
A perspectivas sociocultural na curadoria digital de patrimônios culturais – Entrevista com Maria Ligia Triques

A perspectivas sociocultural na curadoria digital de patrimônios culturais – Entrevista com Maria Ligia Triques
Maria Lígia Triques
mligia.triques@uel.br
Sobre a entrevistada
Em 2025, Maria Lígia Triques defendeu o doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), sob orientação da Profa. Dra. Ana Cristina de Albuquerque.
Maria Lígia é paulista e possui formação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Atualmente é docente do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina, nos cursos de Biblioteconomia e Arquivologia. Entre seus principais hobbies está a dança.
Sua tese, intitulada “A perspectiva sociocultural na organização e representação da informação e do conhecimento (ORIC) na curadoria digital de patrimônios culturais”, compreende o patrimônio em ambientes digitais como um conjunto de elementos carregados de sentidos e valores sociais, cuja preservação exige considerar seus contextos de produção e interpretação. O estudo defende que os metadados utilizados para representar esses objetos reúnem elementos descritivos, temáticos e contextuais que expressam escolhas e pontos de vista culturais em diferentes camadas de significação, ampliando a curadoria digital para além das questões estritamente técnicas do meio digital.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o doutorado e o que te inspirou na escolha do tema da tese?
Maria Lígia (ML): Foi a caminhada pela área que me mostrou que a pesquisa traz a possibilidade de envolvimento com assuntos com os quais muitas vezes não é possível se envolver em um contexto profissional tradicional. Além disso, a inspiração em exemplos que tive na vida pessoal e acadêmica
A escolha do tema foi resultado da continuidade da minha trajetória de pesquisa. Desde a iniciação científica, estudo curadoria digital e percebia que o tema era abordado predominantemente sob uma perspectiva técnica e de gestão, inclusive no contexto dos acervos culturais. Após o mestrado, identifiquei a oportunidade de aprofundar, no doutorado, um dimensão sociocultural, unindo referenciais da Organização do Conhecimento, como a Análise de Domínio.
DC: Em qual momento de seu tempo no doutorado você teve certeza que tinha uma “tese” e que chegaria aos resultados e conclusões alcançados?
ML: Somente ao final. É curioso que essa sensação é descrita por muitas pessoas, enquanto doutorandas. Imagino que seja bem comum mesmo. Só vamos ter uma noção do que conseguimos alcançar quando estamos mais próximos de defender. Eu ainda tive um período de prorrogação de seis meses. Foi ao final mesmo que senti que tinha atingido meu objetivo de estudo. E ainda questiono como eu posso apresentar meus resultados de uma forma melhor.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua tese? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
ML: Acredito que minha linha guia foi a perspectiva do autor Costis Dallas, pesquisador e professor que tem trabalhos junto ao pioneiro e famoso Digital Curation Centre (CDD) no Reino Unido, que é referência em curadoria e preservação de objetos digitais e defende a visão de curadoria digital que vai além da simples preservação de arquivos, enfatizando o papel das pessoas, das instituições e das práticas sociais na produção e manutenção do conhecimento digital. Essa perspectiva me permitiu pensar a Análise de Domínio nesse contexto.
DC: Por que sua tese é um trabalho de doutorado, o que você aponta como ineditismo?
ML: Acredito que esse aspecto venha da perspectiva teórico metodológica proposta para estudar a temática. Proponho a delimitação do domínio da curadoria digital no campo do patrimônio cultural, definindo dados, ações e abordagens socioculturais que acontecem nesse meio e que permitem reinterpretações e múltiplos usos dos patrimônios culturais. Nesse sentido, a curadoria atua entre o controle institucional e os valores da cultura para a comunidade, garantindo que a tecnologia ajude com pluralidade de sentidos.
DC: Em que sua tese pode ser útil à sociedade?
ML: Penso que ao destacar o fato de que o patrimônio por si só não é desprovido de sentidos escolhidos (algo que é bastante trabalhado pelos estudiosos do campo), isto é, seu rótulo como patrimônio já é uma escolha institucional e um recorte da cultura, sua existência em meio digital reafirma esse caráter intencional. As plataformas digitais amplificam escolhas e vieses junto aos instrumentos, processos e produtos de organização e representação. Evidenciar esses aspectos, ajudam a lembrar como o meio digital é um potencializador que pode contribuir ou não com narrativas culturais mais plurais e inclusivas.
DC: Quais são as contribuições de sua tese? Por quê?
ML: Acredito que em uma visão mais ampla, as contribuições sejam para esclarecer a relação entre elementos complexos desse universo da curadoria digital dos patrimônios culturais. Nele, os metadados (informações sobre os objetos), como elementos representativos, são centrais, porque expressam as intencionalidades, as escolhas, as disputas de significado e as relações de poder das comunidades que validam esses acervos. Por meio desses metadados, discute que a curadoria digital sobre uma visão social e cultural, atua em “módulos de sentido”, de forma que o patrimônio pode ser reconfigurado, recontextualizado e reinterpretado em diferentes plataformas e espaços digitais.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
ML: A metodologia da pesquisa foi pensada para aplicar a Análise de Domínio (AD) de Hjørland (2002; 2017) que permite observar um domínio a partir de diferentes abordagem que ajudam a entender como pessoas pensam, como sua história ou o que vivem molda o que sabem e como elas se comunicam. Para poder fazer isso em um conjunto de documentos sobre a curadoria digital de patrimônios culturais, o caminho foi usar a perspectiva de triangulação de métodos proposta por Tuzzo e Braga (2016), que possibilitou considerar três abordagens específicas da AD para estudar o domínio como um meta fenômeno, em três pontos fundamentais: o sujeito (os dados dos patrimônios), o objeto (as ações de curadoria digital) e o fenômeno (as abordagens socioculturais da ORIC). No caso, o metafenômeno é a realidade completa e inseparável que surge quando pensamos a tecnologia (os dados e as ferramentas) e a sociedade, a cultura e os valores que a formam. Cada abordagem específica da AD deu a possibilidade de estudar em um aspecto dessa realidade, revelando esse domínio, identificando como o campo se formou e validou seus conhecimentos ao longo do tempo e como as práticas acontecem em interfaces dinâmicas, para observar o fenômeno das abordagens socioculturais na prática.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a tese?
ML: Acredito que a inspiração são os breves momentos de motivação que ocorrem em ciclos. Você tem a motivação e aí faz o trabalho, a transpiração, que é a maior parte, e os resultados disso alimentam novamente uma motivação e assim você caminha até realizar os objetivos. Muitas vezes isso reorienta seus objetivos e os resultados. Nesse sentido, uma das dificuldades é exatamente delimitar quais inspirações vão guiar seus caminhos e quando isso precisa ser encerrado.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da tese?
ML: Em grande parte é uma caminhada solitária, mas que pode ser mais facilmente trilhada se pudermos compartilhar esse processo e conseguir gerar motivações. Isso, para mim, veio a partir da participação no grupo de pesquisa Organização e Representação da Informação e do Conhecimento de Recursos Imagéticos (ORICRI) que faço parte na UEL, das oportunidades de docência e eventos científicos da área, permitindo realimentar e validar minhas ideias.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante o doutorado?
ML: Eles sempre me apoiaram a seguir os caminhos que escolhi e a persistir mesmo com as dificuldades. Me apoiaram quando me mudei de estado e ajudaram-me a me estabelecer com os desafios da distância e de uma nova cidade. Também tive muito apoio dos colegas do programa e do grupo de pesquisa e do meu companheiro de vida.
DC: Qual foi a maior dificuldade de sua tese? Por quê?
