
Geografia das placas: do mineral às práticas sócio-histórica e infomemoriais – Entrevista com Everton Lima

Geografia das placas: do mineral às práticas sócio-histórica e infomemoriais – Entrevista com Everton Lima
Everton Fernandes de Lima
evertonfernandeslima789@gmail.com
Sobre o entrevistado
Em 2024, Everton Fernandes de Lima defendeu a dissertação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sob orientação da Profa. Dra. Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira.
Natural de Guarabira (PB), Everton é bacharel em Biblioteconomia e desenvolve o doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Entre seus hobbies estão a leitura, o cinema e passeios ao ar livre, especialmente em parques e praias.
Sua dissertação, intitulada “Geografia das placas: do mineral às práticas sócio-histórica e infomemoriais”, investigou um objeto pouco explorado pela Ciência da Informação: as placas de formatura presentes em instituições de ensino superior. O estudo demonstra que esses artefatos funcionam como documentos que registram trajetórias de estudantes, docentes e servidores, além de revelar aspectos históricos, políticos, culturais e institucionais. A pesquisa evidencia mudanças nos suportes documentais ao longo das décadas e reforça seu valor como patrimônio informacional universitário.
Divulga-CI (DC): O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Everton Lima (EL): A escolha pelo mestrado partiu de uma curiosidade que surgiu ainda na graduação. Ao cursar a graduação em Biblioteconomia na UFPB tive a oportunidade de participar de um projeto de Iniciação Científica, assim, a curiosidade pelas pesquisas foi algo que só aumentou no decorrer dos anos. Quanto à escolha do tema da dissertação, esse é um ponto que gosto bastante, a princípio, tive como proposta o estudo de placas e/ou lápides tumulares, contudo, não gosto do ambiente fúnebre. Em contrapartida, sempre olhei com bastante atenção as placas de formatura dos corredores da UFPB, sempre as vi como um elemento que poderia falar para quem estivesse disposto a ouvir e observar.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
EL: Diria que os principais beneficiados são as pessoas que fazem parte da comunidade da Ciência da Informação, como posto no texto da dissertação, as placas de formatura são objetos inanimados, mas, não mortos, e era necessário expandir os horizontes da CI para esse objeto até então negligenciado. Dessa forma, qualquer pessoa que deseje estudar placas, analisar seus elementos, sejam historiadores, bibliotecários, arquivistas ou cientistas da informação podem encontrar na dissertação um ponto de partida para novas discussões.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
EL: Compreender as placas como documento institucional e memorial é certamente o maior contributo da dissertação. É necessário olhar para esses objetos com maior atenção e saber que ali estão histórias, trajetórias e parte de identidade de diversos grupos nos mais distintos períodos institucionais.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação? Por quê?
EL: A dissertação está inserida na Linha 1 – Memória, Mediação e Apropriação da Informação, linha essa que permite discutir teorias e questões relacionadas à memória no contexto da informação.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
EL: Sem dúvidas! Não se trata de um artigo, dissertação ou tese, mas de um livro: Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história, de Carlo Ginzburg. Nessa obra, o autor apresenta o paradigma indiciário, que se tornou a base metodológica de toda a minha pesquisa. Mais do que oferecer um método de análise, o livro transformou a maneira como passei a observar os objetos de pesquisa. Ao nos debruçarmos sobre a obra de Ginzburg, aprendemos a valorizar os detalhes, os vestígios e os indícios que, muitas vezes, passam despercebidos ou são negligenciados pela maioria das pessoas. Essa perspectiva amplia nosso olhar crítico e abre novas possibilidades de interpretação. No meu caso, permitiu compreender as placas de formatura para além de sua aparência, relacionando cada um de seus elementos ao contexto histórico e social em que foram produzidas, buscando entender o presente de sua criação e os significados que preservam até hoje.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
EL: A revisão da literatura foi o primeiro passo para tornar a dissertação possível. Afinal, antes de iniciar uma pesquisa, é fundamental compreender o que já foi produzido sobre o tema e verificar o potencial científico do objeto de estudo. Em seguida, foi necessário definir como as placas de formatura seriam analisadas e quais procedimentos metodológicos melhor responderiam aos objetivos da pesquisa. Nesse momento, o paradigma indiciário, proposto por Ginzburg, mostrou-se o caminho mais adequado, pois permite interpretar os pequenos detalhes e indícios presentes nos objetos para deles extrair informações e significados. Com base nessa perspectiva, elaborei categorias de análise que contemplaram os aspectos físicos, iconográficos, textuais, sociais e informacionais das placas. Essas categorias possibilitaram identificar, organizar e contextualizar os diferentes conjuntos de informações presentes nos exemplares analisados.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
EL: Quando uma pesquisa aborda um objeto inovador ou ainda pouco explorado, uma das maiores dificuldades costuma ser a escassez de literatura especializada. No meu caso, esse foi o principal desafio. Até onde a revisão da literatura permitiu identificar, não havia estudos que discutissem as placas de formatura como documentos ou como objetos de investigação da Ciência da Informação. Isso exigiu um esforço maior na construção do referencial teórico, na escolha dos autores e na definição dos caminhos da pesquisa. Apesar dos desafios, foi uma experiência extremamente enriquecedora e aprazível, pois possibilitou contribuir para a abertura de um novo campo de discussão.
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
EL: Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder, porque inspiração e transpiração estiveram presentes durante toda a pesquisa, alternando-se conforme cada etapa. Houve momentos em que as ideias fluíram naturalmente, como na escrita da seção “Silogismo: os sinais dos indícios”, em que a inspiração teve um papel mais evidente. Por outro lado, a revisão da literatura exigiu muito mais tempo, disciplina e atenção aos detalhes, não por falta de ideias, mas pelo rigor necessário para compreender e articular os diferentes autores e conceitos. Por isso, não conseguiria atribuir um percentual a cada um desses elementos. Acredito que a dissertação foi resultado do equilíbrio entre a criatividade para propor um olhar novo sobre o objeto e a dedicação necessária para sustentar esse olhar com consistência científica.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
EL: O percurso acadêmico é cheio de desafios, aprendizados e reviravoltas, sejam positivas ou negativas. Ao longo da caminhada, vivenciamos conquistas, mas também frustrações e dificuldades, algumas delas vindas de onde menos esperamos, decepções são uma constante. Nesses momentos, a resiliência torna-se indispensável para seguir em frente. Concluir o mestrado foi um processo difícil, mas chegar à defesa e finalizar esse ciclo mostrou que todo o esforço valeu a pena. Tudo em nossa vida tem início e fim e alguns ciclos precisam ser fechados para que outros possam começar. Persistência e uma rede de apoio, formada por familiares, amigos e pessoas que acreditam em nós, fazem toda a diferença para tornar os obstáculos possíveis de serem superados.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
EL: Não resido com minha família desde 2014, quando me mudei para João Pessoa para estudar. Apesar da distância, minha mãe sempre foi minha maior incentivadora. Quando fui aprovado no mestrado, ela comemorou a conquista com a mesma felicidade que eu. De certa forma, sinto que esse também foi um presente para ela, que sempre acreditou na educação como o caminho para transformar vidas. Embora não conversemos todos os dias, sei que ela torce por mim, acompanha minhas conquistas e sempre me envia as melhores energias. Grande parte da minha trajetória acadêmica é resultado desse incentivo constante.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
EL: A leitura é algo que recomendo, seja dos textos que fazem parte das referências complementares das disciplinas ou do artigo que o professor fez menção em sala de aula, cada leitura é bem-vinda e certamente agregará em suas produções, é bastante material para ler, mas, todos fazem uma diferença significativa na forma com que vamos lidar com nossas investigações e objetos de pesquisa.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
EL: Avalio esse período como bastante produtivo. Ao longo de quase dois anos de mestrado, procurei aproveitar todas as oportunidades de formação, participando de grupos de pesquisa, projetos de pesquisa e extensão, além de eventos científicos nacionais. Entre essas experiências, destaco a participação no Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), onde apresentei e posteriormente publiquei o trabalho “Placas de formatura como símbolo de representação e perpetuação da memória“, resultado direto da pesquisa desenvolvida na dissertação.
