
Ciência da Informação, Estudos de Gênero e Estudos Queer: relações existentes, por Abe Muniz Pinto

Ciência da Informação, Estudos de Gênero e Estudos Queer: relações existentes
Abe Muniz Pinto
abejr199@gmail.com
A Ciência da Informação (CI) passou por mudanças de paradigmas, de métodos e até mesmo do próprio entendimento do que é informação. A ciência precisa se atualizar para acompanhar o desenvolvimento do indivíduo, onde novas perspectivas surgem e então, a partir de novas perspectivas, novos questionamentos, novas críticas, surgem novas necessidades informacionais. É interessante pensar que em determinado momento essas necessidades eram tratadas com análises estatísticas de enormes quantidades de conhecimento em suporte físico e, em outro momento, as necessidades eram sanadas com pesquisas de usuários, comunidades discursivas e atenção às demandas sociais.
A CI em sua história como ciência também passou a entender a informação como poder. Quem obtém determinada informação, exerce poder sobre outra ou outras pessoas. Daí é possível entender as relações de poder, explicitadas por Michel Foucault. De maneira mais evidente: a informação é arquitetada para ser entregue de determinada maneira que atinja os objetivos de quem emite sobre quem recebe a informação. Não por acaso, assuntos como competência informacional, regimes de informação e pós-verdade (e não somente esses) tratam dos impactos sociais que as informações causam, a partir das relações de poder exercidas. Essas relações podem ser percebidas a partir dos marcadores sociais, um desses marcadores sociais é o gênero.
Os Estudos de Gênero tiveram seu início na Antropologia e possuem três “ondas” (alguns pesquisadores também utilizam o termo “tendências de pesquisa”): o primeiro momento marcado pelos chamados “estudos da mulher”, que tinha como objetivo a emancipação da mulher do sistema patriarcal, observando as relações entre “homem x mulher”; em seguida, foi percebido que mesmo entre as próprias mulheres havia relações diferentes, como, por exemplo, as relações entre mulheres brancas e mulheres negras, nesse momento também surgiram os estudos das masculinidades, pois também atentou-se para as relações entre os homens brancos e homens negros, por exemplo; por fim, o terceiro momento foi marcado pela efetivação da existência de pessoas que fogem às normas binárias e heterossexuais de gênero e sexualidade, é possível citar, nesse caso, as relações entre mulheres cis/hétero e mulheres lésbicas e mulheres trans. Ou seja, os Estudos de Gênero são compostos pelos Estudos Feministas, Estudos Étnico-Raciais e Estudos Queer (comunidade LGBTQIAPN+).
É possível então perceber que as áreas não somente acenam uma à outra, a CI e os Estudos de Gênero são boas amigas, que se auxiliam com metodologias e teorias. É possível entender a contribuição dos Estudos de Gênero à CI, de maneira prática, entendendo as possibilidades de pesquisa e inovações no âmbito social provenientes do GT-12 do ENANCIB – Informação, Estudos Étnico-Raciais, Gênero e Diversidades. Então, se as duas áreas conversam, se dão bem e existe um grupo de estudos sobre o tema, por que existem necessidades informacionais básicas que ainda não foram solucionadas?
No mês do Orgulho LGBTQIAPN+ é importante lembrar que, de acordo com a ANTRA (2024), apenas 0,3% das pessoas trans acessam o Ensino Superior no Brasil. E quando acessam, o sistema não lhes oferece suporte necessário para que o nome social seja incluído sem constrangimentos, apesar de existir legislação que torna obrigatório o uso do nome social para pessoas trans em órgãos públicos (BRASIL, 2016).
E na prática da pessoa bibliotecária, arquivista, museóloga, cientista da informação, é possível apontar uma problemática proveniente do ato de organizar e representar a informação e o conhecimento: o apagamento. O Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (IBICT, 2014) não apresenta termos referentes a “gênero”, nem mesmo o tema “diversidade” é recuperado no tesauro. Levando em consideração que periódicos utilizam o Tesauro para que pessoas autoras recuperem as palavras-chave de seus trabalhos, não será possível uma classificação e organização bem-sucedidas se o trabalho for, por exemplo, sobre gênero e sexualidade.
A CI possui trabalhos que tratam sobre a importância dessas perspectivas para a área, como por exemplo: Práticas informacionais entre bibliotecários(as) de referência e usuários(as) LGBTQIA+ (Santana; Melo, 2022); Análise do regime de informação das políticas públicas para pessoas transexuais no estado de Pernambuco (Pereira, 2025); Informação e transgeneridade: o comportamento informacional de mulheres transgêneras e as percepções da identidade de gênero (Pinto, 2018); Violência contra travestis e transexuais (Côrtes; Silva; Silva; Soares, 2018), entre outros que apresentam resultados relevantes e mostram que a CI possui as ferramentas necessárias para o combate às violências.