ML: A maior dificuldade foi delimitar os limites da pesquisa. O tema possui interfaces com diferentes áreas e muitas vezes tive insegurança de até que ponto determinadas discussões contribuem para responder ao problema de pesquisa e se o que foi discutido era suficiente de outros pontos de vista.
DC: Que temas de mestrado citaria como pesquisas futuras possíveis sobre sua tese?
ML: Análises aplicadas em diferentes contextos em que a curadoria digital possa ser reconhecida pela perspectiva sociocultural da ORIC.
DC: Quais suas pretensões profissionais agora que você se doutorou?
ML: Tenho atuado na docência como professora substituta e pretendo continuar nesse caminho profissional, sempre aprendendo e me aprimorando.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
ML: Acredito que teria mais segurança ao longo desse percurso, compreendendo que é um processo dinâmico, que se reorienta continuamente à medida que aprendemos, amadurecemos teoricamente e refinamos nossas escolhas metodológicas.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o doutorado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
ML: Avalio que minha produção foi bastante positiva, com a oportunidade de trabalhar com pesquisadores e professores que admiro e que me trouxe grande aprendizado. Pude assim ter uma produção além do mínimo exigido em termos de quantidade, com produções em eventos e periódicos.
Tive a oportunidade de apresentar trabalhos relacionados à temática e estou em fase de elaboração de um artigo mais completo sobre os resultados da tese. Indico um trabalho de evento recente:
DC: Exerceu alguma monitoria / estágio docência durante o doutorado? Como foi a experiência?
ML: Sim, tive a oportunidade de realizar o estágio docência na disciplina de Organização da Informação e do Conhecimento da minha orientadora para os cursos de Arquivologia e Biblioteconomia. Como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o programa de pós nos coloca a exigência de cursar o estágio de docência para realizar a qualificação e vejo isso como uma coisa bastante positiva e necessária. A experiência em sala de aula nos faz olhar para a pesquisa sob outra perspectiva ao explicar conceitos e dialogar com os estudantes tornando nosso trabalho menos solitário e mais humano.
DC: Elas contribuíram em sua tese? De que forma?
ML: Muito. Os desafios da docência foram e ainda são um grande motivador do meu percurso. Em particular para o meu trabalho de tese, dúvidas e dificuldades que são comuns aos estudantes na área me incentivaram a estabelecer conexões entre os diferentes temas investigados e ampliou a minha percepção sobre as formas de explicar conceitos e reforçou minha compreensão de como a pesquisa deve ter um caráter social.
DC: Agora que concluiu a tese, o que mais recomendaria a outros doutorandos e mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
ML: Observar que uma pesquisa sempre tem limitações e que elas não são uma fraqueza e sim oportunidades de propor novas pesquisas. Por isso, que não tenham receio de delimitar o objeto de pesquisa. Uma única pesquisa não responde a todas as perguntas.
DC: Como acha que deve ser a relação orientador-orientando?
ML: Acredito que a relação deve ser baseada no constante diálogo, na confiança e no respeito mútuo.
DC: Sua tese gerou algum novo projeto de pesquisa? Quais suas perspectivas de estudo e pesquisa daqui em diante?
ML: A tese abriu diversas possibilidades de investigação e já comecei a dar alguns passos em projetos de pesquisa com parcerias e, também, estou focada no ensino e em projetos de extensão com a temática.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de doutorado?
ML: Como bolsista tive a oportunidade de vivenciar a pós-graduação por completo e contribuir de diferentes formas com o programa e com a minha formação. Participei e organizei eventos, fui membro editorial das revistas do programa, curadora do site institucional, membro ativo do grupo de pesquisa, co orientei iniciação científica, mediei e dei palestras, e fiz estágio de pesquisa no exterior.
DC: Você por você:
ML: Todo esse percurso me trouxe muita maturidade pessoal e na pesquisa e muitas oportunidades que de início eu nem imaginava.
Entrevistada: Maria Lígia Trinques
Entrevista concedida em: 17 de julho de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Maria Lígia Triques
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










