
Acessibilidade informacional para usuários surdos na biblioteca da Universidade Federal Rural da Amazônia – Entrevista com Lisonete Lira

Acessibilidade informacional para usuários surdos na biblioteca da Universidade Federal Rural da Amazônia – Entrevista com Lisonete Lira
Lisonete da Silva Lira
lisonete.lira@ufra.edu.br
Sobre a entrevistada
Em 2024, Lisonete da Silva Lira defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Pará, sob orientação da Profa. Dra. Tania Chalhub.
Natural do Pará, Lisonete é Bibliotecária da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA, Campus Tomé-Açu (PA) e atualmente realiza o doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Pará. Entre seus hobbies está o canto, atividade que pratica na Igreja Católica desde a adolescência e que mantém até hoje.
Sua dissertação, intitulada “Acessibilidade informacional para usuários surdos na biblioteca da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA, campus Belém”, investigou os serviços de mediação da informação oferecidos pela biblioteca universitária para atender às demandas de usuários surdos que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como forma de comunicação. A pesquisa analisou os parâmetros de acessibilidade informacional a partir da aplicação de questionário bilíngue (Português-Libras) aos usuários surdos, de entrevistas com servidores da biblioteca e da análise de documentos oficiais. Os resultados mostraram os desafios e experiências vivenciadas pelas pessoas surdas no acesso à informação.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Lisonete Lira (LL): Voltei a tomar gosto pelos estudos em 2020 quando cursei uma especialização na UFRA “Linguagem, Cultura e Formação Docente”, então senti a necessidade de continuar. Mas não foi tão simples assim; antes eu não me sentia preparada para encarar um mestrado, achava que eu não conseguiria ser aprovada. Depois da especialização percebi que eu tinha capacidade de passar, então me dediquei, alguns amigos me ajudaram e incentivaram e assim encarei com fé e coragem, deu certo rsrs. Quanto a escolha do tema, eu havia passado por algumas experiências com atendimento de pessoas surdas na biblioteca, a partir de então me interessei pela Libras, fiz uma capacitação, depois um curso básico e uma especialização, comecei a participar da comissão do Núcleo de Acessibilidade da Ufra (Acessar), me envolvi em projetos de pesquisa na área. Como o mestrado foi no programa de Ciência da Informação, surgiu a ideia de trabalhar a mediação da informação para os usuários surdos.
DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alcançados?
LL: Os usuários surdos que frequentam a biblioteca, mas também, os servidores, pelo fato de despertar o senso de empatia, a reflexão de que são responsáveis nesse processo de mediação da informação acessível a esses usuários, e capazes de fazer a diferença na vida dessas pessoas com o simples fato de querer aprender o básico da Libras para se comunicar com eles.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
LL: A pesquisa mostra que ainda existem poucos estudos sobre o acesso à informação por pessoas com deficiência, principalmente na Região Norte do Brasil. No caso das pessoas surdas, o estudo chama atenção para a importância de as bibliotecas estarem preparadas para atendê-las, respeitando sua sua diferença linguística e garantindo seus direitos.
A principal contribuição para a sociedade é mostrar que não basta ofertar vaga na universidade ou permitir que a pessoa surda entre numa biblioteca, é necessário garantir condições para que ela consiga realmente utilizar os serviços, compreender as informações, estudar e permanecer nesses espaços com autonomia e qualidade. Portanto, a pesquisa defende uma sociedade mais inclusiva, na qual pessoas surdas tenham as mesmas oportunidades de acesso à informação e à educação. Isso pode contribuir tanto para sua formação pessoal quanto profissional e para sua participação mais efetiva na sociedade.
Então, é necessário criar condições para que a pessoa surda consiga usar a informação, aprender, permanecer na universidade e concluir sua formação com qualidade e igualdade de oportunidades.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
LL: A pesquisa está inserida na linha de Mediação e Uso da Informação, por apresentar estreita relação com a proposta do trabalho, que aborda a mediação da informação destinada aos usuários surdos no espaço da biblioteca.
DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
LL: Sim, destacam-se dois trabalhos que inclusive citei na epígrafe, mas aqui destaco um deles. As pessoas surdas não se consideram “deficientes”, elas apenas possuem uma maneira diferente de se comunicar, possuem uma língua própria que é a Libras. A autora Audrei Gesser (2009) deixa isso muito claro no capítulo 10 do livro “Estudos surdos IV”, organizado por Ronice Quadros e Marianne Stumpf, o capítulo “Do Patológico ao cultural na surdez: para além de um e de outro ou para uma reflexão crítica dos paradigmas.”
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
LL: A pesquisa é um estudo de caso, numa biblioteca universitária como já citado, então foi realizado pesquisa bibliográfica tanto em livros, teses, artigos, e em bases de dados como Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), Base de Dados de Teses e Dissertações (BDTD) e o Repositório Digital Huet do Instituto Nacional de Educação de Surdos. Os sujeitos envolvidos foram os servidores da biblioteca e os usuários surdos falantes de Libras. Dessa forma foi necessário aplicar um questionário bilíngue (Português-Libras) para facilitar a comunicação com esses usuários. Foi realizada a análise de conteúdo de acordo com a autora Bardin (2016), e foi possível observar quatro categorias.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
LL: Uma das dificuldades foi a demora na aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da universidade, pois eu só podia iniciar a entrevista e aplicar o questionário após essa aprovação. Outra dificuldade foi a demora do profissional intérprete da UFPA para traduzir o questionário para Libras. A professora Tania conseguiu ajuda de um colega intérprete, e eu também pedi auxílio a um amigo professor da Ufra.
Mas minha maior dificuldade na escrita ocorreu quando eu já estava na análise dos dados: minha amada mãe, Benedita Lira, faleceu… Foi terrível e inacreditável. Eu não conseguia raciocinar… Foi necessário solicitar uma prorrogação do prazo ao PPGCI e da minha licença na Ufra. Cheguei a pensar que não ia conseguir concluir. É uma dor inexplicável…
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
LL: 60% de inspiração e 40% transpiração.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
LL: Sim, eu tive uma orientadora que me compreendeu e segurou na minha mão nos momentos mais difíceis dessa caminhada. Isso foi fundamental. Mas não poderia deixar de destacar meus colegas de trabalho da biblioteca e os usuários surdos que toparam participar da pesquisa. Sem a contribuição deles, seria inviável o sucesso da dissertação.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
LL: O apoio da família foi fundamental. Para assistir às aulas, eu me deslocava de Tomé-Açu, onde moro, até a capital, Belém, que fica a aproximadamente 200 km de distância. No primeiro semestre, estudando e trabalhando, foi cansativo: viajava no ônibus das 3h da madrugada para estar na UFPA às 8h e retornava na manhã seguinte, às 6h, para trabalhar nos turnos da tarde e da noite. Isso ocorria duas vezes por semana.
A partir do segundo semestre, consegui a licença para estudar. Em Belém, eu ficava na casa de minha irmã, que me acolheu durante todo esse período, principalmente quando nossa mãezinha foi para junto de Deus.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
LL: Se forem trabalhar com seres humanos, submetam o projeto de pesquisa o quanto antes ao Comitê de Ética.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
LL: Foi bom, mas preciso melhorar. Participo do projeto de pesquisa Acessibilidade, Diversidade e Políticas Públicas, da professora Tania Chalhub, vinculado ao Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).
Apresentamos dois trabalhos no III Congresso Internacional em Humanidades Digitais (HDRio2023). O primeiro, “A domótica assistiva na criação de uma casa inteligente para as pessoas com deficiência (PcD)”, foi escrito por Élida Maia e por mim, em coautoria com os professores Tania Chalhub, Mônica Tenaglia e Roberto Junior. O segundo, “Acessibilidade da informação: em foco os objetos digitais do Repositório para educação de surdos”, é de autoria da professora Tania, minha e de Élida.
