
Pão e palavra: um percurso entre gerações até a Biblioteconomia Educativa, por Simone Borges Paiva Okuzono

Pão e palavra: um percurso entre gerações até a Biblioteconomia Educativa
Simone Borges Paiva Okuzono
simone.paiva@unirio.br
Biscoitos e histórias
Minha história pessoal se confunde com a de tantas famílias nordestinas, para as quais a busca por melhores condições de vida impõe rupturas e distanciamentos. Meus pais, à semelhança de tantos outros, fizeram a difícil escolha de mudar de cidade e, longe de suas famílias, criar os filhos em uma nova terra: Jequié, no interior da Bahia.
No novo lugar, os vínculos se refizeram. A menina auxiliava a mãe em fazeres que, para ela, não eram trabalho: eram jogo e imitação. Também era jogo o auxílio que prestava às vizinhas mais velhas, nossas “avós do coração”, no preparo dos quitutes das festas juninas. Ali, enquanto enrolava biscoitos, eu ouvia suas histórias, seus medos, suas alegrias e incorporava, ainda que de forma inconsciente, os pilares que seriam a base da minha trajetória de pesquisa. Nesse sentido, hoje, como uma pesquisadora vinculada à Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa, compreendo que minha história é marcada por mudanças: entre cidades, entre estados, entre grupos, entre culturas, e tantas outras rupturas. Percebo essas rupturas como uma força que integra as experiências educativas. Por esse motivo, organizo esta contribuição a partir de três lugares e das rupturas que vivi e observei: Jequié/BA, Marília/SP e Paraisópolis, em São Paulo/SP.
Dos idosos leitores à Infoeducação
Quando minha família se mudou para o interior de São Paulo, deixei Jequié/BA com uma pergunta: o novo lugar exigiria apagar rastros que me eram caros? A pergunta não me abandona e a revisito em diversos momentos, grande parte deles experimentados após o meu ingresso no curso de Biblioteconomia da FFC/Unesp/Marília. Hoje reconheço que não foi por acaso que escolhi um campo profissional e científico que tem na memória sua questão central.
Ainda na graduação, aproximei-me da Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI) e, ao longo de dez anos, coordenei uma oficina de leitura intergeracional. Na oficina, a leitura dos livros era fazer artesanal, trabalho contínuo de interpretação de signos e de busca pelos sentidos contidos nos registros literários e nas partilhas que o grupo construía. Para o grupo, o espaço para dizer e ouvir de si e dos outros era o que mais importava. Desejando ir além e ocupar outros espaços, o grupo criou um blog eletrônico, o Conto Prosa. Ainda que as condições iniciais estivessem asseguradas, a transição para uma comunicação mediada por tecnologias significou, para alguns, uma ruptura que, naquele momento, não estavam interessados em assumir.
A pesquisa de mestrado oportunizou o reencontro com o Professor Edmir Perrotti. Eu o conhecera ainda em Jequié, quando fui monitora em um evento do Proler. Naquele contexto, o Professor Edmir e os pesquisadores associados ao Colaboratório de Infoeducação se dedicavam ao estudo da Infoeducação, que propõe uma abordagem crítica das relações entre informação e educação, tendo a significação como um eixo estruturante (Perrotti; Pieruccini, 2007).
Dali nasceu minha tese (Paiva, 2015), que reafirma a importância das trocas intergeracionais de saberes e fazeres na construção de conhecimento e de sentidos.
A receita de Dona A.
Para a tese, fui a Paraisópolis, comunidade localizada na região sul de São Paulo, próxima ao bairro do Morumbi. Ali, encontrei outros nordestinos que também haviam rompido com seus contextos pessoais em busca de melhores condições de vida e a quem, no novo lugar, nada restou além da obrigatoriedade do recomeço. Em parceria com o Núcleo de Educação Cidadã do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis, que atendia crianças e jovens de 7 a 15 anos, desenvolvi as oficinas intergeracionais, encontros de mediação cultural entre crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos da comunidade.
Promover encontros é trabalho árduo, é entrega, é compromisso, é permitir que o encontro aconteça primeiramente com você. Foi assim que iniciei a trajetória em Paraisópolis, algo que exigiu aprender a caminhar na e com a comunidade, para assim compreender como a comunidade e suas pessoas mediariam todo o trabalho de pesquisa que estava em construção. Nos primeiros contatos com os idosos, a resistência estava associada a uma certeza: “não tenho nada para contar”. Vencida a certeza, vivenciamos os primeiros encontros: crianças e idosos não sabiam o que dizer uns aos outros. O encontro não foi suficiente: foi preciso associar o trabalho, a imitação, o jogo do fazer artesanal à escuta das narrativas para construir um espaço comum.
Da partilha das narrativas surgiu o desejo de experimentar, para além da dimensão simbólica, os pães apresentados por Dona A. ao longo das suas partilhas com o grupo. Dona A. conhecia e combinava os ingredientes harmoniosamente, sem orientação de medidas ou dosagens precisas, conduzida pelos saberes e fazeres acumulados pelos anos de preparação do pão. As crianças acompanhavam fascinadas as mãos seguras e precisas de Dona A. Construiu-se, assim, um desafio para o grupo de educandos: traduzir para o registro escrito aquilo que estava no domínio da experiência não registrada. Com o apoio das educadoras e com o auxílio de Dona A., que buscava explicar a receita, as crianças, pouco a pouco, conseguiram registrar a preparação do pão, para, enfim, estruturar por escrito a receita de Dona A. Ao final do encontro, pão e palavra, compartilhados e degustados, alegraram a todos.
Romper e recomeçar para pensar a Biblioteconomia Educativa
Na experiência da produção do pão estão o fazer artesanal, o tempo de quem aprendeu fazendo e a apropriação de um saber pela escrita. Está também a mediação cultural. No início, ela precisou construir um território comum entre gerações que não sabiam o que dizer uma à outra; na oficina do pão, bastou cuidar das condições da conversa, pois essa mediação se apoiou na escuta, e escutar, como lembra Paulo Freire (2003), implica abertura ao outro, à sua fala, ao seu gesto, às suas diferenças. A alteridade começa aí: no fazer conjunto, idosos que diziam não ter nada para contar e crianças que poderiam apenas ouvir se reconheceram como portadores de saberes.
Desse reconhecimento vem a troca entre as gerações, que produz conhecimento. A receita de Dona A. existia em seu corpo, nas suas mãos, um saber incorporado e aprimorado ao longo dos anos, e foi na relação com as crianças que o saber ancestral encontrou repouso na palavra escrita. Narrativas, objetos culturais e processos compartilhados também são, portanto, formas legítimas de registro.
A receita responde à pergunta que levei de Jequié: no novo lugar, os rastros de Dona A. passaram às mãos das crianças. Nessa perspectiva, a Biblioteconomia Educativa reconhece toda a tensão que emerge do encontro, da palavra e dos fazeres compartilhados, dos sentidos diversos. E a ruptura, que tantas vezes nos coloca diante de outros, é força motriz para experiências educacionais.
Referências
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
PAIVA, S. B. Oficinas intergeracionais: saberes e fazeres da experiência, mediação cultural e significação. 2015. Tese (Doutorado em Cultura e Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.11606/T.27.2015.tde-13112015-092819 . Acesso em: 3 maio 2026.
PERROTTI, E.; PIERUCCINI, I. Infoeducação: saberes e fazeres da contemporaneidade. In: LARA, M. L. G.; FUJINO, A.; NORONHA, D. P. (org.). Informação e contemporaneidade: perspectivas. Recife: Néctar, 2007. p. 46-97.
Sobre a autora
Professora da Escola de Biblioteconomia e do Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Membra da Rede de Pesquisa em Biblioteconomia Educativa.
Doutora e mestra em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
Redação: Simone Borges Paiva Okuzono
Fotografia: Simone Borges Paiva Okuzono
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