Nos trabalhos de conclusão dos cursos de Pós-Graduação em CI no Brasil, até 2023, foram recuperados 18 trabalhos sobre gênero e comunidade LGBTQIAPN+ (Pinto Junior, 2023), das teses e dissertações analisadas, as três autorias mais citadas sobre a questão de gênero são: Guacira Louro, Judith Butler e Michel Foucault. As três pessoas discorrem sobre o gênero como sendo um construto social, cada um à sua maneira: Guacira Louro fala sobre o gênero e a educação; Judith Butler discute sobre o gênero e os papeis sociais; e Michel Foucault trata sobre o poder que o gênero exerce nos indivíduos.
Dessa maneira, percebe-se uma necessidade e um ritmo crescente de estudos que envolvam os Estudos de Gênero e, mais especificamente, os Estudos Queer e a CI. Ainda a partir de Pinto Junior (2023), foi possível verificar os temas mais presentes nos trabalhos: análise da produção científica, arquitetura da informação, comportamento informacional, organização do conhecimento, regime de informação, memória, práticas informacionais.
Como uma proposta de atendimento às necessidades informacionais que dizem respeito a gênero na CI é possível citar Pinho e Milani (2020) cujo trabalho abordou a ética na Organização do Conhecimento e categorizou termos de gênero e sexualidade, utilizando o PMEST e o metafiltro. Ainda sobre classificação, Fox (2011) sugere que os conceitos podem ser situacionais e podem ser utilizados de acordo com o meio onde estamos inseridos, ou seja, esses dois exemplos nos permitem entender a classificação como um processo consciente e humano.

Depreende-se, portanto, que a CI e os Estudos de Gênero (e suas ramificações), possuem temas e estudos que visam combater violências sofridas de maneira psicológica e até física por grupos marginalizados. A CI possui um trabalho mais que importante na manutenção e gestão da informação, entretanto, a partir das práticas teórico-metodológicas, é necessário se questionar: como diminuir as violências na ação de “separar por classes”?
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (ANTRA). Nota técnica sobre ações afirmativas para pessoas trans e travestis na educação superior. Brasil: ANTRA, 2024. Disponível em: https://antrabrasil.org/2024/09/23/antra-nota-tecnica-cotas-trans-2024/ . Acesso em: 9 jun. 2026.
CORTES, G. R.; SILVA, L. F. da; SILVA, L. K. R. da; SOARES, G. S.; BELTRÁN, N. P. Violência contra travestis e transexuais. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v. 10, n. 2, 2017. Disponível em: https://revistas.ancib.org/index.php/tpbci/article/view/429 . Acesso em: 04 jun. 2026.
FOX, M. J. Prototype Theory: an alternative concept theory for categorizing sex and gender? In: Smiraglia, R.P. (ed). Proceedings from North American Symposium on Knowledge Organization, v. 3, p. 151-159, 2011.
PEREIRA, R. A. Análise do regime de informação das políticas públicas para pessoas transexuais no Estado de Pernambuco. 2025. 188f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Recife, 2025. Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFPE_0d00afc3816d1811e9dae33810e1035d. Acesso em: 05 jun. 2026
PINHEIRO, L. V. R.; FERREZ, H. D. Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação. Rio de Janeiro; Brasília: Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), 2014. 384p. Disponível em: https://www.gov.br/ibict/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes/TESAUROCOMPLETOFINALCOMCAPA_24102014.pdf. Acesso em: 05 jun. 2026.
PINHO, F. A.; MILANI, S. O. Ética em Organização do Conhecimento: categorização de termos fronteiriços em relação a gênero e sexualidade. Logeion: Filosofia da Informação, Rio de Janeiro, RJ, v. 6, n. 2, p. 84–103, 2020.
PINTO, E. M. Informação e transgeneridade: o comportamento informacional de mulheres transgêneras e as percepções identidade de gênero. 2018. 136f. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Brasília, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, 2018, Brasília. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/32044. Acesso em: 05 jun. 2026.
PINTO JUNIOR, A. M. Produção científica de estudos de gênero na ciência da informação sobre a comunidade lgbtqiapn+. 2023. 106 f. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal do Pará, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Belém, 2023. Disponível em: https://sucupira-legado.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=13800493 . Acesso em: 05 jun. 2026
SANTANA, S. R. DE; MELO, M. L. D. DE. Práticas informacionais entre bibliotecários(as) de referência e usuários(as) LGBTQIA+: uma reflexão epistêmica sobre a construção social e coletiva da informação gênero-sexualidade em Bibliotecas. Folha de Rosto, v. 8, n. 1, p. 249-276, 29 abr. 2022. Disponível em: https://periodicos.ufca.edu.br/ojs/index.php/folhaderosto/article/view/842. Acesso em: 05 jun. 2026
Sobre a pessoa autora
Estudante de doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco. Mestre(a) em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Pará. Bacharel(a) em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Pará.
Redação: Abe Muniz Pinto
Fotografia: Abe Muniz Pinto
Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima










