
Entre pesquisas e acervos: trajetória e formação, por Carmem Lúcia Batista

Entre pesquisas e acervos: trajetória e formação
Carmem Lúcia Batista
carlubatista@gmail.com
Minha trajetória acadêmica está diretamente relacionada à minha atuação profissional. Isso é menos óbvio do que parece, pois não se trata apenas do papel como docente, mas também de atuação técnica como servidora pública do governo do estado de São Paulo.
Na infância surgiram minhas primeiras inquietações “paracientíficas”, ocasião em que o processo de conhecer e estabelecer relações sobre as coisas começou a me fascinar. Antes mesmo de ser alfabetizada, ao assistir na televisão a publicidades do Ciranda da Ciência – programa do Instituto Hoechst em parceria com a Fundação Roberto Marinho para despertar interesse de crianças para pesquisas – decidi que era isso que eu queria fazer na vida.
Contudo, apenas na fase adulta – mais precisamente ao ingressar no Bacharelado em Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), em 1997 – que minhas inquietações de infância começaram a se materializar. No final do curso, fui contratada como consultora do projeto de modernização da biblioteca da Escola Fazendária do Estado de São Paulo (Fazesp), da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz). Após conclusão do curso de Biblioteconomia, tornei-me diretora do Núcleo de Documentação e Informação de 2003 a 2016. Durante esse período elaborei vários projetos que visavam valorizar o acervo. No entanto, percebi e escutei que a minha disposição em realizar produtos e atividades culturais na instituição causava incômodos. Como consequência, me sugeriram utilizar “toda minha energia” em meu próprio benefício e decidi voltar para a universidade.
Em 2008, inscrevi-me no processo seletivo para ingressar no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da ECA/USP na tentativa de compreender qual o entendimento da academia sobre algumas questões que me inquietavam. Inicialmente, minha intenção era começar apenas o curso de mestrado, porém, como não tinha certeza se teria êxito no processo, concomitantemente, prestei vestibular para Letras. Passei nos dois processos; iniciei os dois cursos.
Ao ingressar no mestrado, também integrei o grupo de pesquisa de meu orientador, o Prof. Edmir Perrotti, que coordenava o Colaboratório de Infoeducação (Colabori). Nesse momento, entrei em contato com estudos que evidenciavam a pouca importância dada às bibliotecas nos processos formativos de nossa sociedade. Em razão disso, meu tema mudou e tratei da questão do acesso e da apropriação social da informação pública do Núcleo de Documentação e Informação após a modernização do espaço (Batista, 2010). Em decorrência dessa pesquisa e de minhas práticas profissionais, passei a considerar que toda forma de biblioteca é, potencialmente, um dispositivo com função educativa que, por meio de práticas culturais, contribui com a formação de sujeitos.
Em 2011, ingressei no doutorado, ainda sob orientação do professor Perrotti, e continuei como pesquisadora do Colabori. Minha pesquisa foi norteada, por diversos questionamentos, dentre os quais se destacava: como a sociedade se apropriava, ou não, das iniciativas do Estado para “educar” a população sobre a questão fiscal (Batista, 2014). Fiz seis meses de estágio doutoral na França, voltei ao Brasil entusiasmada, mas na instituição que trabalhava não houve interesse institucional por tudo que havia pesquisado.
A partir dessa experiência, percebi que apenas a atuação do mediador não é suficiente para garantir a apropriação. Desde então, o conceito de mediação adquiriu um sentido mais amplo para mim: os espaços, tanto em termos de infraestrutura quanto de organização, também necessitam ser mediados; textos e comunicações, considerando tanto conteúdo como forma, carecem de mediação também.
Após o término do doutorado, recebi um convite para ministrar aulas no curso de especialização na área de gestão de bibliotecas do Centro Universitário Assunção. Logo depois, em 2017, comecei a trabalhar no Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde trabalhei por sete anos orientando órgãos públicos a cumprirem a Lei de Acesso à Informação (Lei n. 12.527/2011).
No final de 2018, fui convidada pelo professor Edmir Perrotti e pela professora Ivete Pieruccini a integrar o Grupo de Pesquisa em Educação Cultural (GPEC). Além dos trabalhos de pesquisa e de produção de texto, por conta das atividades do grupo, passei a participar de uma disciplina criada pelos professores Perrotti e Pieruccini: “Biblioeducação: programas e projetos”, do curso de Biblioteconomia da ECA/USP.
Pouco tempo depois, motivada pelos avanços digitais, em 2022 ingressei na graduação de Ciência de Dados. No mesmo ano, por entender a importância dos acervos arquivísticos e perceber que havia poucas formações na área em São Paulo, criei e passei a coordenar um curso de especialização na área de Arquivologia no Centro Universitário Assunção.
Em 2024, iniciei uma pesquisa de pós-doutoramento na Universidade de Coimbra sobre as interfaces entre Biblioteca e Educação, tema caro a todos os pesquisadores do GPEB. Com as pesquisas de pós-doutorado, cheguei a duas conclusões. A primeira delas é que Biblioteca e Educação foram influenciadas por estudos teológicos e pedagógicos, além de terem sido impactadas pelos principais interesses científicos e filosóficos da época, como a Botânica, o universalismo e o enciclopedismo (Batista, 2024). A segunda conclusão está relacionada às bibliotecas e o sistema educativo em Portugal no século XIX. A relação entre Biblioteca e Educação em Portugal também foi de contiguidade, porém, não havia autonomia dessas instituições, ambas foram tornadas públicas para cumprir um papel doutrinador, com o objetivo de disciplinar o comportamento das classes desfavorecidas (Batista, 2025). Afetada por essas reflexões, criei, e passei a coordenar, o curso de especialização Biblioteca Educativa: gestão e mediações no Centro Universitário Assunção.
Por fim, minha própria experiência sinaliza a falta de valorização da memória e a ausência de uma cultura bibliotecária em nosso país. A carência de políticas públicas consistentes na área da cultura e da informação apresenta dificuldades à biblioteca a se consolidar como dispositivo cultural autônomo e objeto cultural de memória relevante nos processos de formação. Por essas e outras razões semelhantes que sigo investigando e propondo mudanças.
Referências
BATISTA, C. L. Bibliotecas e sistema educativo em Portugal no século XIX: influências do nacionalismo. Em Questão, v. 31, p. e–143899, 2025. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/143899 . Acesso em: 05 out. 2026.
BATISTA, C. L. Informação pública: entre o acesso e a apropriação social. 2010. 202p. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
BATISTA, C. L. Mediação e apropriação da informação pública: a educação fiscal. 2014. 273f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
BATISTA, C. L. Biblioteca e educação nos séculos XVI e XVII: epistemologias. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 2024. Anais […] XXIV Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação, 2024. Disponível em em: https://enancib.ancib.org/enancib/pt_BR/article/view/2048 . Acesso em: 05 out. 2026.
Sobre a autora
Professora da graduação e especialização do Centro Universitário Assunção. Coordenadora do curso de especialização em “Arquivologia e Gestão de Arquivos” e em “Biblioteca Educativa: gestão e mediações”, ambos do Centro Universitário Assunção. Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.
Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo, com estágio na Sorbonne. Mestra em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Bacharela em Biblioteconomia e em Letras (Português/Francês) pela Universidade de São Paulo. Pós-doutora em Estudos interdisciplinares pela Universidade de Coimbra.
Redação: Carmem Lúcia Batista
Fotografia: Carmem Lúcia Batista
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade










