
A produção musical de João do Boi, fluxos de informação, oralidade e registro – Entrevista com Fidelis Tavares de Melo

A produção musical de João do Boi, fluxos de informação, oralidade e registro – Entrevista com Fidelis Tavares de Melo
Fidelis Tavares de Melo
fideltmelo@gmail.com
Sobre o entrevistado
Em 2024, Fidelis Tavares de Melo defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob orientação da Profa. Dra. Ivana Aparecida Borges Lins.
Natural de Salvador (BA), Fidelis é graduado em Comunicação Social – Jornalismo e atua com a comunicação institucional como assessor de imprensa do Governo do Estado da Bahia. Entre seus hobbies estão a música e os momentos em família.
Sua dissertação, intitulada “O fluxo da informação na produção musical do mestre João do Boi: da oralidade ao registro físico”, teve como foco a produção musical de um dos mais importantes representantes da cultura do samba chula do Recôncavo baiano, o Mestre João do Boi. A pesquisa abordou conceitos de cultura, oralidade, memória e tradição, evidenciando como esses elementos atravessam a trajetória e a obra do mestre da cultura popular. Seu estudo analisou o fluxo e a disseminação da informação na produção musical de João do Boi, demonstrando a possibilidade de ampliar o diálogo da área com diferentes campos do conhecimento e apresentando o percurso informacional que envolve a preservação e o registro desse patrimônio cultural.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Fidelis Melo (FM): O que me levou a fazer o mestrado foi um desejo. Desde que me formei em Jornalismo, em 2010, tinha a ideia de dar continuidade aos estudos e adquirir conhecimento e títulos acadêmicos. Sobre a inspiração do mote, posso dizer que, o desafio. Trabalhar um tema ligado à Cultura dentro da Ciência da Informação (CI), mostrar que é possível olhar por cima do muro e ver um horizonte de possibilidades era desafiador pra mim. Me sentia um estrangeiro quando cheguei no PPGCI, mas o desafio me impulsionava. Sobre inspiração, creio que tornar a obra do mestre João do Boi conhecida para além do registro sonoro da sua música, era pra mim uma obrigação, um dever a cumprir.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
FM: A Ciência da informação e todas as pessoas que nela buscam seu reconhecimento. E claro que também a Cultura.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
FM: A discussão trazida a partir dos conceitos trabalhados de Fluxo da Informação e Disseminação da Informação sobre a cultura, oralidade, memória, tradição e etnografia. Também a perspectiva de uma narrativa mais fluida de trânsito entre as ciências sociais. Sob o aspecto da tecnologia, é possível observar que as transformações que ela traz não significa esquecer/antagonizar as outras tecnologias que trago para dentro do trabalho, como a oralidade e a memória, na verdade o avanço tecnológico deve ser usado para manutenção das culturas ditas tradicionais. A sociedade acadêmica e não acadêmica interessada nos temas só tem a ganhar, pois encontra nesse trabalho um repositório de uma discussão rica e necessária para descortinar novos horizontes de possibilidades no trato da informação, que neste caso é a produção musical do mestre João do Boi.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
FM: Meu trabalho está inserido dentro da linha da Disseminação da Informação por crer que esta linha dialoga melhor com o tema tratado. Entendo que música é o meio para conhecer culturas e costumes, para além de fruição. A disseminação da informação tem a função de conectar o conhecimento e atuar no uso deste para o desenvolvimento social. Para mim, esse é o espelho. Eu disse anteriormente que um dos beneficiários dos que buscam na CI seu reconhecimento, é isso que estou tentando dizer. É me enxergar nesse lugar através de João do Boi. E a CI me deu essa possibilidade de uma forma desafiadora.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
FM: Não diria um trabalho. A ação que foi decisiva para a minha dissertação foi a provocação de minha orientadora, cuja relação é anterior à academia e que me apresentou a CI, e no desejo de me aprofundar academicamente sobre o mestre João do Boi. Assim, a Profª Drª Ivana Lins me desafiou a desenvolver a partir da CI e não em outros programas ligados à Cultura.
