
Biblioteca escolar: desafios?, por Claudio Marcondes

Biblioteca escolar: desafios?
Claudio Marcondes de Castro Filho
claudiomarcondes@ffclrp.usp.br
A biblioteca escolar tem algumas responsabilidades com a educação e está presente em ações pedagógicas e, consequentemente, em políticas culturais, sociais e informacionais. Deve ser reconhecida como um equipamento cultural e, portanto, uma instituição social, no sentido de estabelecer uma conexão com a sociedade, incorporando novos conceitos e apropriando-se das realidades sociais, educativas e dos avanços tecnológicos da informação.
A biblioteca escolar é a primeira oportunidade concreta de acesso que o cidadão tem com o patrimônio científico, cultural e social. Deve fazer parte do movimento que busca efetivar e materializar as políticas públicas direcionadas às bibliotecas escolares.
Durante a minha trajetória como pesquisador na área da Ciência da Informação e Biblioteconomia, me especializando na tipologia de biblioteca escolar, percebi por esse mundo afora, que muitas delas tem brilhado com muito esforço, e me refiro principalmente às bibliotecas das escolas públicas, não só no território brasileiro, como também na esfera internacional. Em consequência disso, a concepção de políticas públicas se faz extremamente urgente e necessária, para o desenvolvimento de um sistema nacional de bibliotecas escolares.
O primeiro ponto é tratar as políticas públicas como sendo solicitações populares que derivam das demandas sociais e que qualquer cidadão ou grupo com os mesmos interesses podem reivindicar junto ao Estado. Sonho de muitas bibliotecárias (os) que instigados e inspirados pelos gestos da educação, se torne realidade em se ter bibliotecários em todas as escolas públicas no país.
O segundo ponto são as políticas da Agenda 2030, por meio de seu Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e a relação com a biblioteca escolar, considerando que é possível compor, encadear e aplicar os 17 Objetivos nesse contexto. Especificamente, o ODS 4 – Educação de Qualidade – tem uma contribuição fundamental para a biblioteca escolar, no sentido de vigorar o processo de formação integral na comunidade educacional.
Um dos aspectos estimuladores é a criação do Plano Municipal do Livro, Literatura, Leitura e Biblioteca, que colabora para o desenvolvimento da inclusão de todos no acesso à informação, para a ampliação das bibliotecas escolares nas escolas públicas e para a criação de coleções literárias diversas, como literatura LGBTQIA+, literatura periférica, negra e de autoria feminina.
Outro aspecto diferencial é a implantação de uma política pública voltada para a criação de um sistema de bibliotecas escolares no Brasil. Mesmo com a Lei nº 14.837, de 2024, ainda não há fiscalização efetiva para verificar as funções básicas junto às escolas municipais e estaduais. É necessário que exista uma relação direta e exclusiva no orçamento destinado às escolas, bem como a criação de cargos para bibliotecários(as). A não implementação de recursos para as bibliotecas escolares deve-se, em parte, à restrição de outros canais orçamentários.
A ampliação das redes de bibliotecas escolares no país faz-se necessária, pois o sistema de ensino público que as incorpora às políticas públicas promove melhorias na produção e oferta de produtos e serviços interligados, no aproveitamento de recursos, na realização de ações culturais e educativas em diversas regiões, além de incentivar o aumento da taxa de frequência na pré-escola (educação infantil), no ensino fundamental e no ensino médio.
Um exemplo de rede de bibliotecas escolares é o de Portugal, que tem como filosofia ser um programa em rede, com parcerias entre diferentes agentes educativos, a sociedade civil e o Plano Nacional de Leitura de Portugal. A iniciativa abarca soluções importantes, como o papel da biblioteca escolar como espaço agregador de conhecimento, com a inserção de novas práticas educativas, o desenvolvimento da competência digital e a integração das tecnologias da informação e comunicação, com o objetivo de trocar experiências e promover o intercâmbio de informações, ações culturais e sociais.
Novas perspectivas estão surgindo, como a inteligência artificial, a robotização e o Information Commons, que aparece como uma forma de ampliar a aprendizagem e a utilização de recursos no âmbito escolar. Também se destaca a valorização das diferentes manifestações artísticas produzidas tanto pelo ser humano quanto pelos algoritmos; os makerspaces que são espaços comunitários, oficinas de artes, ateliês que criam projetos, ofícios, aprendizagem e autonomia para novas ideias e soluções ambientais. Entre as inovações, encontram-se ainda as Cidades Inteligentes, a Internet das Coisas, a Realidade Aumentada e os serviços em cloud. Dessa forma, a biblioteca escolar implementa responsabilidade social e cidadania, com foco na sustentabilidade do país e no alcance das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Concluir […] para não Concluir
A biblioteca escolar, com sua missão, seus objetivos e a disseminação do acervo nas áreas das minorias e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, reforça os elos com o meio ambiente, o social e o cultural na comunidade escolar, envolvendo espaços representativos da sociedade.
É importante acentuar a efetivação das políticas públicas que envolvem a biblioteca escolar e dar continuidade à implantação das redes de bibliotecas escolares no território brasileiro, bem como à cooperação entre redes internacionais, particularmente nos países do Mercosul, o que permitirá o intercâmbio de experiências, modelos, tecnologias e ações de cunho educacional, cultural e social.
Por fim, é preciso pensar além das fronteiras e propor atividades na biblioteca escolar que estimulem o debate, de modo que os alunos possam aprender uns com os outros, desenvolvendo habilidades e competências voltadas para a ciência, a engenharia, as artes, a linguagem, a literatura e a matemática.
Sobre o autor
Claudio Marcondes de Castro Filho
Professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista.
Livre-Docente em Políticas Públicas do Livro, Leitura e Biblioteca. Pós-doutorado em Biblioteca Escolar na Universidade Aberta de Lisboa. Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Mestre em Ciência da Informação e Comunicação pela Universidade de São Paulo. Bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Anhembi Morumbi e em Biblioteconomia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Redação: Claudio Marcondes de Castro Filho
Fotografia: Claudio Marcondes de Castro Filho
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner









