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v. 4, n. 10, out. 2026
Entre a biblioteca e a escola: meu percurso na Biblioteconomia Educativa, por Marília de Abreu Martins de Paiva

Entre a biblioteca e a escola: meu percurso na Biblioteconomia Educativa, por Marília de Abreu Martins de Paiva

Entre a biblioteca e a escola: meu percurso na Biblioteconomia Educativa

Marília de Abreu Martins de Paiva
biblio.marilia@gmail.com

Minha aproximação com a Biblioteconomia Educativa começou antes de eu conhecer esse nome. Em 1994, trabalhando em uma escola estadual na periferia de Contagem, passei a observar a escola pública por dentro: suas possibilidades, suas carências e o trabalho das pessoas que a sustentam. Dois anos depois, como técnica de biblioteca em uma escola municipal de Betim, encontrei profissionalmente o espaço que orientaria grande parte da minha trajetória. A experiência me levou ao curso de Biblioteconomia da UFMG, iniciado em 2000 e concluído em 2004, e firmou uma convicção que permanece em minhas pesquisas: o acesso à biblioteca, à informação e à leitura depende de políticas públicas capazes de alcançar todas as escolas.

Entre 2004 e 2008, atuei como bibliotecária do Carro-Biblioteca da UFMG. O contato com comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte ampliou minha compreensão da biblioteca como serviço público construído na relação com seus usuários. Nesse período, concluí o mestrado em Ciência da Informação, dedicado às políticas do Estado brasileiro para bibliotecas públicas. Posteriormente, já como docente da Escola de Ciência da Informação (ECI/UFMG), onde ingressei em 2009, concluí o doutorado (2016) e voltei minha atenção às políticas públicas para bibliotecas escolares e aos sistemas de ensino. O percurso entre bibliotecas públicas e escolares consolidou meu interesse pela relação entre direitos, instituições, profissionais e ação estatal.

Na docência, ministrei com regularidade disciplinas optativas relacionadas à biblioteca escolar, considerando que ela exige conhecimentos técnicos, mas também uma leitura atenta do cotidiano da escola: organizar um acervo, planejar serviços e mediar a informação são atividades que ganham sentido quando relacionadas ao currículo, às práticas de leitura, às condições de trabalho dos profissionais e às experiências dos estudantes. Ao orientar graduandos e pós-graduandos, procuro aproximar a pesquisa acadêmica com essas questões concretas.

Minha pesquisa sobre Bibliotecas escolares e sistemas de ensino em Minas Gerais, iniciada em 2016, aprofundou uma pergunta que nasceu da prática: como transformar bibliotecas isoladas e desigualmente estruturadas em uma responsabilidade assumida pelas redes de ensino? Essa pergunta exige examinar legislação, financiamento, gestão, formação e condições de funcionamento. Também exige ouvir quem atua nas escolas. O estágio pós-doutoral realizado na Faculdade de Educação da UFMG, em 2024, e minha participação na frente “Biblioteca Escolar e Política de Leitura” do INCT Gestrado ampliaram as possibilidades de diálogo com a pesquisa educacional e de produção de conhecimento útil à formulação de políticas públicas.

A extensão universitária tem sido decisiva no meu percurso: o projeto “Biblioteca escolar: formando os agentes”, iniciado em 2016 e ainda em desenvolvimento, responde a demandas apresentadas por escolas e secretarias de educação, incluindo atividades de formação, visitas técnicas, assessorias e produção de materiais, planejadas em diálogo com gestores, bibliotecários, professores e outros profissionais. Nas disciplinas desenvolvidas 100% dentro de bibliotecas escolares públicas (formação em extensão universitária), estudantes de Biblioteconomia encontram situações que pedem observação, escuta, planejamento e avaliação no contexto real da educação pública. Uma das ações vinculadas é o evento seriado “Bibliocanto em Ação”, que surgiu em 2021 para manter a interlocução com profissionais interessados em formação continuada. As transmissões mensais buscam aproximam resultados de pesquisa e experiências de trabalho, acolhendo temas sugeridos pelo próprio público. O formato remoto, inicialmente impulsionado pela pandemia, permitiu alcançar participantes de diferentes regiões do país e se manteve como espaço de circulação e debate do conhecimento. Juntas, essas ações mostram que divulgar pesquisas envolve também criar condições para que seus resultados sejam discutidos e utilizados por quem trabalha nas bibliotecas escolares. A experiência extensionista realimenta minhas práticas de ensino e pesquisa.

Mais recentemente, uma investigação realizada com meu orientando Jonas Diniz1 sobre a produção acadêmica da Escola de Ciência da Informação da UFMG ajudou a situar meu percurso acadêmico em uma história institucional coletiva. Ao examinar trabalhos de graduação, pesquisas, publicações e ações de extensão da ECI/UFMG, identificamos uma certa evolução e ampliação das formas de estudar a biblioteca escolar. Às questões sobre acervos, organização e funcionamento somam-se investigações sobre aprendizagem, leitura, práticas informacionais, formação profissional, inclusão, tecnologias e políticas públicas. O estudo também evidenciou a contribuição do Grupo de Estudos em Biblioteca Escolar (GEBE) para tornar a temática um objeto reconhecido de pesquisa e formação na ECI.

Essa síntese reforça minha compreensão de que a Biblioteconomia Educativa se constitui no encontro entre Biblioteconomia, Ciência da Informação e Educação. Seu desenvolvimento requer conceitos e métodos capazes de estudar a biblioteca em suas dimensões informacional, pedagógica, social e institucional. Requer, igualmente, formação profissional e reflexão acadêmica sensível às necessidades de escolas e comunidades. 

Vejo minha contribuição para esse campo na articulação entre investigação, formação e compromisso público. A experiência nas escolas me ensinou a reconhecer problemas; a pesquisa me oferece meios para examiná-los; o ensino e a extensão permitem construir respostas com estudantes e profissionais. Ao olhar para minha trajetória, percebo que a defesa da biblioteca escolar como direito continua a orientar meu trabalho. Investigar a Biblioteconomia Educativa é, para mim, refletir e produzir conhecimento para construir  as condições necessárias para que esse direito se realize.

Nota da autora

PAIVA, Marília de Abreu Martins de; DINIZ, Jonas Aron Cardoso. Biblioteconomia escolar: legado e novas perspectivas da UFMG. In: COLÓQUIO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECONOMIA EDUCATIVA (CIBE26), 2026, São Paulo. Anais […]. São Paulo: CIBE, 2026.* Disponível em: https://www.biblioteconomiaeducativa.com.br/cibe2026/wp-content/uploads/2026/05/Marilia.docx . Acesso em: 6 out. 2026.

Sobre a autora

Marília de Abreu Martins de Paiva

Professora da Escola de Ciência da Informação e do  Programa de Pós-graduação em Gestão e Organização do Conhecimento da  Universidade Federal de Minas Gerais.  Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.

Doutora e mestra em Ciência da Informação e Bacharela em Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais. Realizou estágio pós-doutoral em Educação junto à Bebeteca da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. 


Redação: Marília de Abreu Martins de Paiva
Fotografia: Marília de Abreu Martins de Paiva
Diagramação: Marcos Leandro Freitas Hübner

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