No decorrer das leituras para escrita, me deparei com a dissertação de Erivaldo Nunes, “Cultura popular no Recôncavo Baiano: a tradição e a modernização no samba de roda”, ele até transformou em um livro virtual em 2024; e o livro da pesquisadora Katharina Döring, “Cantador de chula: o samba antigo do recôncavo baiano”, esses são basicamente os que gostaria de recomendar aqui a princípio.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
FM: No meu caso tem um aspecto a destacar. Eu trabalhei como produtor musical do Samba Chula João do Boi, grupo do mestre João do Boi, entre 2016 e 2023, quando o mestre faleceu. Desta forma, utilizei a metodologia de estudo de caso, com uma abordagem qualitativa, além de também trazer o formato de pesquisa descritiva. As técnicas da coleta de dados foram as entrevistas e a observação direta, pelo convívio que tinha com o mestre e seu entorno.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
FM: Na prática da escrita, a maior dificuldade era colocar na terceira pessoa algo que pra mim era a primeira. Falar de João do Boi e de sua produção musical traz um pano de fundo emotivo, pela relação pessoal que tinha o objeto estudado. Outro ponto a destacar foi a criação dos infográficos, para traduzir melhor algumas informações necessárias para os leitores. Também o desafio de sempre anotar as fontes após citar na dissertação.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
FM: Acho que 50/50 de inspiração e transpiração. Mas também dificuldades pela distância. Apesar de ter um contato constante com o mestre, ele era de São Braz, em Santo Amaro-BA, cidade a quase 90 km. Também a pandemia de Covid-19, que interrompeu por dois anos o desenvolvimento do trabalho.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
FM: Entendi que uma dissertação é um trabalho a quatro mãos. Por mais que tenhamos enquanto pesquisadores a responsabilidade da busca das informações e da escrita propriamente dita, a orientação do professor é fundamental para o sucesso do trabalho. Ter alguém sensível à temática da cultura, como a professora Ivana Lins, e poder falar em outra linguagem e depois transpor para a linguagem da CI foi fundamental. Acho uma perda de tempo uma pessoa que se propõe a orientar e ter alcunha de “carrasco”, como se fosse “bacana” ter essa “fama” dentro da academia.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
FM: Não foi fácil, mas posso dizer que foi fundamental contar com o apoio de minha esposa e filhos. Devo tudo a eles, pois foram meu alicerce nos momentos mais complicados, sobretudo na pandemia.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
FM: Se desafiam a olhar por cima do muro da CI, ou de outra ciência a qual você escolheu para desenvolver seu trabalho e buscar dentro de si, ou em suas habilidades, gostos e o que te faz feliz, numa forma de ter esse horizonte mais amplo do tema que busca desenvolver. A CI tem um lastro grande e sólido, devemos deslizar sobre ele pegando tudo que podemos de conhecimento da área para desenvolver o que se pretende enquanto tema.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
FM: Como disse antes, a pandemia de Covid-19 atrapalhou e muito minha vida acadêmica. Como eu nunca parei de trabalhar para poder estudar, considero modesta minha produção. O tempo é importante para isso. Então você tem o privilégio de apenas estudar, você pode, e deve, aproveitar para ter uma alta produção de textos e de participação em congressos e atividades da área.
Sim, eu já publiquei artigos conforme segue:
- MELO, Fidelis Tavares de.; NOBRE, Cássio Leonardo.; DÖRING, Katharina. SAMBA CHULA DE SÃO BRAZ E MESTRE JOÃO DO BOI EM TEMPOS PÓS-MODERNOS: desde o Patrimônio Imaterial até o cenário do World Music. In. Ritmos em Trânsito – História, Música e Musicologia na Bahia Negra – Curitiba : CRV, 2025. 356p.
- MELO, Fidelis Tavares de ; LINS, Ivana Aparecida Borges . Mestre João do Boi e suas canções. Revista Fontes Documentais, v. 5, p. 161-172, 2022.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
FM: Desde que concluí minha dissertação, tenho estado afastado da produção cultural e me dedicado mais ao trabalho com assessoria de imprensa. Pretendo num futuro próximo, quem sabe, me tornar professor universitário.
DC: Pretende fazer doutorado? É na mesma área do mestrado?
FM: Sim, pretendo fazer o doutorado. Mas não sei se dentro da área da CI, ou mais voltado para a Comunicação, que é minha área de origem. Isso ainda está em aberto, mas é certo que assim que possível irei iniciar no doutorado.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
FM: Teria feito todas as entrevistas em audiovisual. A morte de João do Boi foi precoce e avassaladora para mim e para meu trabalho. Ter esse material em audiovisual seria demais.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
FM: O PPGCI me deu a oportunidade de desenvolver uma dissertação “fora da caixa” e com ela ter o título de mestre. Em retribuição, penso que fiz um excelente trabalho, fiz ciência e que espero inspirar outros estudantes em suas trajetórias acadêmicas.
DC: Você por você:
FM: Creio que saí mais rico em conhecimento. Imaginava uma coisa no início e minhas expectativas foram ultrapassadas. Posso dizer que tenho orgulho de mim, do caminho que tracei e dos laços de amizade que tenho na CI.
Entrevistada: Fidelis Tavares de Melo
Entrevista concedida em: 29 de junho de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Lucas Santa Bárbara
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