Apresentamos também, no XXIII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (XXIII ENANCIB 2023), o trabalho “Ciência da informação, acessibilidade e inclusão às pessoas com deficiência: um levantamento nos anais do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação”, de minha autoria, em coautoria com Élida Maia e as professoras Tania e Mônica, disponível nos Anais do evento.
Em 2025, apresentei, no XXV ENANCIB, um trabalho resultante da pesquisa, intitulado “Mediação da informação para usuários surdos: estudo de caso numa biblioteca universitária na Região Norte do Brasil”, disponível nos anais do evento. Todos os trabalhos foram relevantes, mas destaco os apresentados nas edições do ENANCIB.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
LL: Após a conclusão da dissertação, fui convidada pela professora Tania a palestrar sobre minha pesquisa na turma de mestrado e doutorado do PPGCI-UFPA, em sua disciplina “Acessibilidade Informacional na Ciência da Informação”. Depois, tive a oportunidade de palestrar na “V Semana do Livro e da Biblioteca da UFRA”. Foi importante dar esse *feedback* à biblioteca onde fiz a pesquisa e provocar em meus colegas a reflexão em relação à acessibilidade informacional para os usuários surdos. Pretendo reativar a comissão de acessibilidade da rede de bibliotecas da Ufra (Redeteca).
DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
LL: Sim, fui aprovada este ano no processo de Doutorado do PPGCI-UFPA, e vou trabalhar na mesma área do mestrado.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
LL: Teria submetido o projeto de pesquisa ao Comitê de Ética com mais antecedência.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
LL: O PPGCI-UFPA, primeiro Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Região Norte, representa uma conquista importante em minha trajetória acadêmica e pessoal. Eu não pretendia ficar tão longe da minha família para estudar. Por esse motivo, decidi tentar o mestrado somente quando surgiu a oportunidade em Belém.
A experiência no programa me possibilitou retornar ao ambiente acadêmico e vivenciar intensamente a rotina de estudar, pesquisar, escrever, apresentar trabalhos, participar de eventos científicos, viajar, construir novas amizades e adquirir novos conhecimentos. O PPGCI-UFPA ampliou minhas perspectivas acadêmicas e me motivou a sonhar mais alto, despertando em mim o desejo de cursar o doutorado.
Quanto à minha contribuição para o programa, tive a oportunidade de colaborar em eventos promovidos pelo PPGCI e também de apresentar trabalhos em eventos científicos, contribuindo, dessa forma, para a divulgação das pesquisas desenvolvidas no âmbito do programa.
DC: Você por você:
LL: Eu sou filha de Benedita e Moacir Lira, a sétima de nove filhos. Sempre estudei em escola pública. Fui estudar em Belém por teimosia, porque meus pais não tinham condições de me manter financeiramente na capital. Trabalhei como babá e até como empregada doméstica para pagar o cursinho pré-vestibular. Entrei na faculdade tarde, aos 25 anos.
Mantive-me durante todo o período da graduação com bolsas de estágio. Concluí o curso e fui trabalhar na minha área no estado de Roraima, onde passei no concurso público federal para o IFRR. Depois, fui redistribuída para o IFPA, campus Altamira, no Pará, e, em seguida, para a UFRA, campus Tomé-Açu, minha cidade natal.
Considero-me amiga, generosa, responsável e dedicada em tudo que me proponho a fazer. Busco praticar a empatia e a caridade, odeio injustiça e ingratidão. Sou católica praticante e tudo o que faço ou pretendo fazer apresento ao Senhor e a Nossa Senhora. Amo minha família e minha profissão, sou feliz!
Entrevistada: Lisonete da Silva Lira
Entrevista concedida em: 24 de agosto de 2026
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima
Fotografia: Ellen Anjos
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










