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v. 3, n. 09, set. 2025
Editorial: A biblioteca escolar, seu caráter político e ético, por Silvia Castrillón

Editorial: A biblioteca escolar, seu caráter político e ético, por Silvia Castrillón

A biblioteca escolar, seu caráter político e ético

Silvia Castrillón

silvia.castrillon@gmail.com

O tema da biblioteca escolar é complexo e pode ser abordado a partir das diferentes concepções que a sociedade possui sobre a leitura, a partir das quais se criam as posições da escola quanto ao seu ensino e à sua promoção. Por exemplo, a primeira pergunta que eu deveria fazer é: Qual é o sentido que a leitura tem para a sociedade?

Para a sociedade, a leitura geralmente possui uma dimensão estritamente acadêmica, com propósitos práticos e utilitários, porém, geralmente não se tem consciência de um papel além dessas dimensões.

Por outro lado, partimos de uma realidade adversa: as escolas não contam com espaços para uma reflexão que lhes permita tomar distância dessas concepções e de suas práticas pedagógicas, observadas “de fora”, de modo que seja possível analisá-las, situá-las no contexto histórico e local que as determina, e pensá-las como processos que têm, ou que deveriam ter, consequências a longo prazo.

Isto ocorre, entre outras razões, porque os modelos educativos que se impõem “onde a única coisa que conta são as ‘conquistas’ e os resultados educacionais que se ‘espera’ que os alunos alcancem após um período de tempo”, e que pretendem formar pessoas competentes para um trabalho — também incerto —, “deixam a educação sob o controle do planejamento tecnológico”1, afastando-a do lugar que dá origem ao pensamento e à reflexão. Deixam de fora, segundo as palavras de Fernando Bárcena e Joan Carles Mèlich2, a educação como um acontecimento ético.

O acesso à cultura escrita pode ocorrer em duas dimensões. A primeira, imediata, está voltada para um uso pragmático, associado às necessidades laborais, ao exercício da cidadania responsável, à diversão e ao consumo — é a dimensão imposta pela sociedade atual. A segunda oferece possibilidades de ir além: serve como meio para pensar, refletir, distanciar-se da realidade, questionar, compreender, conhecer e, sobretudo, apropriar-se do capital simbólico representado na literatura.

A escola, geralmente, oferece a primeira dimensão deste acesso, pois é o que a sociedade pede: que as crianças saibam ler e escrever com fins práticos, funcionais e rentáveis.

No entanto, ambas as dimensões são necessárias, e tanto a escola quanto a biblioteca devem atuar em ambas. A pergunta central, porém, seria: como fazer com que nenhuma delas se torne instrumento de sujeição e, pelo contrário, sejam meios de emancipação, como disse Paulo Freire?

Normalmente, a escola tende a separar essas duas dimensões e rebaixá-las, uma, na condição de leitura utilitária, é aquela que se aprende em sala de aula por meio de exercícios e testes de compreensão, e a outra, a leitura recreativa, que é promovida para “adquirir o gosto pela leitura”, a chamada leitura lúdica, que geralmente é oferecida como uma fuga. Esta última leitura é atribuída pela escola à biblioteca como responsabilidade, transformando-a em uma mercadoria da qual lucram aqueles que produzem livros e materiais de leitura com fins estritamente comerciais.

Capa do livro: “Biblioteca na Escola” /Foto: Editora Pulo do Gato

Essa divisão entre a leitura voltada para o acesso à informação e a leitura recreativa, uma realizada em sala de aula e a outra na biblioteca, tem gerado confusões e simplificações excessivas sobre o verdadeiro papel da biblioteca nas escolas.

Por um lado, gera-se a ideia de que ler para obter informação é uma leitura útil; ao mesmo tempo, porém, a informação é reduzida a dados, números, episódios e anedotas, sendo descontextualizada. Em relação a esse tipo de leitura, a biblioteca assume certas funções pelas quais os alunos, aparentemente, obtêm acesso à informação ou, mais precisamente, acumulam informações. Assim, a biblioteca transforma-se em um espaço de gerenciamento de bancos de dados, ferramentas digitais, acesso a novas tecnologias e, eventualmente, algumas fontes bibliográficas, para que o hábito da leitura não se perca; o que também não impede que os alunos dependam quase exclusivamente de cópias obtidas na internet.

A segunda grande dimensão é a da leitura que nos permite “aprender a ler-nos a nós mesmos, mesmo que isso seja difícil (…) para compreender mais e melhor, e talvez um pouco mais profundamente, em que consiste o viver e o morrer”, nas palavras de Fernando Bárcena3.

Acredito que as funções da biblioteca escolar são de natureza política, ética e educacional – funções que não se separam do papel geral da escola. No entanto, também considero que a biblioteca escolar possui tarefas específicas, que lhe conferem identidade e propósito próprios dentro da escola e do sistema educacional.

A primeira e maior tarefa seria promover uma verdadeira apropriação da cultura escrita para a vida, não apenas vinculada a propósitos escolares, e dentro dessa cultura, a apropriação da arte literária como possibilidade de compreensão do mundo e de si mesmo. Tudo isso caminha lado a lado com a sala de aula.

A escola, e com ela a biblioteca, deve ser a “grande ocasião” como diz Graciela Montes4 e para isso, segundo esta autora, deve “Garantir um espaço e um tempo, textos, mediações, condições, desafios e companhia para que o leitor se instale na sua posição de leitor […] “que é uma posição única, inconfundível, que supõe um certo afastamento e um distanciamento, um colocar-se à margem para, a partir daí, produzir observação, tomada de consciência, percurso, questionamento, sentido, crítica, pensamento […].

É aí que a biblioteca encontra essa dimensão ética e política que queremos propor.

Notas da autora

[1] Bárcena, Fernando y Joan-Carles Mèlich. La educación como acontecimiento ético. Barcelona: Paidós, 2000.

[2] Ibid, p. 12

[3] Bárcena, Fernando. El alma del lector: la educación como gesto literario. Bogotá, Asolectura: 2012.

[4] Montes, Graciela. La gran ocasión: La escuela como sociedad de lectura. Buenos Aires: Ministerio de Educación, Ciencia y Tecnología de la Nación, 2006. Disponível em: https://buenosaires.gob.ar/educacion/plan-de-lectura/la-gran-ocasion-la-escuela-como-sociedad-de-lectura . Acesso em: 12 set. 2025.

Sobre a autora

Silvia Castrillón

Bibliotecária colombiana com atuação intelectual e social voltado para a leitura, a escrita e a inclusão social. Fundadora de entidades como a Asolectura – Asociación Colombiana para el Libro Infantil y Juvenil e a Fundalectura – Fundación para el Fomento de la Lectura.

Consultora de organismos internacionais como Unesco, OEA e ONU, participou de júris de prêmios literários, promovendo debates sobre o direito à leitura e à escrita. 

Publicou obras de referência, como “Modelo flexible para un sistema de bibliotecas escolares” (1982), “El derecho a leer y a escribir” (2005) e “Una mirada” (2010).


Redação: Silvia Castrillón
Fotografia: Silvia Castrillón / Divulgação – CBBD-2024
Tradução: Marcos Leandro Freitas Hübner e Pedro Ivo Silveira Andretta
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner

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