
A formação do leitor literário na biblioteca escolar – Entrevista com Pablo Rios

A formação do leitor literário na biblioteca escolar – Entrevista com Pablo Rios
Éttore Pablo Vilaronga Rios
ettorepablo@live.com
Sobre o entrevistado
Em 2024, Éttore Pablo Vilaronga Rios defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Diversidade da Universidade do Estado da Bahia, sob orientação da Profa. Dra. Denise Dias de Carvalho Sousa.
Atualmente, Pablo, como prefere ser chamado, leciona em faculdades privadas, atua como bolsista no PARFOR/UNEB, desempenha a função de Diretor Municipal de Cultura em São José do Jacuípe e também trabalha como produtor cultural. Além disso, Além disso, Pablo divide seu tempo com a paternidade e atividades como a leitura, a escrita, a confecção de bonecos de sucata, além de atividades ao ar livre como trilhas e acampamentos.
Sua dissertação, intitulada “Biblioteca Escolar e Órbita Social: A formação do/a leitor/a literário/a”, investiga o papel da biblioteca escolar na formação dos leitores de literatura, considerando também sua órbita social (casa, familiares e amizades). A pesquisa articula revisão sistemática de TCC’s, dissertações e teses, triangulação de dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” e análise crítica de leis, projetos de lei e planos de livro e leitura desde a era Vargas. Além disso, apresenta um relato de pesquisa-ação com entrevistas e a criação de uma biblioteca escolar em campo, apoiada em referenciais da Sociologia da Leitura e da formação de leitores.
Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?
Pablo Rios (PR): Sendo bem sincero, eu me inscrevi para a seleção no intuito de conhecer o processo e sem esperança alguma de aprovação. Mas o desejo de ter o título se deu pela minha busca por aperfeiçoamento. Quanto ao tema, eu havia proposto estudar as reações dos estudantes diante de tipos diferentes de literatura, mas minha colega de mestrado, Senaria Santana, questionou como ela poderia formar leitores em sua unidade de ensino se a biblioteca escolar servia como depósito de material didático. Senti um estalo e mudei totalmente meu projeto para pesquisar o papel da biblioteca escolar na formação do leitor literário.
DC: Quem será o principal beneficiado dos resultados alçados?
PR: Eu mesmo em primeiro lugar, pois entendi profundamente a diferença que o acesso ao livro e leitura fazem no indivíduo quando acontece no ambiente escolar. Isso me deu uma compreensão expandida em relação à que eu já tinha em relação à biblioteca escolar: é uma ferramenta de formação de seres críticos, pensantes e por consequência, políticos e atuantes. Todo aquele que tiver essa mesma compreensão se beneficiará bastante também, seja estudante, docente e pai/mãe de estudante.
DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?
PR: Os produtos que ela está gerando, pois como mestrado profissional, tenho dois anos após a defesa para entregar um produto educacional. Eu vou entregar dois. O primeiro é uma minuta de projeto de lei de livro e leitura municipal para as câmaras de vereadores das cidades de São José do Jacuípe, Capim Grosso e Várzea da Roça, com outras possibilidades de municípios da região onde moro. Este plano estará baseado na legislação federal e estadual vigentes e nos documentos de organismos internacionais, como UNICEF, UNESCO e OEI. O segundo é um protocolo de criação, implantação, manutenção e funcionamento de bibliotecas escolares, também baseado em legislações e documentos que será um guia para que qualquer unidade de ensino possa entender e adaptar à sua realidade.
DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?
PR: Está na linha Educação, linguagens e identidades, pois ela aborda conceitos educacionais sobre formação e processos identitários em diversos contextos de diversidade e se conecta com o tema principalmente no aspecto social, histórico e cultural da formação dos indivíduos.
C: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?
PR: Não houve um trabalho ou nada do gênero que fosse decisivo para isso, ainda que o livro Sociologia da Leitura, de Monique Segré e Chantal Horellou-Lafarge tenha sido basilar na construção do texto, e sim o meu caminho anterior de escritor e fomentador de leitura, junto com a provocação de minha colega, mais a busca que precisei fazer nas muitas legislações para livro e leitura existentes no Brasil.
DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?
PR: Primeiro de tudo foi observar a situação do espaço destinado à leitura na escola em que eu lecionava. Um verdadeiro depósito que eu precisei, junto com um professor amigo e colega, reformar e mobiliar com móveis feitos de pallets. Depois eu parti para uma longa e profunda leitura de autores que se debruçam sobre o tema. Segré e Lafarge, Roger Chartier, Teresa Colomer, minha orientadora, professora doutora Denise Dias, além de estudiosos da biblioteconomia, como Fernando Baéz, Matthew Batles e Alberto Manguel. A revisão sistemática sobre bibliotecas escolares e formação de leitores e a exaustiva pesquisa documental de leis, projetos de leis, planos e tratados do Estado da Bahia, União e organismos internacionais. E enquanto ia estudando isso, reformava a biblioteca como proposta da intervenção que a pesquisa-ação exige e as entrevistas com alunos, professores e gestão, que resultaram em algumas horas de transcrição, para depois transformar tudo isso em um texto de centenas de páginas.
DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?
PR: Além da maratona que acabei de falar, foi não me deixar render ao meu estilo primordial de escrita. Foi bem complicado deixar a veia literária de lado para que a acadêmica pudesse atuar. É claro que também houve episódios de falta de inspiração, preguiça, procrastinação, os surtos de quase desistência e olhar para aquela pilha de dados e anotações e pensar: onde eu fui me meter?
DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?
PR: Confesso que parei de fazer esse cálculo quando percebi que transpirava até para me inspirar.
DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?
PR: Correndo o risco de tecer algum comentário comprometedor, eu tenho certeza que certas situações foram bastante desnecessárias, como algumas atitudes de docentes que se portavam mais como uma muralha do que como uma ponte, mais como peneira do que como fonte. Digo desnecessárias porque só serviram para estressar e não somaram em nada à minha formação. Voltaram como chegaram. E não me refiro a broncas ou atitudes que pareciam desagradáveis, mas que tiveram um efeito formativo, falo das que foram apenas motivo de desgaste e de fazer a turma não ter tempo para mais nada.
DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?
PR: Minha família me deu total apoio. Muitas vezes demonstravam alguma insatisfação com minhas ausências, mas jamais no sentido de me fazer desistir. Alguns sofreram um pouco com o meu mau humor causado por alguma situação em decorrência do curso, mas foram cruciais para que eu tivesse concluído. Sem eles eu não teria completado nem uma semana.
DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?
PR: A primeira coisa é que a roda já foi inventada, mas nem todas formas de fazê-la girar foram descobertas. Então não precisam encucar em fazer algo mirabolante e sim em fazer algo diferente, ou uma nova forma de fazer algo que já foi feito. Mas caso alguém queira tomar minha obra como ponto de partida eu peço que divirjam de mim, discordem, concordem, debatam, questionem, só não deixem esse assunto se fechar, pois ainda tem muito que ser pensar sobre acesso ao livro e leitura e formação de leitores literários.
DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?
PR: Tive uma produção dinâmica, embora não abundante. Foram vários eventos, rodas de conversa, mediações e apresentações de trabalho. Além disso, publiquei um artigo com minha orientadora, Dra. Denise Dias, sobre a história de Menocchio, do livro “O Queijo e os Vermes”, de Carlo Ginzburg, como um mediador de leitura primordial. Esse texto foi publicado no livro “Fazer e Pensar a Educação e o Ensino”, que reúne artigos dos integrantes do grupo de pesquisa LEFOR, outra coluna da minha formação e responsável por tornar o meu mestrado bastante movimentado. Além desse texto, colaborei como coorganizador, junto à minha orientadora, do livro “Entre Saberes e Sabores”. E, claro, outros artigos ainda estão em andamento ou aguardando publicação, mas esses dois citados foram os mais importantes.
DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?
PR: Tenho me dedicado à finalização dos produtos educacionais, minhas aulas, à gestão cultural e à realização de festas literárias na região, nas quais eu sempre convido o LEFOR para realizar distribuição de livros, coleta de dados para pesquisas e outras atividades.
PR: Pretende fazer doutorado? Será na mesma área do mestrado?
PR: Isso já está decidido: sim. Será na mesma área, mas até então eu pretendo estudar o não ler e o não ir à biblioteca e os impactos disso na formação de leitores.
DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?
PR: Eu planejaria melhor o meu tempo, escreveria mais e me permitiria mais momentos de descanso.
DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?
PR: Na minha entrevista de seleção, eu achei que seria reprovado pois o meu projeto recebeu muitas observações de pontos equivocados e quando uma das professoras perguntou ao que eu atribuía o meu projeto ter sido condenado. Foi essa a palavra. Eu respondi, já resignado, que é porque eu ainda era apenas um produtor de leitura, mas que passaria a ser um produtor e um pesquisador de leitura. E aqui estou eu. O PPGED fez isso por mim: me transformou em pesquisador e entre outras coisas ampliou meus horizontes pessoais em vários aspectos. O que eu fiz pelo PPGED foi colocar meu grão de areia numa montanha. Pequeno, porém útil.
DC: Você por você:
PR: Eu sou alguém que se constrói constantemente. Aliás, alguém que se (re)(des)constrói. Sou uma pessoa apaixonada pela vida e pela leitura da vida. Sou chamado de comunista e, às vezes, de herege, mas sem encarar nada disso como uma ofensa. Sou um homem que não se incomoda em mudar quando é preciso. Sou um inquieto. Enquanto respondo essa pergunta minha mente já está procurando algo para fazer depois.
Entrevistado: Éttore Pablo Vilaronga Rios
Entrevista concedida em: 15 de Julho de 2025
Formato de entrevista: Escrita
Redação da Apresentação: Naiara Raíssa da Silva Passos
Fotografia: Éttore Pablo Vilaronga Rios
Diagramação: Naiara Raíssa da Silva Passos









