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v. 3, n. 09, set. 2025
Bibliotecas Escolares e Educação Antirracista / Afrocentrada – Entrevista com Guilherme Costa

Bibliotecas Escolares e Educação Antirracista / Afrocentrada – Entrevista com Guilherme Costa

Bibliotecas Escolares e Educação Antirracista / Afrocentrada – Entrevista com Guilherme Costa

Guilherme Fani Oliveira Machado da Costa

guilhermefani@edu.unirio.br

Sobre o entrevistado

Em 2024, Guilherme Fani Oliveira Machado da Costa defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPGB/UNIRIO), sob orientação da Profa. Dra. Daniele Achilles Dutra da Rosa

Atualmente, Guilherme atua como bibliotecário e professor na Secretaria Municipal de Educação de Niterói, no Rio de Janeiro, onde lidera a Coordenação de Bibliotecas Públicas e Escolares. Entre seus hobbies estão a leitura, além de frequentar sambas, praias e bares. 

Sua dissertação, intitulada “Bibliotecas Escolares e Educação Antirracista/Afrocentrada”, teve como campo de pesquisa as bibliotecas escolares públicas de Niterói (RJ). O estudo investigou projetos, ações e atividades alinhados à Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira na Educação Básica. Ao cartografar e registrar essas práticas, Guilherme identificou pistas de trabalhos autorais, individuais e coletivos, em afro-perspectiva, que se contrapõem à colonialidade do saber e do viver. A pesquisa apontou, ainda, para possibilidades educativas baseadas em epistemologias não hegemônicas, revelando novas formas de atuação da biblioteca escolar no contexto da educação antirracista.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Guilherme Fani Oliveira Machado da Costa (GC): Sou profissional da educação desde a primeira graduação, atuei e atuo com bibliotecas escolares há uma década. Estudar, para mim, é algo natural e para o resto da vida. Por isso fiz o mestrado, por isso me encaminho pro doutorado e, também por isso, sigo nos cursos e outras aprendizagens não formais. Quanto ao tema de pesquisa, destaco que sou um home negro. É impossível ser um cidadão consciente e não adotar uma postura antirracista no Brasil. Milito em favor da negritude, da equidade social. Penso que um pesquisador é um ser social antes de tudo! Eu sou um homem negro, bibliotecário, educador. Enveredei pelo que me mobiliza.

DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?

G.C.: A Rede Municipal de Educação que foi campo de minha pesquisa. As discussões sobre colonialidade do saber, violência colonial, mediações de informação e de leituras em afro-perspectiva estão acontecendo. 

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade? 

G.C.: A contribuição de um outro olhar epistemológico na produção de ciência. O registro do tempo histórico que revela uma Rede ativa e pulsante em favor de uma educação democrática e antirracista. A itinerância da pesquisa, produzindo ondas e movimentos para além do produto “dissertação”.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

G.C.: A linha de pesquisa é Biblioteconomia, Cultura e Sociedade. A biblioteconomia escolar se produz nas interlocuções realizadas entre os sujeitos da biblioteca e seus usuários. Identificar quais mediações culturais/educacionais aconteciam nas bibliotecas investigadas e como estas mediações contribuíram para a solidificação da cultura dita não hegemônica foi a razão de ser de minha pesquisa.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

G.C.:  Pesquisar decolonialidade é pesquisar em rede, de modo coletivo. Muitos são as autoras e autores que molharam o caminho para que eu pisasse no chão fresco, mas saliento aqui uma indicação do prof. Luiz Carlos de Souza, no momento da qualificação do mestrado, que fez minha cabeça “explodir” em milhares de sinapses e possibilidades de articulação. O texto de Aline Costa, Carlos Martins e Heloise Silva “Necroeducação: reflexões sobre a morte do negro no sistema educacional brasileiro.” 

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

G.C.: Por se tratar de pesquisa documental, trilhei o caminho da análise de conteúdo, proposto pela francesa Laurence Bardin. No entanto, manejar uma teórica branca e europeia me incomodava um pouco ante ao teor da pesquisa. Minha experiência enquanto profissional e pesquisador chamava atenção para ausências que Bardin e sua metodologia não conseguiam dar conta de pinçar. Então, trilhei pela escrevivência de Conceição Evaristo, enquanto método, para conseguir alcançar as ausências que Bardin não pode.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

G.C.: Falo com tranquilidade que a maior dificuldade é adequar o texto e a voz autoral para o formato acadêmico hegemônico. Produzir de acordo com este “gênero textual”, dentro de uma estrutura pré-moldada, engessada, rígida, me incomodou desde o princípio. Minha orientadora e eu fomos adequando como podíamos, mas AINDA não dá pra fugir disso.

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

Nome: Penso que 50% inspiração, 50% trabalho e transpiração. Todo o processo de mestrado se deu de forma muito respeitosa e acolhedora. A prof. Daniele Achilles, minha orientadora, sabia ouvir, reconhecer as potencialidades do texto e orientar para um caminho sólido e de sinergia com o que eu gostaria de dizer. Além disso, preciso mencionar que o PPGB/UNIRIO é um programa de mestrado profissional que se propõe, de fato, a acolher os pesquisadores trabalhadores, algumas disciplinas foram ofertadas no turno da noite, estratégias de ensino a distância foram incentivadas em alguns momentos. O corpo docente tinha representatividade negra, mediava diálogos interessantes e respeitosos, os colegas estudantes eram solidários. Sempre ouvi que o mestrado é um momento de muita dificuldade pelo tempo corrido, pelas muitas disciplinas e entregas e, de fato, aí está os 50% de transpiração, entretanto, a inspiração conseguiu dar conta de equilibrar as ansiedades. 

