
Editorial: Os novos desafios dos profissionais da informação, por Emir Suaiden

Os novos desafios dos profissionais da informação
Emir Suaiden
emir@ibict.br
No século passado, o final da sociedade pós-industrial e o advento da sociedade da informação, aliados à revolução tecnológica, acabaram trazendo uma responsabilidade social para todas as áreas da Ciência da Informação, em especial para a Biblioteconomia. Os críticos passaram a exigir um novo modelo de biblioteca pública, com um papel social mais relevante. Essas críticas se baseavam no fato de a biblioteca pública ainda não ser parte da agenda do governo, pois, de fato, a maioria das bibliotecas ainda não tem orçamento próprio, além dos baixos índices de formação de público leitor apontados nos rankings nacionais e globais. Outros problemas apontados foram a questão da escolarização da biblioteca pública e a inclusão precária na formação de um público leitor.
Tudo isso, na verdade, também tinha reflexo na formação do bibliotecário, e era urgente a apresentação de um novo currículo, pois o primeiro grande desafio era: como a biblioteca poderia liderar o movimento da passagem do impresso ao digital?
No estudo comparativo das bibliotecas públicas brasileiras com outros países, ficou claro que a questão do valor social dos serviços bibliotecários ainda não estava sendo levada em conta. Por exemplo, países como Dinamarca, Holanda e Finlândia conseguiram comprovar que um euro aplicado em biblioteca pública representava uma economia de vinte euros nas áreas de saúde, educação e cultura. Portanto, o grau de invisibilidade da biblioteca é muito grande em relação aos governos.
Diversas bibliotecas públicas da Espanha, em especial na Catalunha, passaram a dar prioridade às questões de empregabilidade e renda. Com isso, muitos imigrantes, a maioria sem saber a língua e indocumentados, passaram a receber assistência para se integrarem efetivamente à nova sociedade.
Atualmente, uma das áreas mais afetadas nos últimos anos tem sido a da transferência da informação. Com o advento da pós-verdade, especialmente no Brasil, a informação passou a ser fortemente influenciada por ideologias dominantes, o que contribuiu para a disseminação de fake news, para o aumento dos processos de desinformação e também para diferentes formas de manipulação da informação. O público tem sido impactado pelo processo de desinformação, que, na prática, constitui um negócio bastante lucrativo e amplamente explorado por atores políticos. Com o crescimento desse fenômeno — que inclusive pode atingir parte do acervo de bibliotecas, especialmente nas áreas de história, cultura e biografia — cabe à biblioteca, nesse contexto, desempenhar o papel de sinalizar e orientar os usuários quanto ao conhecimento fundamentado em evidências e à verdade científica.
De um lado temos a explosão informacional que já vem com um percentual grande de desinformação; do outro temos o bibliotecário que, muitas vezes, pela sua própria formação tem dificuldades em tomar decisões adequadas. Do outro lado temos o usuário e o não usuário que é uma grande fatia da população e que faz parte integrante das desigualdades sociais no Brasil.
O usuário quando consegue chegar ao ensino superior, muitas vezes teve que vencer o processo de repetência, evasão e desistência do ensino fundamental e médio. E muitas vezes entra na universidade sem saber interpretar o texto escrito, o que chamo de inclusão precária. O não usuário geralmente se distancia cada vez mais do livro e da biblioteca, pois enfrenta problemas de insegurança alimentar e analfabetismo. Geralmente ele frequenta a escola mais interessado na merenda do que pelo conhecimento.
Quando se fala em público leitor, a publicação “Retratos da Leitura no Brasil 2025” informa que o país perdeu, nos últimos anos, cerca de 14 milhões de leitores. Trata-se, portanto, de mais um grande desafio para os serviços bibliotecários, pois, além de promover o acesso à leitura, é necessário também estimular estratégias voltadas à formação e à manutenção de leitores.
Mas, o maior desafio está em compreender como a biblioteca pública pode ter uma integração eficiente com os desafios que a comunidade enfrenta. Na verdade todos querem uma biblioteca inclusiva e muitas experiências foram realizadas.
Em um dos meus projetos de produtividade com o CNPq fiz a proposta de “biblioteca segmentada”, na qual a biblioteca deixaria de ser tudo para todos, pois não existem recursos financeiros e humanos para isso, e daria prioridade para áreas que teriam impacto no crescimento informacional comunitário.
Outro projeto que deu bons resultados foi a “Escola Digital Integrada”, implantada na Escola Gisno em Brasília. Uma escola com três mil alunos, a grande maioria carentes. Montamos um laboratório de informática e uma biblioteca com o acervo predominante de obras de literatura infantil e juvenil. Antes da implementação do projeto, apenas 3% dos alunos da escola eram aprovados para ingressar na Universidade de Brasília. Entre os estudantes que participaram da iniciativa, esse percentual chegou a 63%. O referido projeto se transformou em Lei no Distrito Federal.
No entanto, os maiores impactos na busca de um novo modelo de biblioteca vieram da Colômbia. A Colômbia necessitava urgentemente de uma instituição exemplar para evitar que milhares de adolescentes participassem do tráfico de drogas e do processo de guerrilha. Com esse pensamento foi construída a “Biblioteca Pública Virgilio Barcos” entre outras. No processo inicial ficou claro que não seria mais uma biblioteca de pobre para pobre e sim uma instituição com recursos humanos adequados, além de um bom acervo, em um ambiente seguro e confortável.
Nas últimas décadas, a Colômbia passou a investir em “Bibliotecas Parques”, onde, além do acervo e de pessoal altamente qualificado, os usuários podem levar seus amigos e familiares para a sala de jogos, praticar exercícios na academia e encontrar um local para solução de problemas informacionais e de utilidade pública, etc.
É importante salientar que esses novos produtos e serviços comunitários surgiram na década de setenta, onde a “Biblioteca Pública de Nova York” começou dar atenção especial para os migrantes indocumentados, oferecendo cursos de idiomas, elaboração de curriculum, processo para conseguir documentos, etc.
A metodologia básica para essas mudanças é a implantação do capital social na biblioteca, onde a instituição inicialmente elabora um diagnóstico de sua comunidade, traçando os pontos fortes e fracos e definindo uma política com impactos na formulação e na geração de emprego e renda, gerando também um grande impacto na economia comunitária.
Quando se busca a biblioteca inclusiva, o profissional tem que dar o exemplo sempre. Fui diretor da Biblioteca Central da UnB e o serviço que me deixou muito otimista foi que, todo semestre, a biblioteca recebia cerca de cinquenta adolescentes com síndrome de Down, e eles aprendiam a trabalhar com os livros e a realizar pequenos trabalhos de encadernação. No final do estágio, todos ingressavam no mercado de trabalho.
No mês passado, fui convidado para participar como consultor de um projeto na Espanha intitulado Solidão Não Desejada. Trata-se de um projeto que será implantado nas bibliotecas públicas, inicialmente da Espanha, pois parte expressiva da população está vivendo, cada vez mais, em um ambiente de total solidão, e, no mundo, além do aumento da solidão, aumenta também a questão da depressão. Portanto, são projetos que serão realizados com total participação das populações que enfrentam esses tipos de problemas.
Sobre o autor
Professor Titular aposentado da Faculdade de Ciência da Informação da Universidade de Brasília. Pesquisador Colaborador da Coordenação de Ensino e Pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Atualmente é Bolsista de Produtividade em Pesquisa Sênior do CNPq. Foi Diretor do Departamento do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura e do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.
Doutor em Ciência da Informação pela Universidad Complutense de Madri. Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba. Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília. Pós-doutorado pela Universidad Carlos III de Madri.
Redação: Emir José Suaiden
Fotografia: SECON/UnB
Revisão: Marcos Leandro Freitas Hübner
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima









