
As comunidades dentro da comunidade: Conflitos patrimoniais em Brumadinho/MG – Entrevista com Letícia Peixoto

As comunidades dentro da comunidade: Conflitos patrimoniais em Brumadinho/MG – Entrevista com Letícia Peixoto
Letícia Peixoto Silva
leticiapeixotohist@gmail.com
Sobre a entrevistada
Em 2024, Letícia Peixoto Silva defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Museu de Astronomia e Ciências Afins, sob orientação da Profa. Dra. Priscila Faulhaber.
Natural de Minas Gerais, Letícia é licenciada em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Atuou no Instituto Inhotim e atualmente na Rede Cidadã, como Educadora Social com jovens de Brumadinho e mantém o projeto “Museu Comunitário de Brumadinho”. Entre seus hobbies estão assistir a animes e séries.
Sua dissertação, intitulada “As comunidades dentro da comunidade: Conflitos patrimoniais em Brumadinho/MG”, analisa Brumadinho como uma cidade marcada pela diversidade de culturas e patrimônios, questionando a visão externa que reduz o município à oposição entre Inhotim e a tragédia-crime de 2019. A pesquisa demonstra como essa polarização invisibiliza a pluralidade cultural local e problematiza as políticas de patrimônio que não contemplam essa diversidade. Além disso, apresenta, de forma introdutória, diferentes patrimônios culturais materiais e imateriais preservados por comunidades do município, contribuindo para ampliar o reconhecimento de sua riqueza histórica, social, cultural e identitária.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Letícia Peixoto (LP): O tema começa com um projeto realizado durante a graduação chamado Museu Comunitário de Brumadinho, na disciplina de Arquivos e Museus. Quando iniciei os estudos sobre patrimônio e museu, vi que Brumadinho possuía e merecia um estudo mais aprofundado que fugisse da ótica polarizada que o resume a Inhotim x Tragédia-Crime.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
LP: Acredito que a cidade e, principalmente, as múltiplas comunidades que a compõem.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
LP: Particularmente, a principal contribuição é apresentar, registrar e mostrar a cidade de Brumadinho em sua pluralidade cultural, evidenciando seu patrimônio material e imaterial. Contudo, também creio que seja possível apresentar os aspectos complexos das políticas de patrimônio em Minas Gerais que, por vezes, são cumpridas pelos municípios apenas por burocracia.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
LP: Linha 2: Museologia, Patrimônio e Desenvolvimento Sustentável. A linha em que meu trabalho se insere conversa ativamente com a dissertação, em vista que, trata-se com maior afinco sobre o patrimônio local.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
LP: Há dois trabalhos que me inspiraram, sendo o livro de Hugues de Varine: As Raízes do Futuro: O Patrimônio a serviço do desenvolvimento local e a dissertação de Átila Bezerra Tolentino: Espaços que suscitam sonhos: narrativas de memórias e identidades no Museu Comunitário Vivo Olho do Tempo.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
LP: A metodologia perpassou vários caminhos até o produto final (dissertação). Inicialmente começou com a leitura de outros trabalhos tanto sobre Brumadinho quanto sobre patrimônio, foi necessário entender se, de fato, tal polaridade (Inhotim e Tragédia-Crime) também existia nos trabalhos acadêmicos, assim como, possíveis formas de ver o patrimônio em uma perspectiva diferente, mais comunitária, acessível e ordinária como diria nosso antigo Ministro da Cultura Gilberto Gil. Depois, começamos a analisar várias fontes como, jornais, revistas, documentos do IEPHA, imagens e entrevistas com moradores e moradoras.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
LP: A organização das informações acessadas de forma consistente e que fizesse sentido. Perguntas como: Como estruturar os capítulos? O que devo retirar e o que devo acrescentar? Como posso associar esses dados com os autores lidos? Tais questões passaram por todo o processo de escrita, trazendo dúvidas e incertezas.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
LP: O mundo acadêmico em si é extremamente dificultoso, o pouco tempo do mestrado somado aos créditos de disciplinas obrigatórias e optativas prejudicavam o período de pesquisa, já que, em apenas dois anos é difícil estruturar disciplinas, tempo de pesquisa e escrita da dissertação. O que me fez continuar foi o verdadeiro interesse em apresentar Brumadinho para a comunidade acadêmica em uma nova perspectiva.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
LP: A Pós Graduação considera pouco a condição de pessoas de classe baixa e média, as aulas durante o dia e a dificuldade de acessar a bolsa social (que só consegui após alguns meses já estando ingressa no programa), a mudança de estado também trouxe questões de adaptação.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
LP: À distância, já que, por um período precisei morar no Rio de Janeiro. Mas minha família não entendia muito bem o que era um mestrado, fui a primeira a ter uma graduação e ingressar na pós.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
LP: Talvez o mais importante seja gostar realmente do tema que irá trabalhar. Isso porque o processo de produção, construção e escrita da dissertação é muito penoso, por vezes só nos sobra o interesse intrínseco pelo tema para nos mantermos firmes. Como diria Emicida em AmarElo: “Você vai atrás desse diploma, com a fúria da beleza do sol, entendeu? Faz isso por ‘nóiz’, Faz essa por ‘nóiz’, te vejo no pódio […]”
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
LP: Durante o período do mestrado me parecia quase impossível produzir algo que não fosse sobre as disciplinas ou sobre a dissertação. Após, cheguei a publicar um artigo “Pelas ruas, igrejas, becos e festas: trilhando caminhos patrimoniais na cidade de Brumadinho/MG” e estou escrevendo outro.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
LP: Após a conclusão, fui Supervisora de Educação no Instituto Inhotim trabalhando em projetos voltados para o território. Continuo atuando dentro do território de Brumadinho com novos projetos.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
LP: Por ora não, acredito que seja importante espaçar o período do mestrado para o doutorado e construir experiências no mercado de trabalho. Mas, não descarto algum dia realizar um doutorado dentro da Memória Social e/ou História da Cultura.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
LP: Não faria nada diferente, não há porquê pensarmos sobre o que poderia ser feito, dentro das minhas possibilidades e capacidades fiz o que pude e fui quem eu sou.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
LP: Sou muito grata a equipe da Secretaria, especialmente a Alexandra que sempre foi extremamente solícita.
DC: Você por você:
LP: Alguém comum que teve a oportunidade de falar sobre a própria cidade para a comunidade acadêmica.
Entrevistada: Letícia Peixoto Silva
Entrevista concedida em: 17 de julho de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Letícia Peixoto Silva
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela










