social e o patrimônio cultural imaterial e circense; uma análise das práticas e produções do CMC; e entrevistas com representantes da classe circense, incluindo a fundadora do CMC.

Capa do livro: “Centro de Memória do Livro” de Verônica Tamaoki / Imagem: Centro de Memória do Circo

A partir da Museologia Social como campo de enquadramento da relação com a classe circense, foi possível perceber a inclinação do CMC para o diálogo e as possibilidades de ampliação da colaboração entre a instituição e os indivíduos, tornando as ações plurais. Um exemplo é a participação de diversas mestras e mestres, que garante uma percepção mais ampla dos saberes. As entrevistas com representantes de diferentes matizes do circo evidenciaram como as distintas formas de manifestar os saberes potencializam a ação e apontam para a necessidade de alargamento da pesquisa dos saberes circenses.

A pesquisa também evidenciou como o patrimônio cultural imaterial se fortalece na união de diferentes vivências de uma mesma expressão, pois a pluralidade de olhares sobre o bem patrimonial enriquece as ações desenvolvidas e favorece a salvaguarda desse patrimônio. A ação do CMC de reunir em suas oficinas de saberes diferentes gerações para a troca de conhecimentos, mesmo os já não vigentes no espetáculo circense, é uma forma de se viver a cultura e salvaguardar o patrimônio.

Referências

TAMAOKI, Verônica. Centro de Memória do Circo. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 2017.

Sobre a autora

Mônica Barbalho Silva

Mestra em Museologia pela Universidade de São Paulo, bacharela em Publicidade e Propaganda pela Universidade Mackenzie e técnica em Museologia pela ETEC Parque da Juventude. 

É cria do Circo Social e coordena o núcleo de acervo do Centro de Memória do Circo. Pesquisa conservação e documentação de acervos museológicos.


Redação: Mônica Barbalho Silva
Fotografia: Mônica Barbalho Silva
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos

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