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v. 3, n. 09, set. 2025
Desenvolvendo competências informativas na biblioteca escolar – Entrevista com Erica Campos

Desenvolvendo competências informativas na biblioteca escolar – Entrevista com Erica Campos

Desenvolvendo competências informativas na biblioteca escolar – Entrevista com Erica Campos

Erica Silva Campos

ericah.erica@gmail.com

Sobre a entrevistada

Em 2024, Erica Silva Campos defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo, sob orientação da Profa. Dra. Meri Nadia Marques Gerlin e coorientação da Profa. Dra. Margarete Farias de Moraes.

Atualmente, Erica atua como bibliotecária na rede de bibliotecas escolares do município de Vila Velha (ES). Licenciada em História e bacharela em Biblioteconomia, é natural da Bahia, casada e mãe de uma menina. Entre seus hobbies estão a escrita – e já publicou seu primeiro livro infantil “SOS Floresta” -, além do gosto por filmes de temática histórica.

Sua dissertação, intitulada “Enfrentamento da desinformação por meio do desenvolvimento das competências informativas na biblioteca escolar”, defende o papel pedagógico da biblioteca escolar no combate à desinformação, articulando as competências informativas (Competência em Informação, Competência leitora, Competência digital, Competência infomidiática e Competência infocomunicacional). O estudo evidencia como a biblioteca pode fomentar nos estudantes do ensino fundamental habilidades e atitudes voltadas à busca crítica, avaliação e uso ético da informação em diferentes formatos e modalidades.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Erica Campos (EC): Os processos educativos, assim como a importância da biblioteca e a atuação do bibliotecário escolar no desenvolvimento da autonomia na construção do conhecimento, têm sido parte integrante do meu percurso de crescimento e evolução profissional, despertando questionamentos e interesses de estudo. A escolha do tema surgiu a partir da compreensão de que, diante da enorme quantidade de informações produzidas e compartilhadas diariamente, torna-se cada vez mais urgente formar sujeitos críticos, com habilidades para se apropriar da informação, tanto em meios físicos quanto digitais. Nesse contexto, a biblioteca escolar revela-se um espaço privilegiado para o desenvolvimento de competências informacionais, contribuindo para que, desde cedo, a criança desenvolva conhecimentos, habilidades e atitudes éticas no ambiente da informação. Dessa forma, despertou-se meu interesse em investigar a contribuição da biblioteca escolar na formação de sujeitos críticos na sociedade contemporânea, por meio de práticas que favoreçam o aprimoramento das competências informativas, especialmente aquelas voltadas para o enfrentamento da desinformação.

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

EC: A sociedade de forma geral. Mas especificamente, pesquisadores, bibliotecários e outros profissionais da área da informação, professores e educandos com resultados que se prolongam ao longo da vida. 

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

EC: Esperamos contribuir com estudos que reflitam o comportamento informacional dos cidadãos na atualidade mediante ao fenômeno da desinformação, possibilitar a compreensão do contexto de desinformação que se instaura com o fenômeno das fake News, da hiperinformação, das notícias manipuladas, dentre outros e, ainda, promover uma reflexão de cunho social sobre a responsabilidade dos cidadãos ao produzir e divulgar conteúdos informacionais.

Busca-se também, potencializar a ação bibliotecária e de outros educadores no desenvolvimento das competências informativas frente à desinformação, auxiliando no desenvolvimento de atividades que contribuam para o desenvolvimento de habilidades informacionais para identificação de desinformação, acesso e uso de informações confiáveis.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

EC: Meu trabalho está inserido na  Linha de Pesquisa: Cultura, Mediação e Uso da Informação  que  propõe investigações sobre as relações entre a cultura, a informação e a sociedade sob os aspectos: institucionais, científicos e educacionais. Tem como objetivo realizar estudos de usos, de práticas e representações culturais, mediação cultural, multiculturalismo, práticas colaborativas no âmbito escolar, competência em informação e competência leitora. Nesta linha de pesquisa encontrei solidez para discutir assuntos relacionados às competências informativas (Competência em informação e Competência leitora) e práticas colaborativas no desenvolvimento dessas e outras competências na Biblioteca escolar.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

EC: Sim. Dou destaque aos trabalho de minha orientadora Meri Nadia Marques Gerlin. Especificamente ao livro:

GERLIN, M. N. M. Competência leitora e competência em informação: saberes e fazeres necessários ao acesso da informação (hiper)textual no século XXI. 8. ed. Vitória, ES: Edufes, 2020. Disponível em: http://repositorio.ufes.br/handle/10/11976 . Acesso em 06 set. 2025.

Neste livro, a autora realiza uma análise aprofundada da relação entre leitura e competência em informação, com ênfase no acesso à informação em ambientes digitais. Ela defende a necessidade de desenvolver habilidades de leitura e compreensão textual tanto em formatos tradicionais quanto digitais, destacando a importância dessas competências para a formação de indivíduos críticos e autônomos no século XXI. A obra parte do pressuposto de que, diante da enorme quantidade de informações disponíveis na era digital, é fundamental preparar as pessoas para lidar com esse contexto de maneira ética, crítica e eficaz. Para isso, Gerlin enfatiza a importância de promover, desde a educação básica, ações voltadas ao desenvolvimento da competência leitora e informacional.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

EC: Optamos por utilizar uma mescla das pesquisas bibliográfica e participante de forma a observar ações e práticas para o desenvolvimento das competências informativas junto aos estudantes na Biblioteca Escolar que colaborem para o enfrentamento da desinformação. Na pesquisa bibliográfica a coleta de dados se deu por meio de levantamento e análise da literatura na área de Ciência da Informação. No processo de busca nas bases de dados, utilizamos os termos “Biblioteca escolar” AND “Atuação bibliotecária” AND “Formação” AND “Ciência da informação” todos articulados aos termos “Competências” e “Desinformação”. Na pesquisa participante, a coleta de dados contemplou a aplicação de questionários aplicados aos alunos e aos professores.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

EC: Minha maior dificuldade foi a falta de tempo, já que, por estar em estágio probatório, não consegui liberação do trabalho para me dedicar à pesquisa. Com isso, precisei conciliar as demandas do trabalho, da família e da própria pesquisa.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

EC: Acredito que seria cerca de 15% inspiração e 85% transpiração. Esta pesquisa é resultado de muito trabalho. Reconheço que a inspiração é importante, mas acredito que o sucesso depende, principalmente, do esforço e da dedicação empenhados.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

EC: A conquista do mestrado foi a realização de um sonho que, em certos momentos, pensei não ser possível. No entanto, estive cercada por pessoas que me incentivaram e contribuíram para que esse objetivo se concretizasse. Sou imensamente grata à direção da escola onde a pesquisa foi desenvolvida, aos alunos e professores que gentilmente responderam aos questionários, à Secretaria de Educação do município de Vila Velha no Estado do Espírito Santo pela autorização para realização da pesquisa, aos docentes do PPGCI/UFES e, em especial, às minhas orientadoras.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

EC: Minha família esteve ao meu lado durante toda essa trajetória: celebrou comigo as conquistas, compartilhou minhas inquietações, suportou minha ansiedade e minhas ausências, e me ofereceu um apoio incondicional.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

EC: Recomendo que outros mestrandos que venham a tomar meu trabalho como ponto de partida considerem a possibilidade de aprofundar a investigação em contextos diversos, ampliando o diálogo com práticas pedagógicas, políticas públicas e tecnologias da informação. Também sugiro que explorem metodologias participativas, ouvindo ativamente os sujeitos envolvidos nos processos de formação e acesso à informação. Acima de tudo, que mantenham o compromisso com a relevância social da pesquisa, buscando sempre conectar teoria e prática de forma crítica e transformadora.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

EC: Posso afirmar que tivemos uma produção científica significativa ao longo do mestrado. Participei de ações do Projeto de Extensão Informa-Ação e Cultura e atuei no Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação e Trabalho de Arquivistas e Bibliotecários, certificado pelo CNPq, dentro da linha de pesquisa Sociedade, Informação e Cultura(s). Também integrei o grupo de pesquisa Competência Leitora e Competência em Informação: Saberes e Fazeres Transdisciplinares no Campo da Ciência da Informação, da Universidade Federal do Espírito Santo. Além disso, realizamos a publicação de alguns artigos e participamos de eventos científicos em âmbito nacional e internacional, com a apresentação dos trabalhos desenvolvidos.

    1. CAMPOS, E. S.; et al.. Reflexões no campo da Ciência da Informação sobre a construção da memória social nas redes digitais. Revista P2P e INOVAÇÃO, v. 11, v. 1, 2024. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/303747 . Acesso em: 06 set. 2025.

    2. CAMPOS, E. S.; GERLIN, M. N. M. Competência em informação e formação para cidadania: uma revisão de literatura na base de dados Brapci. Revista EDICIC, v. 2, n. 4, 2022. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/258895 . Acesso em: 06 set. 2025.

    3. CAMPOS, Érica Silva; GERLIN, Meri Nadia Marques; MORAIS, Margarete Farias de. A função educativa da biblioteca escolar no enfrentamento da desinformação por meio do desenvolvimento das competências em informação e leitora. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (ENANCIB), 24., Vitória. Anais… Vitória, ES: ANCIB, 2024. Disponível em: https://enancib.ancib.org/index.php/enancib/xxivenancib/paper/view/2733 . Acesso em: 06 set. 2025.

Além das atividades já mencionadas, tivemos a honra de participar da XIII edição do Seminário Hispano-Brasileiro de Pesquisa em Informação, Documentação e Sociedade, realizado em 2024, em Madri. Na ocasião, apresentamos o trabalho intitulado “Competências para o enfrentamento de boatos, notícias deturpadas e outras formas de informações falsas: estudo exploratório sobre o fenômeno da desinformação na sociedade contemporânea sob a perspectiva da Ciência da Informação”. Atualmente, estamos aguardando a publicação dos anais do evento.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

EC: Como mencionei anteriormente, atuo na biblioteca escolar desenvolvendo ações voltadas para o fortalecimento da competência em informação da comunidade escolar. Pretendo seguir no ambiente educacional, contribuindo para a formação de cidadãos mais críticos e autônomos na construção do conhecimento.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

EC: Sim. pretendo seguir para o doutorado, dando continuidade aos estudos na área da Ciência da Informação ou Educação. Desejo aprofundar as investigações iniciadas no mestrado, especialmente no que diz respeito ao papel das bibliotecas escolares na formação crítica de leitores e no desenvolvimento da competência em informação. Meu objetivo é contribuir com pesquisas que fortaleçam as práticas educativas e informacionais, promovendo inclusão, autonomia e transformação social por meio do acesso qualificado à informação.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

EC: Se eu tivesse começado com o conhecimento que tenho hoje, teria planejado algumas etapas com mais clareza e buscado parcerias desde o início. Também teria dado mais atenção à gestão do tempo e à importância de registrar cada fase do processo. No entanto, reconheço que muitos aprendizados só são possíveis com a experiência, e cada desafio enfrentado foi essencial para meu desenvolvimento.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

EC: O Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo ampliou minha visão crítica e aprofundou meus conhecimentos teóricos e metodológicos. Foi fundamental para minha formação como pesquisadora, fortalecendo meu compromisso com a produção de conhecimento relevante para a sociedade. Além disso, possibilitou trocas valiosas com colegas e professores, que enriqueceram ainda mais minha trajetória. Em contrapartida, dediquei-me com empenho à pesquisa, contribuindo para a visibilidade do programa por meio de publicações e participação em eventos acadêmicos.

DC: Você por você:

EC: Sou uma profissional apaixonada pela educação e pela transformação que o conhecimento pode gerar na vida das pessoas. Enxergo a biblioteca não apenas como um lugar de livros, mas como um centro vivo de aprendizagem, reflexão e desenvolvimento crítico. Ao longo da minha trajetória, tenho buscado promover ações que estimulem a autonomia, a curiosidade e a competência em informação da comunidade escolar. Valorizo os desafios que me fizeram crescer, as trocas que ampliaram meu horizonte e o propósito que me move: contribuir para a formação de sujeitos mais conscientes, críticos e preparados para o mundo.


Entrevistada: Erica Silva Campos
Entrevista concedida em:  31 de julho de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Naiara Raíssa da Silva Passos
Fotografia: Erica Silva Campos
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos

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