Também participei do projeto de pesquisa “Tecendo narrativas: preservação do patrimônio bibliográfico documental do Acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular“, entre outras iniciativas que contribuíram significativamente para minha formação como pesquisador. Outro resultado importante foi a aprovação do artigo “Entre o simbólico e o documental: a representação informacional das placas de formatura”, aceito para publicação na revista Encontros Bibli.
Entretanto, considero que uma das experiências mais transformadoras durante o mestrado foi o estágio-docência na disciplina de “Preservação e Conservação de Acervos”, ministrada para o curso de Biblioteconomia e Arquivologia. Foi nesse momento que despertei um profundo interesse pela área, passando a dedicar parte significativa das minhas pesquisas à preservação, conservação, restauração documental e metodologias de intervenção. Esse envolvimento já resultou na publicação de três artigos em periódicos internacionais com Qualis A, ampliando minha atuação para além do tema da dissertação e consolidando uma nova frente de pesquisa a qual posso dizer que me apaixonei, tendo atualmente alguns resultados como :
Tradición, Cultura e Historia en versos: prácticas de conservación y preservación en folletos de cordel;
Metodología para la conservación y restauración de documentos: diagnóstico de un manuscrito regio de 1822;
Explorando os espaços de memória: o papel do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular na preservação documental.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
EL: Tenho o objetivo de seguir a carreira acadêmica, então, sigo com meus estudos, tive a experiência de atuar como professor substituto no Departamento de Ciência da Informação – DCI/UFPB. Atualmente realizo algumas leituras para concursos na área de Biblioteconomia.
DC: Como está o doutorado? É na mesma área do mestrado?
EL: Atualmente estou cursando o doutorado em Ciência da Informação também pelo PPGCI da UFPB. Estou na mesma linha de pesquisa, mas, deixei as placas um pouco de lado para trabalhar com um objeto teórico, uma tese mais epistemológica, que muito em breve será qualificada.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
EL: Certamente iria aprofundar meus estudos em língua inglesa ou até mesmo o francês, parte considerável dos textos sobre memória, incluindo os clássicos, são em outros idiomas e isso é algo que impactou no desenvolvimento da dissertação.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
EL: O PPGCI foi muito solícito, seja na pessoa dos coordenadores ou equipe de secretariado, sempre muito abertos ao diálogo. Além disso, os eventos propostos periodicamente pelo PPGCI ajudaram a entender um pouco melhor a própria CI pelo ponto de vista de diferentes autores e pesquisadores, algo que auxiliou diretamente em minha formação. No que se refere a minhas contribuições, sempre participei das atividades propostas, busquei interagir com todos, participei de algumas comissões e atuei como representante discente, buscando sempre mediar os interesses dos discentes e do programa.
DC: Você por você:
EL: Sou um pouco tímido, dedicado, curioso e, às vezes, preguiçoso. Gosto de descobrir as possibilidades da vida, embora, em muitos momentos, o receio também faça parte do caminho. Valorizo o carinho das pessoas que estão próximas e amo plantas com a mesma intensidade com que amo doces. Assim como Gandalf, de O Senhor dos Anéis, acredito que “são as pequenas coisas, as tarefas diárias das pessoas comuns, que mantêm o mal afastado. Simples ações de bondade e amor” (Tolkien). Procuro levar essa ideia para a vida, acreditando que viver bem é, acima de tudo, fazer o melhor possível no presente e cultivar gestos que tornem o mundo um pouco mais humano.
Entrevistada: Everton Fernandes de Lima
Entrevista concedida em: 01 de julho 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Marcelly Yasmim Portela
Fotografia: Everton Fernandes de Lima
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela










