
Biblioteconomia educativa na UFMA: a formação do bibliotecário educador e a extensão universitária como práxis de transformação social, por Leoneide Martins

Biblioteconomia educativa na UFMA: a formação do bibliotecário educador e a extensão universitária como práxis de transformação social
Leoneide Maria Brito Martins
leoneide.brito@ufma.br
Introdução: o papel social da Biblioteconomia no contexto maranhense
A história do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), criado em 1969, é intrinsecamente ligada ao compromisso social e ao desenvolvimento educacional e cultural do estado do Maranhão. Em um território caracterizado por marcantes desigualdades socioeconômicas, mas também por uma imensa riqueza cultural e diversidade étnica – que engloba populações urbanas, rurais, comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas –, a atuação do profissional da informação exige respostas que ultrapassem os limites da mera gestão técnica.
O Maranhão abriga patrimônios imateriais e culturais de projeção internacional, como o Bumba-meu-boi (Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO), o Tambor de Crioula, o Cacuriá e a forte tradição do Reggae em São Luís, além de patrimônios naturais como o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Essa atmosfera marcada pela oralidade, pela memória coletiva e pelas lutas de resistência cultural coloca a biblioteca e o bibliotecário diante de um imperativo ético: atuar como agentes pedagógicos e culturais capazes de democratizar o acesso ao conhecimento e promover a formação leitora crítica e inclusiva.
A virada epistemológica: da custódia ao sujeito mediador
A Biblioteconomia Educativa consolida-se como o ramo da Ciência da Informação focado em transformar a biblioteca em um centro de aprendizagem ativa e dispositivo pedagógico essencial. Ela rompe com o paradigma tradicional focado no “objeto e na custódia” do acervo – concepção histórica criticada por autores como Ortega y Gasset (1945) – e migra decisivamente para o foco no “sujeito e na mediação”.
Nessa perspectiva, a biblioteca deixa de ser um mero depósito passivo de livros para se constituir como um território vivo, produtor de territorialidades e de pertencimento social. A fundamentação teórica da Biblioteconomia Educativa apoia-se em pilares estruturantes, com base nos estudos de Perrotti (2007); Perrotti e Pieruccini (2007); Campello (2015); Petit (2008; 2019), a saber:
a) Laboratório de Aprendizagem: a biblioteca atua como espaço de investigação ativa e descoberta, promovendo a autonomia do estudante no processo de ‘aprender a aprender’.
b) Bibliotecário Educador: integração plena da biblioteca ao planejamento pedagógico e curricular, articulando o ensino do letramento informacional e literário.
c) Mediação e Humanização: a leitura é concebida como ato de construção subjetiva, prazer estético e alimento simbólico, fortalecendo o pensamento crítico-reflexivo.
d) Função Social e Democratização: garantia da informação como direito humano fundamental e exercício pleno da cidadania.
Contribuições teóricas como as de Perrotti (2007) e Pieruccini (2007) destacam a biblioteca como “estação de trabalho” e dispositivo cultural onde o leitor deixa de ser mero consumidor para se tornar autor de sua trajetória investigativa. Complementarmente, Bernadete Campello conceitua a biblioteca escolar como espaço de exploração e aprendizagem, enquanto Petit (2008; 2019) evoca a biblioteca como território de refúgio e ‘vadiagem intelectual’ (la flânerie intellectuelle) – um espaço de acolhimento em que o leitor navega livremente pelas estantes, reconstruindo seu tecido psíquico e construindo sua própria geografia cultural.
Alinhamento curricular e o perfil do egresso na UFMA
Ao longo de sua trajetória, o curso de Biblioteconomia da UFMA passou por cinco reformas curriculares. O Projeto Pedagógico de Curso (PPC) mais recente reflete o alinhamento com as Diretrizes Curriculares Nacionais, a inserção da disciplina de Libras, ações de acessibilidade e a obrigatoriedade da Curricularização da Extensão Universitária (UFMA, 2025). A estrutura curricular articula a Biblioteconomia Educativa de forma transversal em suas diferentes dimensões:
a) Dimensão Epistemológica: disciplinas como Fundamentos de Biblioteconomia, História do Livro e das Bibliotecas, Sociologia e Antropologia fornecem a base crítica para compreender a biblioteca como espaço cultural e político.
b) Dimensão Aplicada: disciplinas como Bibliotecas Escolares, Fundamentos de Leitura e Escrita, Serviço de Referência, Estudo de Usuários e Gestão de Bibliotecas preparam o profissional para a mediação pedagógica direta.
c) Dimensão Político-Social: disciplinas voltadas para Mediação da Leitura e Formação de Leitores, Políticas Públicas de Informação e Tecnologias da Informação reafirmam a informação como direito cidadão.
Assim, o egresso formado pela UFMA é caracterizado como mediador da informação, educador, gestor cultural, agente de inclusão social e profissional reflexivo-crítico, apto a atuar em contextos marcados por vulnerabilidades sociais e ausência de equipamentos culturais formais.
Curricularização da extensão e o protagonismo do GEPPLEM
A curricularização da extensão no Brasil, amparada pelo Plano Nacional de Educação, Lei nº 13.005/2014 (Brasil, 2014)) e pela Resolução CNE/CES nº 7/2018 (Brasil, 2018), exige a destinação de no mínimo 10% da carga horária dos cursos para ações extensionistas. Na UFMA, contudo, a dimensão comunitária e extensionista precede as obrigações legais, acumulando projetos históricos iniciados desde a década de 1980, como iniciativas de revitalização de bibliotecas escolares em São Luís e os projetos do Programa de Educação Tutorial (PET Biblioteconomia).
No cenário contemporâneo, destaca-se a atuação do Grupo de Pesquisa e Extensão em Mediação e Práticas de Leitura (GEPPLEM). O grupo materializa a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão ao promover intervenções sociais diretamente conectadas aos pressupostos da Biblioteconomia Educativa. Entre suas principais ações extensionistas destacam-se:
a) Grupos de Estudos Regulares: debates permanentes sobre mediação leitora, letramento literário e políticas de biblioteca com docentes, discentes e egressos.
b) Roda de Conversa com Escritores: encontros dialógicos com autores locais e nacionais, aproximando os leitores da literatura e contribuindo para a democratização do acesso ao livro, integrando-se à Feira do Livro de São Luís – FELIS).
c) Clube de Leitura Itinerante: iniciativa que circula por bibliotecas escolares, comunitárias e espaços universitários promovendo a bibliodiversidade.
d) Arraial e Piquenique Literário: ações que celebram a leitura de forma estética e afetiva, unindo literatura a manifestações folclóricas locais e trocas afetivas.
e) Seminário Estadual de Bibliotecas Escolares (SEBE/MA) e Ações Colaborativas na Feira de Livros de São Luís (FELIS): promoção de relevantes eventos científicos e comunitários que articulam pesquisadores nacionais e internacionais em prol das políticas públicas de leitura.
O GEPPLEM impacta a comunidade maranhense ao desenvolver a extensão universitária como uma prática dialógica, humanizadora e de intervenção social. Suas ações concentram-se em cinco frentes principais:
a) Fortalecimento das práticas leitoras e democratização do livro: o grupo atua em escolas públicas, bibliotecas escolares e comunitárias, e em espaços não formais, como praças públicas e parques, promovendo oficinas, mediação de leitura e contação de histórias para públicos em situação de vulnerabilidade educacional.
b) Valorização da cultura local e pertencimento: através de eventos integrados como o Arraial da Leitura e o Piquenique Literário, o GEPPLEM articula a leitura literária com a cultura maranhense, valorizando as artes, a música, o folclore, as lendas, o cordel, as danças, a culinária, o artesanato e os ambientes que acontecem as mediações culturais.
c) Aproximação entre universidade, escola e sociedade: por meio de iniciativas como o Clube de Leitura itinerante e as Rodas de Conversa com Escritores na Feira do Livro de São Luís (FELIS), o grupo cria pontes diretas entre autores, estudantes, pesquisadores, bibliotecários, professores e leitores.
d) Apoio às bibliotecas escolares e comunitárias: o GEPPLEM oferece assessoria técnica, curadoria literária e dinamização de acervos e formação continuada para mediadores de leitura, fortalecendo esses espaços como territórios vivos de aprendizagem e cidadania.
e) Desenvolvimento da competência informacional: o grupo promove a autonomia dos cidadãos no acesso, uso e avaliação crítica da informação, auxiliando a comunidade a navegar consciente e criticamente em ambientes físicos e digitais.

Esse trabalho conjunto e integrado permite que a universidade não apenas transmita conhecimento, mas acolha e valorize os saberes populares e comunitários na construção coletiva da cidadania
Considerações finais: horizontes e impacto na formação cidadã
A trajetória da Biblioteconomia Educativa na UFMA demonstra que a formação universitária do bibliotecário deve ser permanentemente viva e conectada às demandas de seu território. A mediação da leitura e a promoção do letramento informacional não se reduzem a estratégias técnicas, mas constituem práticas políticas de emancipação, inclusão e garantia de direitos sociais e culturais.
A experiência acumulada pelo curso de Biblioteconomia da UFMA – fortalecida pela atuação do GEPPLEM e pelas práticas de extensão curricularizada – reafirma a biblioteca como um espaço pedagógico ativo, acolhedor e democrático. Ao formar profissionais conscientes de seu papel como educadores e agentes socioculturais, o legado da UFMA contribui de forma decisiva para a construção de uma sociedade mais justa, leitora e cidadã no Maranhão e no Brasil.
Referências
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO. Centro de Ciências Sociais. Departamento de Biblioteconomia. Projeto pedagógico do curso de biblioteconomia. São Luís, 2025.
Sobre a autora
Professora do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Maranhão. Analista Judiciária-Bibliotecária do Tribunal de Justiça do Maranhão/TJMA. Líder do Grupo de Pesquisa e Extensão em Mediação e Práticas de Leitura GEPPLEM. Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.
Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista ”Júlio de Mesquita Filho”. Mestra em Educação e Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Maranhão. Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Estadual Paulista ”Júlio de Mesquita Filho”.
Redação: Leoneide Maria Brito Martins
Fotografia: Leoneide Maria Brito Martins
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade










