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v. 3, n. 11, nov. 2025
Pobreza em informação e violência doméstica: um olhar a partir de Elfreda Chatman, por Natália Nascimento

Pobreza em informação e violência doméstica: um olhar a partir de Elfreda Chatman, por Natália Nascimento

Pobreza em informação e violência doméstica: um olhar a partir de Elfreda Chatman

Natália Francisca Nascimento da Silva
natalia.nsilva@ufpe.br

Em minha pesquisa “O comportamento em informação de mulheres vítimas de violência doméstica” (Silva, 2022), fixei-me nas ideias da pesquisadora afroamericana Elfreda Chatman (1996, 1999, 2000), que dedicou grande parte de sua trajetória a compreender como pessoas em situação de vulnerabilidade social lidam com a informação — ou, muitas vezes, com a falta dela. 

Elfreda Chatman observou que existem grupos sociais que, por diversos motivos, não buscam as informações de que precisam, seja por medo, vergonha, falta de acesso ou por acreditarem que não têm direito a esse conhecimento. Ela chama isso de “pobreza em informação”, um conceito que vai além da simples ausência de informação ou conhecimento. Trata-se de uma condição em que a pessoa não consegue agir de forma autônoma, justamente porque não dispõe das informações necessárias para tomar decisões e transformar sua realidade.

Chatman investigou como a informação circula dentro de determinadas comunidades e percebeu que, muitas vezes, as normas sociais e culturais funcionam como barreiras invisíveis, dificultando ou impedindo o acesso à informação. Para se adequar aos padrões e expectativas sociais, algumas pessoas preferem se calar ou fingem desinteresse, mesmo quando precisam desesperadamente de algum tipo de informação ou conhecimento.

Segundo Chatman, há quatro fatores que ajudam a explicar esse processo, os quais intitula de “fatores DNA da Pobreza em Informação”:

  1. Vida em círculos: quando a pessoa se limita a um pequeno grupo social e evita buscar ajuda fora dele;
  2. Sigilo e engano: que refletem o medo de se expor ou de ser julgada;
  3. Disposição para assumir riscos: necessária para romper o silêncio em relação à necessidade por informação e assumir o processo ativo de busca informacional;
  4. Relevância situacional: a importância crucial que a informação tem em determinado momento da vida da pessoa.

Aplicamos esses fatores DNA da Pobreza em Informação para entender o comportamento em informação de mulheres vítimas de violência doméstica. Queríamos compreender como elas buscam — ou deixam de buscar — informações que poderiam ajudá-las a romper com o ciclo da violência.

Em primeiro plano, foi perceptível que a pobreza em informação está fortemente presente no cotidiano das vítimas de violência doméstica entrevistadas no estudo. O ambiente social, cultural e econômico influencia diretamente como essas vítimas assumem que precisam de informação, a buscam, a compartilham e se apropriam dela.

Como se constata a partir das entrevistas, na maioria das vezes, as mulheres não sabiam a quem recorrer em busca de orientação, não se sentiam confortáveis em expressar a necessidade latente por informação ou desconfiavam dos agentes externos (instituições, como as delegacias para mulheres), levando-as na maioria das vezes a esconder as crueldades sofridas, na tentativa de aparentar uma falsa “normalidade”.

Essa dificuldade é mais uma expressão da pobreza em informação que as mantêm por muito tempo isoladas e circunscritas ao cenário doméstico onde ocorrem as violências, o que retarda o enfrentamento à violência doméstica sofrida, podendo culminar no crime do feminicídio, além de favorecer diretamente a impunidade de seus algozes.

É pertinente dizer que Chatman expandiu os estudos sobre o comportamento em informação para olhar além do paradigma de acesso informacional, buscando entender como as relações cotidianas, os conflitos e as interações socioculturais moldam a maneira como as pessoas percebem uma lacuna informacional e decidem solucioná-la. Ela demonstrou que a forma como a informação circula e é apropriada pelas sujeitas e sujeitos está profundamente ligada à vida social — e que o conhecimento compartilhado pode se tornar uma ferramenta poderosa contra a exclusão e minorização sociais, a desigualdade e o sexismo, frutos diretos do patriarcado.

