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v. 4, n. 10, out. 2026
Pesquisa-ação: desafios e possibilidades para a biblioteca escolar, por Gizele Viana e Jussara Pimenta

Pesquisa-ação: desafios e possibilidades para a biblioteca escolar, por Gizele Viana e Jussara Pimenta

Pesquisa-ação: desafios e possibilidades para a biblioteca escolar

Gizele de Melo Viana e Jussara Santos Pimenta
gizele.viana@ifro.edu.br | jussara.pimenta@unir.br

Uma biblioteca adquire sentido pelo trabalho com seus leitores. Quais são seus leitores? Por que e como se trabalha em uma biblioteca? A história das bibliotecas, desde as salas de arquivo dos palácios orientais até as bases de dados online pela internet, é também a da metamorfose dos leitores e das leituras, das políticas de domínio e de comunicação da informação […].  (Baratin, 2008, p. 11).

A biblioteca na escola deve possuir intrínseca relação com a comunidade escolar e buscar ser produto de uma construção coletiva, inclusiva e articulada ao seu fazer pedagógico e informativo com o currículo escolar. 

É possível estabelecer diálogos entre biblioteca, ensino e aprendizagem? Inquirir sobre bibliotecas em ambientes escolares, em diferentes vertentes, seja da melhoria de coleção bibliográfica (acervo), a construção de um ambiente físico que seja capaz de efetivamente garantir a utilização por parte da comunidade escolar considerando suas especificidades, identificar e propor novos sentidos à biblioteca capaz de usufruir do potencial formativo, informativo e partícipe do processo de ensino e aprendizagem, são possibilidades e caminhos a serem trilhados. 

A pesquisa-ação pode ser uma poderosa estratégia para transformar a prática da biblioteca escolar, pois as etapas ou ciclos característicos da metodologia podem favorecer a promoção de melhorias de forma colaborativa com a escola, pois exige planejamento cuidadoso, base teórica sólida, além da capacidade de adaptação e envolvimento de todos os atores/sujeitos da escola. Em pesquisas qualitativas, as técnicas de coleta de dados são distintas – observação, entrevista, aplicação de questionário, grupo focal, grupo de discussão etc. – são instrumentos amplamente utilizados e que podem ser aplicados na metodologia da pesquisa-ação desde que articuladas com objetivos, pressupostos teóricos e a prática vivenciada.

Há inúmeros desafios e obstáculos, a ausência de profissionais bibliotecários nas redes de ensino, a ausência de diálogo entre práticas informacionais e práticas educativas ou mesmo a menção no Projeto Político-Pedagógico (PPP) das escolas. Ao propor pesquisa sobre a temática e a utilização da pesquisa-ação sobre a biblioteca escolar, é imperativa a participação da comunidade escolar (professores, estudantes, técnicos pedagógicos, comunidade local etc.). Dar voz a todos os participantes requer a elaboração criteriosa de estratégias e utilização de instrumentos de coleta de dados, que seja capaz de garantir a participação autônoma, respeitando todos os critérios éticos que envolvem pesquisa na área da Educação. 

A utilização da abordagem qualitativa em pesquisas na área da educação permite ao pesquisador compreender aspectos que não são mensuráveis isoladamente, mas relacionados com experiências individuais, narrativas e relações interpessoais de todos os sujeitos no processo. A Educação Escolar é um processo formal que ocorre em ambiente que envolve não apenas estudantes e docentes, mas também diferentes sujeitos, culturas, valores como a comunidade escolar, além de políticas públicas, que envolvem o ato de aprender por meio de uma proposta curricular.

A importância de estudos sobre a biblioteca escolar, nesse contexto, ganha significado e potencialidade. Para Creswell (2010), sobre a pesquisa qualitativa, a intenção do pesquisador deve ser a de extrair sentidos ou interpretar significados que os outros atribuem ao mundo, assim, ao invés de chegar com uma teoria pronta, o investigador / pesquisador gera ou indutivamente desenvolve uma teoria ou padrão de significado, a partir da interação com sujeitos / objetos da investigação. Em síntese, há desafios importantes que se configuram como obstáculos, mas há também possibilidades, pois a efetiva existência de biblioteca na escola amplia as possibilidades educativas e espaço de discussão do papel mediador de informação, de letramento informacional, incentivo à leitura, cultura escolar, de lugar de aprendizagem favorece, amplia e possibilita um fortalecimento da luta pelo reconhecimento da biblioteca na escola e assegura o que já vem sendo desenhado pela legislação vigente.

A pesquisa científica ou o processo sistemático e metódico de investigação, deve ser baseada em procedimentos formais e reflexivos para averiguar a realidade ou veracidade de informações ou de um dado fenômeno. Em estudos ou pesquisas na área da educação, há uma legítima preocupação com questões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem, nesse sentido as pesquisas qualitativas em que se considere a aplicação da metodologia da pesquisa-ação, se consolidam como uma possibilidade plausível, aplicável, especialmente, se for proposta por pesquisadores diretamente relacionados a área da Educação – professores, bibliotecários etc. O contato direto desses profissionais / pesquisadores com o ambiente ou as questões a serem investigadas, possibilita aquilo que é a base de pesquisas do tipo qualitativa, pois o fenômeno de estudo gira em torno dos ambientes naturais, das relações vivenciadas em sociedade. 

Tanto a pesquisa, quanto às experiências de leitura, são ações presentes no cotidiano da biblioteca escolar e podem ser uma porta de entrada para crianças, jovens e adultos que frequentam e utilizam esses espaços, no desenvolvimento da criticidade, na utilização de recursos informacionais, no desenvolvimento do autoconhecimento e inserção na sociedade. Diferentes ações educativas realizadas na biblioteca escolar podem contribuir significativamente para o desenvolvimento do conhecimento científico, que ainda é pouco estimulado e que impacta decisivamente na formação cultural e cidadã de cada indivíduo. É uma ação que, se desenvolvida desde o ambiente escolar, alcançará resultados ou frutos ao longo da vida de cada indivíduo. 

Ao propor a biblioteca escolar como temática de pesquisa, é necessário ter em mente que há diferentes possibilidades ou caminhos no processo de investigação que perpassa a iniciação ao conhecimento científico, experiências de leitura e reconhecimento de saberes, culturas e incentivo à apropriação cultural. Nesse sentido, a identificação e delimitação de metodologias aplicadas à pesquisa é elemento relevante para a obtenção de resultados que contribuam para a melhoria, criação, ampliação ou mesmo consolidação de bibliotecas nas escolas. 

Em pesquisas na área da Educação, especialmente na Educação Escolar, a escolha do método de pesquisa a ser utilizado perpassa, obrigatoriamente, pela tomada de decisão por parte do pesquisador para formulação do problema a ser investigado e pela possibilidade de recursos e dados para a sua realização. A definição do método, seja em uma abordagem quantitativa (para dados numéricos, estatísticos e teoricamente delimitados), qualitativa (para a compreensão de fenômenos e experiências) ou mista (que integra aspectos qualitativos e quantitativos), perpassando pela identificação e seleção de técnicas para coleta de dados, bem como a abordagem, são essenciais para a obtenção de resultados que contribuam para a resolução de uma problemática e/ou o reconhecimento de um fenômeno.

Em pesquisas que utilizam abordagem qualitativa, o papel do pesquisador passa a ser a de um intérprete do fenômeno ou da realidade estudada. Todavia, os resultados obtidos nesse tipo de abordagem não devem ser delimitados ao estabelecimento de uma verdade concreta ou absoluta, mas que o resultado da investigação, seja capaz de demonstrar, por meio de critérios estabelecidos, que o que se produz, ou seja, os resultados / conhecimento produzido sejam relevantes socialmente.

Referências

BARATIN, M. JACOB, C. O poder das bibliotecas: a memória dos livros no ocidente. 3ª ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2008.

CRESWELL, John W. Projeto de pesquisa: método qualitativo quantitativo e misto. 3. ed. Porto Alegre – RS: Artmed, 2010. 

Sobre a autora

Gizele de Melo Viana

Bibliotecária do Instituto Federal de Rondônia. Integrante do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Educação, História e Memória (MNEMOS) da Universidade Federal de Rondônia.

Mestra em Educação Escolar pela Universidade Federal de Rondônia. Especialista em História Regional pela União das Escolas Superiores de Porto Velho. Bacharela em Biblioteconomia e Licenciatura Plena em História, ambas pela Universidade Federal de Rondônia.

Jussara Pimenta

Professora do Curso de Pedagogia e do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Federal de Rondônia. Líder do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Educação, História e Memória – MNEMOS/CNPq/UNIR e membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.

Doutora e Pós-Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Viçosa.


Redação: Gizele de Melo Viana e Jussara Pimenta
Fotografia: Gizele de Melo Viana e Jussara Pimenta
Diagramação: Marcelly Yasmim Portela Trindade

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