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

G.C.: Penso que ler literatura ao longo do processo me auxiliou na desopilação, trazia algum frescor para as reflexões. Escolher com cuidado as disciplinas, a banca de qualificação e defesa também são questões importantes a serem consideradas. 

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

G.C.: Foi excelente! Minha mãe me deu muito apoio, compreendeu as jornadas de estudo e silêncio, esteve comigo na defesa do mestrado, conseguimos equilibrar bem as presenças e ausências.

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

G.C.: Em primeiro lugar, que se enveredem por pesquisas que são caras para eles enquanto indivíduos. Passamos muito tempo estudando e refletindo a temática pesquisada, portanto, o tema tem de ser muito especial e fazer muito sentido para nossa vida. Além disso, recomendo que o estudo não se construa apartado da ação, se meu trabalho é o ponto de partida, então que ele seja ampliado, que outras experiências educacionais decoloniais/antirracistas/afro-referenciadas sejam investigadas, comunicadas e que esta ação investigativa fortaleça a práxis.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

G.C.: Acredito ter sido um estudante muito produtivo para o programa. Circulei bastante, publiquei em anais de congressos e em alguns periódicos. 

O produto final do mestrado foi um curso, cujo título faz uma brincadeira com um artigo do Luiz Percival Leme Britto, chamado “Para que serve a literatura? Para nada. E para tudo! Mediações de literaturas afro-brasileiras”. O curso foi divido em quatro módulos e discute primeiro colonialismo e violência colonial; racismos cotidianos; leitura, literatura e seus deslocamentos; literatura afro-brasileira ou negro-brasileira. Em sua primeira edição, o curso foi ministrado para os bibliotecários escolares e alguns professores da Rede Municipal de Educação de Niterói, além de outros participantes. Na segunda edição o curso foi ofertado exclusivamente para as equipes das bibliotecas públicas da cidade. 

EQUIPE PROMOÇÃO DA LEITURA/SME/FME. Para que serve a literatura? Para nada. E para tudo: mediações de leituras afro-brasileiras. Padlet, [s.d.]. Disponível em: https://padlet.com/cplfmeniteroi/para-que-serve-a-literatura-para-nada-e-para-tudo-media-es-d-nq9kfgin6kvime89 

. Acesso em: 6 set. 2025.

Além do curso, apresentei os textos “Sistema de Bibliotecas Escolares Municipais de Niterói: Percursos para uma Educação Antirracista” no XII CONINTER e “Mediação de leitura literária na promoção de diálogos sobre memória, identidade e diversidade: lendo Julian é uma sereia” no V Colóquio Raça e Interseccionalidades / I CINALC.

Ambos os textos foram revistos, ampliados e publicados como artigo na RevistAleph, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFF e Revista Bibliomar vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PROGCIN) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Com a colega Renata Oliveira da Silva, publiquei um capítulo no livro “Brazilian transcritical infromation studies” intitulado “Appearances instead of slight deceptions in diversity: professional ethics in public and school libraries“.

Uma versão revista do capítulo do livro foi publicada em português no periódico Biblioteca Escolar em Revista, ligada ao Departamento de Educação, Informação e Comunicação – DEDIC da USP, o artigo se chama “Bibliotecas públicas e escolares: similaridades, enganos e possibilidades” .

Todas as publicações foram supervisionadas e orientadas pela prof. Daniele Achilles e, em alguns casos, outros professores do PPGB/UNIRIO também estiveram envolvidos.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

G.C.: Venho realizando algumas formações continuadas na Rede em que atuo, estou participando do Grupo de Estudos e Pesquisas Formação de Professores, Currículo (s), Interculturalidade e Pedagogias Decoloniais (GFPPD) do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIRIO PPGEdu/UNIRIO, submetendo alguns projetos de pesquisa para o doutorado em educação.

DC: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?

G.C.: Sim! Pretendo fazer o doutorado na Educação, não mais na Biblioteconomia ou Ciência da Informação.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

G.C.: Na verdade, não faria nada de diferente! As experiências foram excelentes. Torço para vivenciar o mesmo no doutorado.

DC: O que o Programa de Pós Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

G.C.: Eu publiquei bastante pelo PPGB, acredito ter contribuído com a produção do programa junto ao CNPq. O PPGB me possibilitou encontros e interlocuções que ainda reverberam.

DC: Você por você:

G.C.: Sou filho da escola pública. O primeiro da família a se graduar numa universidade pública e trilhar a pós-graduação, também na universidade pública. Atualmente também sou funcionário público na Secretaria de Educação. A educação pública é meu compromisso para a vida toda! A biblioteca escolar foi meu refúgio por muitos e muitos anos da vida escolar. A literatura me permitiu vislumbrar outros lugares, outras histórias e outras possibilidades de vida. Em algum momento percebi que a literatura e a imaginação devolveriam a minha história, a história da população negra do Brasil. Sinto que no momento que me compreendi um homem negro despertei para nunca mais adormecer. O compromisso com a educação se aliou à militância pela equidade, pela superação do racismo e acredito que a arte, sobretudo a arte da palavra, auxiliam nesse movimento. Gosto de pensar que hoje devolvo a outros Guilhermes o que um dia recebi pelas mãos da educação pública.


Entrevistado: Guilherme Fani Oliveira Machado da Costa
Entrevista concedida em:  17 de julho de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Naiara Raíssa da Silva Passos
Fotografia: Guilherme Fani Oliveira Machado da Costa
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos

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