A violência contra a mulher é um problema histórico e estrutural, sustentado pelo machismo e pela desigualdade de gênero. Ela assume várias formas — física, psicológica, sexual ou moral — e, na maioria das vezes, acontece no ambiente doméstico. Enfrentar esse problema exige mais do que leis: precisa-se de informação, educação e mudanças culturais profundas.

Percebemos que essa violência é uma das formas mais cruéis de opressão enfrentada pelas mulheres e que apenas a partir da busca por ajuda é possível enfrentar e combater o cenário de brutalidade que as subjuga. O acesso à informação se mostrou essencial nesse processo: ele empodera, dá voz e abre caminhos para a autonomia.

Mesmo com avanços importantes, como a Lei Maria da Penha, é necessária a ampliação das políticas públicas, a garantia na igualdade de oportunidades e o fortalecimento da presença feminina em espaços decisórios, como a esfera político-representativa e os movimentos sociais.

Assim, podemos entender que o esquema de Chatman é um ponto de partida excelente para lembrar que, na Ciência da Informação, é urgente sair do olhar genérico sobre as questões informacionais. A informação não é usada da mesma forma por todos. É essencial o entendimento dos motivos pelos quais, mesmo necessitando de informações, muitas pessoas optam por não buscá-las nem delas se apropriar.

No âmbito da Ciência da Informação é oportuno investigar a forma pela qual as regras e costumes sociais definem o que é importante informar, de que forma e para quem. Ao estudar os fluxos e comportamentos de populações propositadamente excluídas e minorizadas, como as mulheres, podemos identificar e criar formas mais democráticas e horizontais de disponibilizar a informação. O foco deve ir além de “usuários” ou “não usuários”, “interagentes” ou “não interagentes”: precisamos entender os fatores sociais que levam as pessoas a resistir em buscar informação, o grau de confiabilidade necessário para o acesso informacional e, principalmente, todos os vieses, percalços e implicações da apropriação da informação pelas sujeitas e sujeitos.

Deve-se jogar luz sobre o quanto o acesso e a apropriação da informação proporcionam protagonismo e autonomia para pessoas “comuns” em suas problemáticas e vivências cotidianas.

Referências

CHATMAN, Elfreda Annmary. The impoverished life-world of outsiders. Journal of the American Society for Information Science, New York, v. 47, n. 3, p. 193-206, 1996. Disponível em: https://tefkos.comminfo.rutgers.edu/Courses/612/Articles/ChatmanOutsiders.pdf . Acesso em: 29 set. 2025.

CHATMAN, Elfreda Annmary. Theory of life in the round. Journal of the American Society for Information Science, New York, v. 50, n. 3, p. 207–217, 1999.

CHATMAN, Elfreda Annmary. Framing social life in theory and research. The New Review of Information Behaviour Research, London, v. 1, p. 3-17, dez. 2000. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/234822377_Framing_Social_Life_in_Theory_and_Research . Acesso em: 28 set. 2025.

SILVA, Natália Francisca Nascimento da. O comportamento em informação de mulheres vítimas de violência doméstica: análise das barreiras sociais de acesso à informação na perspectiva de Chatman. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação). Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife (PE), 2022. Disponível em: https://attena.ufpe.br/bitstream/123456789/46202/1/DISSERTAÇÃO%20Natália%20Francisca%20Nascimento%20da%20Silva.pdf . Acesso em: 01 set. 2025.

SILVA, Natália Francisca Nascimento da; PRESSER, Nadi Helena; LIMA, Izabel França de. O comportamento em informação de mulheres vítimas de violência doméstica: análise das barreiras sociais de acesso à informação na perspectiva de Chatman. Em Questão, Porto Alegre, v. 29, p. 125152, 2023. DOI: 10.1590/1808-5245.29.125152 . Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/125152 . Acesso em: 08 out. 2025.

Sobre a autora

Natália Francisca Nascimento da Silva

Coordenadora da Biblioteca Setorial do Centro de Biociências na Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisa a temática do Comportamento Informacional e Estudos de Usuários, com foco em  Mulheres Negras e todas as implicações dos marcadores de raça e gênero nos contextos socioculturais relacionados ao acesso à informação.

Mestra em Ciência da Informação na Universidade Federal de Pernambuco. Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Pernambuco.


Redação: Natália Francisca Nascimento da Silva

Fotografia: Natália Francisca Nascimento da Silva

Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

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